quinta-feira, 14 de maio de 2009

LAPSO


Foto by http://2.bp.blogspot.com/_

Nenhum verso estalou
no burburinho dos meses -
nenhum sentimento
em ressonância
ou revérbero
de cristais.

A vida sem poesia é lapso:
urso polar
em hiatos invernais.

(Fernando Campanella,

da série 'O Eu Confesso', poema XII)


quarta-feira, 13 de maio de 2009

VERSOS PARA CECÍLIA


(A Cecília Meireles)

Mesmo se tomasse por empréstimo
tua metáfora quando em mim pousam
leves teus versos, não a poderia tornar minha
que tão íntimo e próprio é meu silêncio
e meu ser vai disperso por outros ventos.
Posso sentir tua beleza recolhida e doce
no que evidente se mostra e no que se intui
na arquitetura sonora de teus versos.

O resto repousa na chave supra-humana
dos enigmas. Por isso então escrevo,
mais nada.
Fernando Campanella, 24 de Agosto de 1986

AMAR

õ
Foto by 1.bp.blogspot.com
/.../667SJAQjtS0/s320/odres.jpg

Vive em mim o primitivo verbo
que os revezes da sorte
jamais suprimiram
ou lograram apagar.
Murmuro seu nome
tão límpido e lato
quando a alma da noite,
despida do mundo,
dentro de mim cresce.
Bebo então de suas gotas
de seu orvalho refratado

e como um velho vinho me sinto
a espuma boa derramada do odre.

Fernando Campanella, 1990

terça-feira, 12 de maio de 2009

EPHEMERA


Foto by Fernando Campanella

( A Leila)

Breve
como o dia
uma neve
e tudo
que se enseja.

Breve
como eu, você
um transe
uma nossa aliança

e a sombra
que nos corteja.

Breve, mas com leveza -
eis inteira a diferença-
e terno como a luz
que nos beija.

Fernando Campanella

EPHEMERA

(To Leila)

Brief
as a day
as a leaf
and everything
we might.

Brief
as you and I
a trance
a flattering shadow
our alliance.

Brief, but with levity -
that’s the whole difference-
and tender
eternal
as the kissing light.

Fernando Campanella


domingo, 10 de maio de 2009

RESQUÍCIO


Foto by Fernando Campanella

Às vezes
a dor de chuvas passadas
cai em mim fina,
reelaborada,
a tanto de não ser eu
assim mais que uma bolha
na espuma da tarde
molhada.

Fernando Campanella

quinta-feira, 7 de maio de 2009

METÁFORA


Foto by Fernando Campanella

Já não tento reter do dia
a luz que, por exata, concede
a chama alquímica dos amantes
a doçura de pétalas breves.
O tempo tem o galope das Fúrias
ventos que jamais enternecem.

Melhor correr, da memória, o labirinto,
drenar os aquíferos fundos
e aguardar: o que restar
será na noite a forma intáctil,
o espectro redivivo.

(Mais no mundo me tardo,
mais no comando de sombras
me esmero.)

Deus conceda que me baste
este último apelo de náufrago:
a metáfora,
pétala incorpórea com que me visto.

Fernando Campanella (Julho de 2006)