sábado, 1 de agosto de 2009

EFEMÉRIDES (AGOSTO)


Foto by Fernando Campanella

Agosto não é bem rima
nem bem desgosto
é quase um quê de mim
em ipês amarelos
e roxos.

(Fernando Campanella, poema da
série Efemérides)

quarta-feira, 29 de julho de 2009

'CON AROMA A CEDRO'


Con aroma a cedro
por Alicia Ruiz do Flickr*

Dispus a madeira dos versos
junto a um carpinteiro
em sua atribuição usual.
Entregamo-nos a nossos ofícios
e sentimos o aroma do cedro,
assim como o das palavras
em mais raro primor talhadas.

Quem dera também eu pudesse
no sétimo dia descansar meu intento
como o bom carpinteiro

ou talvez como abelhas
no aconchego da arquitetura final.

Fernando Campanella, poema XVII
da série 'O Eu Confesso'.
*Meu agradecimento especial a Alicia Ruiz, cujo trabalho fotográfico encontrei no Flickr, por ter consentido na postagem de sua foto acima, e por ter me dado inspiração para o título e um verso do poema postado.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

A MEDIA LUZ


Campo de girassóis em Lavras, sul de MG
Foto by Fernando Campanella

Sempre reneguei o tango
e os entusiastas de Gardel

longe de mim a passional postura
eivada de desolação e dor

o amor sempre em mim
um campo de mais alvos,
intocáveis, lírios
onde não choveu.

Afastei o bruxo, cerrei a tenda
mas na contrapartida
adiei o fruto, me ceguei à cor.

(Violinos eternos , bandoneóns ,
toquem-me hoje um tango crepuscular e tardio,
toquem, que desaprendi o me bastar
e o meu cismar sozinho,

à meia-luz ,
meu coração
são girassóis que dançam -
todo chama, e torvelinho.)

Fernando Campanella

sábado, 25 de julho de 2009

IMAGEM DO DIA


Foto do Flickr do fotógrafo alentejano
Emilio Moitas (moitas61) *


Pelas nuvens baixas
uma súbita algazarra:
pássaros no gris.

Fernando Campanella

*Meu agradecimento especial ao fotógrafo Emílio Moitas por haver permitido a postagem de sua foto na ilustração do haikai acima. Encontrei sua obra fotográfica no Flickr e fiquei maravilhado com suas fotos de Portugal, particularmente do Alentejo.

ALHEIO


Echeveria lilacina, popularmente 'suculenta'.
Foto by Fernando Campanella

Às vezes
tenho o perfil de um caracol:
o dia bate à minha porta
e não desperto -

ando catando poesia
na sombra

ando cismando o universo
em espiral.

Fernando Campanella
da série "O EU confesso"

sexta-feira, 24 de julho de 2009

ODE ÀS MANHÃS TRANSFIGURADAS


São Sebastião das Três Orelhas, sul de MG
Foto concedida by Ary Júnior*

Sim,
Outras são as manhãs
Após as chuvas
Em doces gotas de amêndoas
E emblemáticos suores de uvas.

Manhãs em hortas regadas,
Frescor de sumos, feiras livres-
‘Salsa, sálvia, rosmaninho, tomilho’ -
Respingos de amor em refrões medievais

Sedosas manhãs molhadas,

Especiarias mais raras,
Orquídeas do Nepal,
Cravos da Ìndia,
Poção mágica,
Erva medicinal.

Cromáticas manhãs lavadas:
Verde- ingás, vermelho-pintangas
E tantas mais cores que bailam
No pomar de líquidas miçangas.

Límpidas crisálidas,
Abelhas em trânsito,
Pássaros cantantes
Lavandas,

Geadas

E ainda turíbulos,
Aromas de incenso,
Antigas lágrimas de semanas santas
Nos missais.

Bendito, o fruto de vosso ventre,
Manhãs transfiguradas,
A germinar, a se abrir
No úmido jardim das palavras.

Fernando Campanella

* A foto da postagem foi gentilmente cedida pelo autor, Ary Júnior, para ilustrar o poema. A paisagem é de São Sebastião das Três Orelhas, Gonçalves , sul de MG. O Ary é dono de uma pousada maravilhosa naquela vila de Gonçalves, a Pousada Três Orelhas. Eis o link do site de sua pousada:
http://www.tresorelhas.com.br

quinta-feira, 23 de julho de 2009

OUVI DIZER


Saíra-de-cabeça-amarela*
Foto by Fernando Campanella

Existe um lugar-
um passarinho me contou -
onde os seres habitam
impunemente felizes
suas tocas, suas casas.

Seria em que floresta,
em que memória encantada,
em qual inaudito planeta
ou esfera mais abençoada ?

Em que lugar? -
diz-me, pássaro escuso,
preciso saber
para que eu junte ao bico
minhas imprescindíveis ervas,
minhas malas,

e junto a ti
eu me lance aos ventos
e bata definitivamente as asas.

Fernando Campanella

* De meu primo Sthenio Campanella, amante e conhecedor de pássaros de nossa região, e de fotografia, recebi o seguinte comentário, o qual me deixou muito feliz, quando postei minha foto acima no Orkut:

"... Eu, com tanto interesse e andanças pelas matas da região, nunca consegui ver direito essa ave, imagina fotografá-la. Trata-se de uma Saíra- douradinha, também chamada de Saíra -da -cabeça -amarela (Tangara Cyanoventris). É da família do Sanhaço e também daquela ave azul que você tem em seus álbuns. Realmente uma bela foto você tirou, e uma excelente oportunidade de vê-la. Parabéns..."

Muito obrigado, primo.