domingo, 23 de agosto de 2009

UM POEMA E SUA TRADUÇÃO


Photo by Richard Murkland from Flickr
http://www.flickr.com/photos/richarddigitalphotos/2960631465/

ALCHEMY

Wise is the alchemy of the leaves

- acid green
treasured sepia
crumbling gold -

I silently watch my seasons
unfold.

Fernando Campanella


ALQUIMIA

Sapiente,
a alquimia das folhas

- o verde ácido
o sépia precioso
o ouro solvente -

observo minhas estações
desdobrarem-se
silentemente.

Fernando Campanella


sábado, 22 de agosto de 2009

POEMAS ANTIGOS*


Foto by Fernando Campanella

REPASTOS

Penso nas vacas como em um mundo enrolado
- a cosmogonia circunscrita das vacas.
Mas que sei de universos cifrados?
Eu, que suposta ciência tenho da alma,
cultivo angústias do contextualizar.
Sei que os bezerros às vezes param
e me observam
quando por sobre o muro de silêncio os contemplo
- é quando uma súbita luz corta o tempo.

Depois nada mais acontece
a não ser um delicado ruminar de filhotes
absolvendo a tarde das metafísicas inúteis.

Fernando Campanella, 1993.

*Mais algumas palavras sobre meus poemas antigos, focalizando a questão: alterá-los ou deixá-los como estão?
No poema acima optei pela primeira alternativa. Substituí alguma palavra aqui, ali, acrescentei um verso inteiro, o qual acredito ter contribuído para uma iluminação, uma leveza, no tema da incomunicabilidade do poema. O título só foi dado agora, também.

Deixo aqui, as palavras do poeta Yeats quanto ao assunto 'refazer um poema':

The friends that have it I do wrong
Whenever I remake a song
Should know what issue is at stake
It is myself that I remake.

"Aqueles que acham um problema
Quando refaço algum poema
Saibam por que problema eu passo:
É a mim mesmo que refaço."

(Versos de William Butler Yeats em tradução
de Antonio Cicero,

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

ROBIN*



A NEW PERCH FOR A ROBIN
Photo by Ian Lewis do Flickr
http://www.flickr.com/photos/31112982@N03/



"FOR A BETTER WORLD, MAY THE ROBIN'S SIMPLE SONG REACH EACH AND EVERY HUMAN SOUL ..."

"PARA UM MUNDO MELHOR, POSSA A SIMPLES CANÇÃO DE UM ROBIN ATINGIR CADA E TODAS AS ALMAS..."

Li a frase acima em algum blogger, como não havia o autor, fica em aberto.

Gostei muito da mensagem da frase. Porém, como brasileiro, eu parafrasearia: ... a canção de um robin, de um canário, de um bem-te-vi... , mas , reconsiderando, para um mundo melhor temos que nos desapegar do conceito de fronteiras e nacionalidades. Então eu diria:

PARA UM MUNDO MELHOR, POSSA A CANÇÃO DOS PÁSSAROS ATINGIR CADA E TODAS AS ALMAS...

Porém, fica com minha amiga Sonia Brandão, o melhor arremate para esta evocação dos pássaros. Em comentário à postagem ela me diz:

"Se todos tivessem olhos para a beleza dos pássaros teríamos um mundo melhor.É preciso também ouvir o pássaro que canta dentro de nós."


O robin é o pássaro mencionado no poema da Emily Dickinson na postagem anterior. Mas penso a poetisa ter se referido ao Robin Americano, que já é uma outra espécie.


Na foto acima temos o Robin Pisco-de-peito-ruivo, encontrado em Portugal, Inglaterra, e em outros países, mas , acredito, não nos Estados Unidos.



O pássaro, segundo o fotógrafo Ian Lewis, de Redruth, Reino Unido, pousou no espelho retrovisor de seu carro durante uma pausa para almoço no estacionamento do Parque Lydford. Felizmente, nos diz o fotógrafo, o vidro do carro estava aberto, e sua câmera encoantrava-se no banco de passageiro. Uma oportunidade dos deuses.



Visite sua galeria no Flickr para lindas fotos sobre a natureza do Reino Unido.



Visite também o site avesdeportugual.info com lindas fotos do robin Pisco-do-peito-ruivo, de onde tirei informações para esta postagem.

EMILY DICKINSON, UMA TRADUÇÃO*


Sempre-viva, foto by Fernando Campanella

Pink, small, and punctual.
Aromatic, low,
Covert in April,
Candid in May,

Dear to the moss,
Known by the knoll,
Next to the robin,
In every human soul,

Bold little beauty,
Bedecked with thee,
Nature forswears
Antiquity.

(Emily Dickinson Complete poems,
1924, Part Two: Nature)

(A UMA SEMPRE-VIVA)

Rósea, minima, e pontual.
Rasteira e aromática,
Secreta em abril,
Em maio desperta,

Querida aos musgos
Conhecida dos montes,
Vizinha dos tordos
Presente nas almas
dos homens...

Adornada de tua majestade,
Oh, delicada beleza,
A natureza renega
A antiguidade.

Livre tradução de Fernando Campanella
(18/08/2009)

* Poesia não se traduz, dizia uma mestra de Literatura Inglesa em meu curso de Letras. Fazia coro, creio, com o poeta Robert Frost que afirmava que 'poesia é o que se perde na tradução'.
Há um tanto de verdade nisso. Rima, sonoridade, ritmo, cultura, vivências, memória linguística - são tão sutis e intrincados os liames entre língua e conteúdo no universo do poema que toda tradução passa a ser, no mínimo, temerária. Porém, como poderíamos sentir a grandeza de um poema do grego Constantinos Cavafis, por exemplo, senão pela tradução?

O poema da Emily acima tanto me encantou que senti a necessidade de traduzir tal encanto, a sua atmosfera, para a nossa língua. Que me perdoe a mestra, e a própria Emily, mas não resisti.

Tomei a liberdade de colocar um título ( Emily jamais os colocava em seus poemas). Outros expedientes de que me utilizei foram mencionar 'Sempre-viva' quando li que ela se referia, no poema, a um 'Arbutus' (uma espécie de Sempre-Viva), assim como sacrificar a palavra 'bold' do original, que significa algo como 'audaciosa', 'corajosa', substituindo-a por 'majestade', que traz a idéia de coragem, destemor, facilitando, assim, a rima com antiguidade. Para uma melhor compreensão, traduzi, também, a palavra 'robin' por 'tordo', uma vez que aquele é uma espécie deste último e a palavra 'robin' não teria uma tradução para o português.

Pode haver algo, ou muito, de mim na tradução do poema da Emily, isso é inevitável, afinal é um pouco do universo da poetisa visto através de meus olhos, de minha sensibilidade. Ademais, poetas só traduzem poetas com quem têm afinidade.

Espero que a essência e a beleza de sua poesia estejam em minha tradução preservadas.
Fernando Campanella

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

IMAGEM DO DIA (A CAMINHO DE SÃO DOMINGOS)


A caminho de São Domingos
Foto by Fernando Campanella

Corro o mundo pela beirada,
minha carroça, seu moço,
é o que levo da vida,
meu cavalo, o vento
que me levanta da estrada.

Fernando Campanella

terça-feira, 18 de agosto de 2009

TEMPUS FUGIT (O AMOR É UM JARDIM)


'O Alentejo é um jardim'
Foto por Emilio Moitas (Moitas61 Flickr)*

O amor não sabe a papéis,
a tolas permutas

o amor se lembra quando de ti te esqueces
quando mais alucinas que te falta -

vagamos pelas torpes vielas, acendemos
nos baixios nossas mínimas luzes,
e o tédio, o tédio , se deixarmos,
nos entope insuportável as goelas -

mas o amor,
o amor é quando se cala,
quando nossos egos se rendem

e olha que a vida em sua chama
- tempus fugit - pelo amor se dissipa mais lenta,
se incorpora mais bela -

amor é quando abrimos os olhos
e vemos, em seus jardins,
desdobrarem -se os céus
no detalhe.

Fernando Campanella


* O trabalho fotográfico do português Emílio Moitas é mais uma das gratas surpresas que venho experimentando após minha entrada no Flickr. O fotógrafo-poeta mescla o factual e o lírico quando registra cenas da sua Arronches, situada no Alto Alentejo. Suas fotos no site vêm sempre acompanhadas de notas descritivas, ora versos de poetas portugueses ou espanhóis, ora informações históricas, políticas, formando um maravilhoso painel sócio-cultural-estético do Alentejo, terra onde uma poetisa tão querida aos brasileiros nasceu, viveu, abrindo-se em Florbela de Portugal.
Em sua foto , postada acima, com o título 'O Alentejo é um jardim', é o amor à bela natureza alentejana o que olhos e alma do fotógrafo nos revelam. No Flickr, como um adendo descritivo à foto, o fotógrafo brinda-nos com os versos do poeta Vitorino, em que se destacam:
... O Alentejo é um encanto
Uma braçada de rosas
Vou bailar com meus amores
Alentejanas e amorosas...

Texto by Fernando Campanella

domingo, 16 de agosto de 2009

SINOS DE MINAS


Foto by Fernando Campanella


SINOS

Dois sinos tocam ao finado,
um maior, como que do céu
chamando,
e a alma melancólica
respondendo
‘já vou indo, meu pai’,
é o sino menor dobrado.

Outro sino
nove vezes na tarde badala
ad aeternum evocando a chegada
do antigo anjo dos mitos .

Aqui, sinos
não celebram grandes impérios
nem cataclismos rememoram
nem por isto menos sino se torna
o eco do longínquo que sentimos.

Aqui também bate o sineiro
sinos doces, pequeninos

e da branca torre, no natal,
todo ano como num encanto
desce do Deus menino
um soprinho.

(Fernando Campanella,
Dezembro de 2007)




Talvez o que mais me evoque o coração de Minas sejam os sinos que tangem, suave dobrar de um bronze que ecoa nos refolhos da alma.


São eles um patrimônio religioso, cultural, monumentos de um espírito coletivo.Casam-se com uma quase tristeza,uma leve cor, indecisa entre dor e alegria , presente nos pastos, nas capelas à beira das estradas, nas árvores, nos bichos e nos homens, na própria luz do sol que por entre nós perpassa, no silêncio anilado do céu - o espírito mineiro vibrando em singela, eterna circunspecção.

Parecem, os sinos, ter sido inventados, criados para Minas; são a impressão mais bem guardada de seu encanto e mistério. Alguns maiores, outros mais pequeninos, sinos para o Deus grande, para o Deus-menino, toques melancólicos que anunciam a passagem para a morada encantatória do Pai, toques mais festivos para páscoas, ou mais sublimes, para o ângelus, a visita do Anjo a Maria... Sinos para toda solenidade e ocasião.

Mas os sinos são , acima de tudo, o toque renovado, universal, de um necessário Deus a evocar o natal no coração dos homens.

Fernando Campanella