sábado, 27 de junho de 2009

CURARE


Foto: frasco de curare
by Marcia Valle, de sua galeria no Flickr*


O amor é ora barroco
ora me liberta -
que sono é esse
que mais que me adormece
me desperta

que erva as flechas
e me deita em asas -
delicado veneno
para qual o antídoto
é o mesmo amor.

Fernando Campanella

*Foto: "Veneno indígena, Curare, extraido em 1897 e guardado nesse frasco em 1900 por meu bisavô, Antonio Procópio do Valle Junior, em sua pharmacia Procópio, na cidade de Rio Novo, Minas Gerais, Brasil." (Marcia Valle)

quinta-feira, 25 de junho de 2009

REVISITADO


Foto by Fernando Campanella


Bem-vindo à minha casa
mas se quiseres ir ao sótão
traz as velas , algo ali vive
que não permite a crua luz
escancarada.

Eu o revisito tantas vezes
e não me incomodam seus trastes,
alguns ratos - eles me convivem,
eu sou o velho hóspede da casa.

Subo e desço no cotidiano ato,
gosto de ir às vezes regar,
antes que esquecidas mal cheirem,
as flores de meu cercado
(com a palma de meus olhos
acaricio as ternas fugacidades).

Desço e subo, vou por estes cômodos
sonambulando.

Acomoda-te em minha casa
mas se quiseres entrar em meu sótão
acende as velas.

Ali já estou aclimatado,
sou amigo do gato, eu furto a luz
pelas mínimas frestas do telhado.
Ali todas artimanhas já incorporei,
eu sei dos hábitos, eu me convivo -

eu sou o velho fantasma da casa.

Fernando Campanella

REQUIESCAT


Trabalho de formatação por Leila Laderzi

De meu mar, permito-te as ondas
e as praias que poéticas conchas te trazem.
Tais suaves mistérios te concedo, mais as algas
e as gaivotas que bicam tecidos de luz na tarde.

Povoados de ti, de mim,
os barcos que chegam e ardem.

Adere-te, pois, ao sal que a mim te chama.
Cobre teus pés em espuma e encanto,
molha teu rosto
nas claras águas que o dia me abre.
(Em paz, fiquem minhas dorsais,
descanse meu leviatã esconso)

Fernando Campanella

terça-feira, 23 de junho de 2009

PLÁSTICA


Foto by Fernando Campanella

A luz é palpável
a cor é palpável -
dizem os mestres
das formas.


Eu palpo as palavras
que caem à revelia.

Fernando Campanella

segunda-feira, 22 de junho de 2009

AO MUNDO


Foto by Fernando Campanella

Vai entender os poetas
os que rastreiam a luz esconsa
o verbo intáctil
das manhãs.

Alcançariam seu intento
quando a noite os desperta
(real tormento)
a cada incauto morder de romãs?
Sim, pois destilam os sonhos
nas entrelinhas.

Ao mundo, o que é do mundo,
ao estado límpido de alma
(entendamos os poetas)
o que da comunhão dos pastores,
da poesia.

Fernando Campanella

quinta-feira, 18 de junho de 2009

EFEMÉRIDES (JUNHO)


Foto by Fernando Campanella

Junho é um grasnar solitário,
é uma gralha
que ao colo da araucária retorna.

As garras da ave, desprendidas do dia,
soltam as sementes que meus olhos
em silêncio recolhem.


(Fernando Campanella
da série “Efemérides”)

A GRALHA AZUL


http://1.bp.blogspot.com/_5ItmkEGoJ4o/SaBRwojAzfI
/AAAAAAAAE3A/YS_qx9PzM7I/s400
/gralha+azul+-+Cyanocorax+caeruleus+-+
Takao+Takayama.jpg

Gosto de percorrer as enciclopédias, impressas ou eletrônicas, hábito adquirido na infância, em busca da história e da geografia, nossas e de outros povos, do mundo natural, das conquistas da ciência e do espírito das artes.

Nessas maravilhas informativas, os espaços dedicados às árvores e aos animais, em particular às aves, são os que mais me encantam, e, ao mesmo tempo me entristecem: junto a belíssimas fotos e informações sobre determinado membro do reino vegetal ou animal há sempre o malfadado carimbo de ‘espécie em extinção’.

A gralha azul , ave símbolo do Paraná, é uma, como tantas, dessas espécies condenadas ao desaparecimento pela irreversível, depredatória, ocupação humana do espaço natural.

Ave de majestoso porte, medindo em torno de 40 cm do bico à cauda, é considerada uma das grandes aves brasileiras. Vive em bandos de 4 a nove indivíduos, prefere espaços fechados, como as matas, e prestam auxílio mútuo na limpeza das belas plumagens.

À parte toda sua majestade e beleza, a gralha azul destaca-se por um comportamento previdente que enorme serviço tem prestado à disseminação das araucárias no sul do país. Na época de fartura dos pinhões, ela enterra alguns deles, a longas distâncias, armazenando-os, assim, para ter alimento na época da escassez. E como, por tanto alimento estocado, se esquece muitas vezes de onde o colocou, as sementes poupadas gerarão novas árvores. Daí a sua elevação a ave símbolo do Paraná , estado caracterizado geograficamente por suas grandes extensões de araucárias.

Essa ave ícone, não só de um estado, mas, por extensão, de toda uma conscientização ecológica, tem inspirado inúmeras lendas cujo tema é precisamente a necessidade do respeito e da preservação de nosso ecossistema.

A gralha azul , assim como outras espécies ameaçadas da terra, ainda é real, visível e atuante, porém, corre o risco de viver apenas em suas lendas, ou na arte, tornando-se um elo perdido, símbolo, não mais de um estado, mas de um paraíso sonhado, para sempre em retrospecto.

"Nas enciclopédias multimídias do terceiro milênio
Os dinossauros verdes e alados do mundo
Serão o ‘cult’ da garotada.
Os teóricos vão digitar sobre a extinção
Das árvores, dos pássaros, em massa."
(Poema de Fernando Campanella, 1990)

Fernando Campanella

Fonte: Pavilhão Literário Cultural Singrando Horizontes - José Feldman