terça-feira, 18 de agosto de 2009

TEMPUS FUGIT (O AMOR É UM JARDIM)


'O Alentejo é um jardim'
Foto por Emilio Moitas (Moitas61 Flickr)*

O amor não sabe a papéis,
a tolas permutas

o amor se lembra quando de ti te esqueces
quando mais alucinas que te falta -

vagamos pelas torpes vielas, acendemos
nos baixios nossas mínimas luzes,
e o tédio, o tédio , se deixarmos,
nos entope insuportável as goelas -

mas o amor,
o amor é quando se cala,
quando nossos egos se rendem

e olha que a vida em sua chama
- tempus fugit - pelo amor se dissipa mais lenta,
se incorpora mais bela -

amor é quando abrimos os olhos
e vemos, em seus jardins,
desdobrarem -se os céus
no detalhe.

Fernando Campanella


* O trabalho fotográfico do português Emílio Moitas é mais uma das gratas surpresas que venho experimentando após minha entrada no Flickr. O fotógrafo-poeta mescla o factual e o lírico quando registra cenas da sua Arronches, situada no Alto Alentejo. Suas fotos no site vêm sempre acompanhadas de notas descritivas, ora versos de poetas portugueses ou espanhóis, ora informações históricas, políticas, formando um maravilhoso painel sócio-cultural-estético do Alentejo, terra onde uma poetisa tão querida aos brasileiros nasceu, viveu, abrindo-se em Florbela de Portugal.
Em sua foto , postada acima, com o título 'O Alentejo é um jardim', é o amor à bela natureza alentejana o que olhos e alma do fotógrafo nos revelam. No Flickr, como um adendo descritivo à foto, o fotógrafo brinda-nos com os versos do poeta Vitorino, em que se destacam:
... O Alentejo é um encanto
Uma braçada de rosas
Vou bailar com meus amores
Alentejanas e amorosas...

Texto by Fernando Campanella

domingo, 16 de agosto de 2009

SINOS DE MINAS


Foto by Fernando Campanella


SINOS

Dois sinos tocam ao finado,
um maior, como que do céu
chamando,
e a alma melancólica
respondendo
‘já vou indo, meu pai’,
é o sino menor dobrado.

Outro sino
nove vezes na tarde badala
ad aeternum evocando a chegada
do antigo anjo dos mitos .

Aqui, sinos
não celebram grandes impérios
nem cataclismos rememoram
nem por isto menos sino se torna
o eco do longínquo que sentimos.

Aqui também bate o sineiro
sinos doces, pequeninos

e da branca torre, no natal,
todo ano como num encanto
desce do Deus menino
um soprinho.

(Fernando Campanella,
Dezembro de 2007)




Talvez o que mais me evoque o coração de Minas sejam os sinos que tangem, suave dobrar de um bronze que ecoa nos refolhos da alma.


São eles um patrimônio religioso, cultural, monumentos de um espírito coletivo.Casam-se com uma quase tristeza,uma leve cor, indecisa entre dor e alegria , presente nos pastos, nas capelas à beira das estradas, nas árvores, nos bichos e nos homens, na própria luz do sol que por entre nós perpassa, no silêncio anilado do céu - o espírito mineiro vibrando em singela, eterna circunspecção.

Parecem, os sinos, ter sido inventados, criados para Minas; são a impressão mais bem guardada de seu encanto e mistério. Alguns maiores, outros mais pequeninos, sinos para o Deus grande, para o Deus-menino, toques melancólicos que anunciam a passagem para a morada encantatória do Pai, toques mais festivos para páscoas, ou mais sublimes, para o ângelus, a visita do Anjo a Maria... Sinos para toda solenidade e ocasião.

Mas os sinos são , acima de tudo, o toque renovado, universal, de um necessário Deus a evocar o natal no coração dos homens.

Fernando Campanella



sábado, 15 de agosto de 2009

IMAGEM DO DIA


Backyard bird, Foto by Nancy Chow, njchow82 from Flickr*

...após as chuvas
um sapo estufa
e a vida estica -

um pardal corteja
a flor conspícua
da tiririca.
Fernando Campanella

* Na postagem anterior, com o poema 'Construindo o ninho', acrescentei um comentário sobre a sincronicidade, e a permissão da fotógrafa canadense, Nancy Chow, do Flickr, para que eu ilustrasse meu poema em inglês com sua foto do pardal. Algumas horas depois, recebi um email dela, informando -me que havia visto a postagem, e que tinha gostado muito do poema. Informou-me, também, que não conseguiu deixar um comentário em minha página. Repasso aqui, a apreciação que fez sobre o poema, enviada em e mail no Flickr, com a minha tradução.

"Hello Campanella
Beautiful poem and I thank you very much for sending it---like you said it is simple but deep and I love it. All of a sudden my sparrow images mean so much more to me.
Regards,
Nancy"

"Olá Campanella
Lindo poema e eu a agradeço a você muito for me enviá-lo - é como você disse, um poema simples mas profundo e eu gosto muito dele. De repente minhas imagens do pardal passaram a significar tão mais para mim.
Atenciosamente
Nancy"

Muito obrigado , Nancy, novamente. Você pode sentir orgulho pelas lindas imagens da natureza que seus olhos descobrem e sua câmera registra.
(Thank you, again, Nancy, you can be proud of the beautiful images of Nature that your eyes find and your camera registers.)

UM POEMA EM INGLÊS E SUA TRADUÇÃO


Building a nest, photo by Nancy Chow,

BUILDING A NEST



I saw my backyard sparrow
build up its nest
out of scattered weeds.

O gardener of the instinct,
(O master of the winds)
I sing your tunes
I play your deeds –
I dance to thee,

I am thy nestling,
tend gently
to my poetry.

Fernando Campanella


CONSTRUINDO O NINHO

Eu vi um pardal
com ervas esparsas
a construir seu ninho.

Oh, jardineiro do instinto
(oh, mestre dos ventos)
eu toco vossos tons,
eu canto vossos atos -
eu danço a vós -

sou vossa cria,
velai gentilmente
por minha poesia.

Fernando Campanella
*Uma pequena estória sobre uma sincronicidade, uma sintonia.
Há quase dois anos, em uma fase de transição de minha vida, escrevi o poema em inglês acima e deixei-o assim, sem tradução. Na semana passada eu o traduzi e pensei em postá-lo aqui no blogger, porém faltava-me a imagem, visto que não tenho fotos adequadas de pardais. Engavetei a idéia.

Há alguns dias atrás conheci o trabalho de Nancy Chow, de Calgary, Canadá, no Flickr, maravilhoso site de fotografia onde também apresento algumas fotos minhas. Entrei em contato com ela imediatamente por e mail para adicioná-la ao meu perfil do Flickr, motivado pela extrema beleza de suas fotos da natureza, dos animais. Ela me respondeu amavelmente, agradecendo, e cedendo suas fotos para eventual postagem em meu blogger.

Aqui entra a sincronicidade mencionada no início desse relato. Hoje quando acessei o Flickr vi as atualizações das fotos dos 'photostreams' de meus amigos. Meu Deus, fiquei encantado, uma dessas fotos era a de um pardal com ervas no bico, da autoria de Nancy, e justamente com o título 'Pardal do quintal, ou 'Construindo o Ninho'. Ela devia ter postado essa foto há pouco tempo antes pois eu não a conhecia. A imagem perfeita para meu poema em inglês fora conseguida.

Mais uma pequena-grande alegria em minha alma.

Obrigado, Nancy.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

IMAGEM DO DIA


IPÊS AMARELOS
Foto by Fernando Campanella

...quase um quê de mim
em ipês amarelos e roxos.

Fernando Campanella

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

NA PEDRA*


Musgo na pedra, foto de Contapem, Flickr*

A solidão como um musgo
- verde tom de um degredo
que medra
e nos entrava -
façamos andar e cantar
a palavra.


Fernando Campanella

* A foto acima é das mais belas que já vi sobre musgos. O autor , que autorizou a postagem aqui no blogger, apresenta uma galeria de fotos no flickr, se identificando nesse site como Contapem. Obrigado ao fotógrafo pela permissão, e parabéns pela maravilhas registradas.
* Musguito en la piedra (pequeno musgo na pedra), imagem de um poema de Mercedes Sosa

À NOITE SONHAMOS


A noite, 2.bp.blogspot.com

À noite seguimos descuidados,
a vida em árvores densas de aromas,
em pétalas tintas de orvalho.

À noite sonhamos em um céu de metáforas
onde a lua é unha que arrepia segredos,
estrelas são hangares pequeninos -
a sombra , um dócil lobo que nos chama.

À noite, rompemos degredos,
volvemos aos ninhos,
somos meninos -

infância distraída de seus medos.

Fernando Campanella