quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

PARATY


Paraty, foto by Antonio Carlos Januário

MAR DE MINEIRO


Foto by Antonio Carlos Januário

Um amigo envia-me, após o carnaval, algumas belas fotos que tirou de Paraty, RJ. Cidade historicamente ligada a Minas Gerais, era por suas praias que escoava o ouro de nossa região para Portugal. “Seria Minas mais com mar em Paraty?, diz um verso que fiz em um poema sobre Minas e a ressonância de seus nomes.

O que me chama a atenção em fotos que vejo dessa cidade são os reflexos de seu casario colonial em poças d’água nas ruas. Parece ser um padrão, poeticamente explorado em fotografia. Algo que me evoca Veneza, também um ideal, ou Meca, para fotógrafos amadores ou profissionais.

Valéria Vaz, fotógrafa, formada em História, com especialização em Artes Visuais, em seu blogger ‘Janelas Abertas, nos dá um explicação para tais poças que parecem ser uma constante em Paraty.

Ela nos informa: "...no início do século XVIII, devido às epidemias de cólera e febre amarela, a preocupação com a salubridade fez com que o projeto da vila de Paraty previsse que as ruas fossem feitas com uma leve curvatura para evitar vento encanado (considerado na época um transmissor de doenças), escoar água da chuva e permitir a invasão de marés mais altas como forma natural de manter a cidade limpa..."

De outras fontes, constato que, realmente , o centro histórico da cidade, com seus calçamentos irregulares, chamados 'pé de moleque', tem em suas ruas uma certa inclinação que permite o escoamento das águas da chuva e a penetração da água do mar, em períodos de maré alta. Daí, o paraíso dos reflexos, talvez um clichê, um belo clichê, para os amantes da arte das imagens.

As poças, as antigas igrejas, o casario colonial, o calçamento das ruas , tudo parece contribuir para que se registre uma atmosfera de sonho quando se visita Paraty.

E sugestivos reflexos também devem proporcionar seu mar. Porém, além da limitante geografia, e lembrando o poeta Cacaso, "... mar de mineiro é vinho/ mar de Mineiro é vão...', Paraty é o mar de mineiro, por direito e excelência, que reflete a alma de Minas Gerais.
Fernando Campanella

O FAZENDEIRO DO MAR
(DO POETA MINEIRO CACASO)
Mar de mineiro é
inho
mar de mineiro é
ão
mar de mineiro é
vinho
mar de mineiro é
vão
mar de mineiro é chão
Mar de mineiro é pinho
mar de mineiro é
pão
mar de mineiro é
ninho
mar de mineiro é não
mar de mineiro é
bão
mar de mineiro é garoa
mar de mineiro é
baião
mar de mineiro é lagoa
mar de mineiro é
balão
mar de mineiro é são
Mar de mineiro é viagem
mar de mineiro é
arte
mar de mineiro é margem
(...)
Mar de mineiro é
arroio
mar de mineiro é
zem
mar de mineiro é
aboio
mar de mineiro é nem
mar de mineiro é
em
Mar de mineiro é
aquário
mar de mineiro é
silvério
mar de mineiro é
vário
mar de mineiro é
sério
mar de mineiro é minério
Mar de mineiro é
gerais
mar de mineiro é
campinas
mar de mineiro é
Goiás
Mar de mineiro é colinas
mar de mineiro é
minas


quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

BAR DE ESQUINA



Foto: Capa do disco 'Clube da esquina' foto do blogger:
1discopordiaportalrockpress.blogspot.com

http://www.youtube.com/watch?v=4RWMzcRgYsc

"Porque se chamava moço, também se chamava estrada..." O cantor inicia a apresentação da noite com 'Clube da esquina 2', uma de minhas canções preferidas da parceria de Milton Nascimento com Lô Borges e o irmão Márcio Borges.

Penso que a dedica a mim, ali sentado, porque talvez saiba, por um estranho dom de artista, como penetrar o coração dos homens e remexer ali sonhos mesclados a feridas. Mas sei que ele canta para si, para o bar como um todo, para uma audiência em potencial que divaga e toma carona na noite. E que o que canta, sobretudo, veio de alguém que num certo momento, numa certa confluência de sensibilidade e inspiração, colocou em música algo que lhe tocou a alma.


Porém, todos nós, autores, cantores, freqüentadores da noite e de uma certa embriaguez da vida , somos como donos daquela música que nos une, que nos transforma em mariposas volteando uma interna e calma luz .

Àquele som, vou rastreando um vento antigo, meus passos na contramarcha do tempo, revivendo outras décadas quando as pessoas eram também outras. Bares já apagados da história vão surgindo . E sinto como mudei, envelheci, mas meu coração ainda do tamanho daquelas épocas, pulsando naquele doce encadeamento da melodia.

Troquei de lugares, posturas. A cidade já não é a mesma, algumas pessoas já nem mais aqui se encontram. E isso, essa viagem no tempo, passa a costurar certa nostalgia dentro de mim. Quantos daqueles sonhos ainda me sonham? Quantas chamas ainda alimento para sobreviver aos fatos sempre mudando, aos palcos em que vou girando?

"Esquina mais de um milhão, quero ver então a gente, gente, gente" , diz o fim da canção. Quem ouviu sabe que é bem assim, pessoas chegam e desaparecem , temos que nos adaptar às cambiantes configurações do mundo.


Porém, quem está ali ao meu lado acompanha a música comigo, identifica-se com ela, com uma diferente carga emocional, uma disposição mais leve, talvez como um colibri que experimentasse pela primeira vez a surpresa de uma flor.

E eu retorno de minha viagem, o presente é o bar onde estou, lá fora a noite é a mesma antiga sombra respingada de estrelas, a terra neutra girando , o mundo um teimoso jovem fazendo-se eterna estrada.

‘E lá se vai mais um dia’... Deixemos ir os anos, concluo, a vida não nos quer para sempre, nem apegados ou tristes. Um dia também passamos, todos, mas longa vida à alegria.


Fernando Campanella

LUZ CADENTE


Foto by Fernando Campanella


Serão miragens
aqueles tons em cobre
ondulando em folhas na tarde?
Meus olhos devem andar poéticos
ou delirantes.
Ou mais febril a minha percepção
que entende
que os animais atendem
às nuances que a luz da tarde concede.
Luz e folha devem ter naturezas atadas
em delicado, intraduzível elo
que traça o pássaro ao ninho.
Não sei.
O que para as aves deve ser
algo como arbóreas núpcias
em mim
é um degredo em ecos,
um vago ruflar de um sentido.

Minha razão nada pode
contra a luz cadente
que vela e desvela
aquele tom amêndoa
- ferrugem quase dor,
quase leve -
que a alma agora consente
e que de volta
à presciência do mundo,
ao ninho da terra
vai me cumprindo.


Fernando Campanella

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

CAMPO DE TREVOS


Flor do trevo, foto by
Fernando Campanella

O coração em vinho tinto,
as pedras lisas
e ao dobrar de cada esquina
um dragão.
Vamos, me dê a mão.
No amor em seus labirintos
nos percamos com cuidado -
ah, este risonho campo de trevos,
minado.


Fernando Campanella

PASSEIO NO JARDIM


Foto by Fernando Campanella

Solitário cri de um grilo
que acasala outros cris
e crispa de amorosa eternidade
a sonolência úmida do jardim.

Fernando Campanella

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

FOLIA DE MINAS

Foto by Antonio Carlos Januário

Suspiram os saudosistas pelos antigos carnavais. Pura nostalgia! Cada um vive o carnaval de sua época. E cada época tem sua cota de encantos e decepções.

Para os foliões de hoje, o carnaval-espetáculo, os trios-elétricos, a música da Bahia, os grandes palcos montados para os shows de rua, e até o funk, falam na linguagem que entendem, e os motivam para a celebração festiva dos quatro dias.

Porém, se eu fosse criar um enredo para uma escola de samba, o tema seria ‘Maria-fumaça, me leva para os antigos carnavais de Minas’. Uma homenagem à grandeza local, fora dos grandes circuitos, do eixo das noticiadas folias do Momo pelo país.

A frente de uma comprida locomotiva seria o abre-alas, em formato de uma máscara estilizada, de onde se desprenderiam empuxos de fumaças de confetes em várias cores. As alas do comboio seriam vagões, com nomes de antigos blocos, ranchos, cordões e escolas de samba de cidades de todo o estado. Nomes como ‘Sossega, leão’, ‘Bando da lua’, ‘Caricatos de Araxá' , e mais e tais, puxariam este encantado trem da memória dos carnavais de Minas.

Dentro dos vagões, viriam os participantes, com as indefectíveis fantasias: arlequins, malandros, espanholas, pierrôs, colombinas, gondoleiros de Veneza, baianas, índios... Todos vestindo a camisa dos seus blocos, entoando as respectivas marchinhas, sambas-enredo, nas mil e uma noites de imersão na euforia.

Pessoas de Santa Rita do Sapucaí apontariam para o vagão de sua cidade, com os blocos arqui rivais, Ride Palhaço e Democráticos’, comentando: 'este desfile de meu bloco foi o melhor carnaval de todos os tempos.’ Uma senhora de Mariana se encantaria com o tradicional bloco do Zé Pereira, seu vagão apinhado dos bonecos que há 155 anos alegram o carnaval local. E habitantes de Leopoldina se divertiriam com seus ‘blocos dos sujos’, com o mestre Vitalino Duarte, que nos carnavais antigos saía pelas ruas da cidade com uma uma burrinha, cantando:

'Arranjei uma burrinha,
Para brincar no carnaval,
Ai, ai, ai!
Ai, ai, ai!
A orelha era de palha
E o rabo de jornal...'

Juiz de Fora veria um de seus empolgantes carnavais, o de 1966, quando uma escola de samba apresentou o enredo ‘Mascarada Veneziana', colocando na avenida seu primeiro carro alegórico, uma piscina com uma gôndola a flutuar. Belo horizonte teria seus ‘corsos’ representados, carros conversíveis enfeitados com serpentinas, bandeirolas, transportando, belas mulheres e figuras da sociedade local.

Cada um dos assistentes traria para sua cidade um imaginário, merecido troféu de melhor carnaval do mundo, na mais saudável , disputada, alegria.

O enredo teria como costura estas celebrações já idas de gerações e gerações, a explosão dos sentidos manifestando-se nos mais remotos , mineiros grotões.

Estaria, certamente, fora da mídia esta minha inusitada escola. Os grandes jornais e a TV não teriam interesse no carnaval de uma Capelinha, ou de uma Santa Maria de Itabira, por exemplo. Não importa. Minha locomotiva passaria como a vida que em todos os cantos acontece, e passa. Vida que no carnaval se disfarça, de si própria escapa, dando seu grito de alegoria.

A comissão de frente puxaria o desfile , cantando:

‘Maria fumaça, ô, ô,
me leva pra folia de Minas,
pro bloco do Uai,
pro esquindô, esquindô...’

Fernando Campanella, 20 de Fevereiro de 2009


Fontes de Pesquisa: 1) Site: 'Brasil: História e Ensino', 'Uma breve história do carnaval', por Natania Nogueira. 2) Site: rota do samba.com , 'Carnaval em Juiz de Fora', por Renan Alexandre Ligabo de Carvalho e Victor de Oliveira Rosa, com citações da Revista 'Em Voga', e Coimbra (1994).