quinta-feira, 27 de agosto de 2009

APRENDIZ


Foto by Fernando Campanella


E agora costuramos nossos jogos de bem-me-quer, não-me-quer , fase em que nos alinhavamos no infecundo círculo da incerteza emocional. Arriscamos aqui mergulhar em um abismo sem fim, sem pausa para retomarmos nosso ar, para inspirarmos, eu sem você, você sem mim, as isentas, vitais alegrias que eclodem à luz do dia. (Ah, angústia de amor jamais suprido, mar de vai-e-vens descomunais) Mas o aprendizado da alma é bem assim, dizem os doutos sábios: mergulhar, mergulhar, e subir. Então sou aprendiz de mim.



Fernando Campanella

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

IDENTIDADE


Photo by annkelliott from Flikckr

Sou um recém-cogumelo
no pasto-Minas brotado
ao mundo nem tanto valho
mas se me buscares
trago por abrigo a sombra
- e estrelas por identidade.

Fernando Campanella


segunda-feira, 24 de agosto de 2009

LEGADO


Snow goose, photo by Gaëtan Bourque (Imapix) at Flickr *

Aqueles gansos sobrenadam o lago
descuidados da estação de partir.
Meus olhos dispersam seus bandos,
meu coração em bravas asas
é meu tesouro ao se abrir.

No mundo certas uvas da melhor cepa
eu colho. Deste vinho, meu legado,
outras almas beberão por mim.

Fernando Campanella


* Transcrevo aqui , com minha tradução, o belo texto do fotógrafo Gaëtan Bourque em sua nota descritiva sobre a foto dos gansos se alimentando na Baie-du-Febvre, Québec, Canada:

"The Snow Goose (Chen caerulescens) is a North American species of goose. Its name derives from the typically white plumage. Twice a year, hundreds of thousands of snow geese alight alongside the St. Lawrence River. An unbelievable feast for the eyes and ears, the immense flocks transform the river into a rippling sea of white as the air fills with deafening cries. And when these valiant vagabonds suddenly take wing, the sight of their breathtaking aerial ballet is the stuff of legend."

(Gaëtan Bourque)


"O ganso-da-neve (Chen caerulescens) é uma espécie de ganso norte-americano. Seu nome deriva de sua plumagem tipicamente branca. Duas vezes por ano, centenas de milhares deles pousam ao longo do rio São Lourenço. Uma inacreditável festa para os olhos e ouvidos, seus bandos imensos transformam o rio em um ondulado mar de branco, ao mesmo tempo em que o ar se enche com grasnares ensurdecedores. E quando essas bravas aves errantes subitamente batem asas, a visão de seu empolgante balé aéreo é típica dos sonhos."

(Gaëtan Bourque, tradução de Fernando Campanella)

domingo, 23 de agosto de 2009

UM POEMA E SUA TRADUÇÃO


Photo by Richard Murkland from Flickr
http://www.flickr.com/photos/richarddigitalphotos/2960631465/

ALCHEMY

Wise is the alchemy of the leaves

- acid green
treasured sepia
crumbling gold -

I silently watch my seasons
unfold.

Fernando Campanella


ALQUIMIA

Sapiente,
a alquimia das folhas

- o verde ácido
o sépia precioso
o ouro solvente -

observo minhas estações
desdobrarem-se
silentemente.

Fernando Campanella


sábado, 22 de agosto de 2009

POEMAS ANTIGOS*


Foto by Fernando Campanella

REPASTOS

Penso nas vacas como em um mundo enrolado
- a cosmogonia circunscrita das vacas.
Mas que sei de universos cifrados?
Eu, que suposta ciência tenho da alma,
cultivo angústias do contextualizar.
Sei que os bezerros às vezes param
e me observam
quando por sobre o muro de silêncio os contemplo
- é quando uma súbita luz corta o tempo.

Depois nada mais acontece
a não ser um delicado ruminar de filhotes
absolvendo a tarde das metafísicas inúteis.

Fernando Campanella, 1993.

*Mais algumas palavras sobre meus poemas antigos, focalizando a questão: alterá-los ou deixá-los como estão?
No poema acima optei pela primeira alternativa. Substituí alguma palavra aqui, ali, acrescentei um verso inteiro, o qual acredito ter contribuído para uma iluminação, uma leveza, no tema da incomunicabilidade do poema. O título só foi dado agora, também.

Deixo aqui, as palavras do poeta Yeats quanto ao assunto 'refazer um poema':

The friends that have it I do wrong
Whenever I remake a song
Should know what issue is at stake
It is myself that I remake.

"Aqueles que acham um problema
Quando refaço algum poema
Saibam por que problema eu passo:
É a mim mesmo que refaço."

(Versos de William Butler Yeats em tradução
de Antonio Cicero,

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

ROBIN*



A NEW PERCH FOR A ROBIN
Photo by Ian Lewis do Flickr
http://www.flickr.com/photos/31112982@N03/



"FOR A BETTER WORLD, MAY THE ROBIN'S SIMPLE SONG REACH EACH AND EVERY HUMAN SOUL ..."

"PARA UM MUNDO MELHOR, POSSA A SIMPLES CANÇÃO DE UM ROBIN ATINGIR CADA E TODAS AS ALMAS..."

Li a frase acima em algum blogger, como não havia o autor, fica em aberto.

Gostei muito da mensagem da frase. Porém, como brasileiro, eu parafrasearia: ... a canção de um robin, de um canário, de um bem-te-vi... , mas , reconsiderando, para um mundo melhor temos que nos desapegar do conceito de fronteiras e nacionalidades. Então eu diria:

PARA UM MUNDO MELHOR, POSSA A CANÇÃO DOS PÁSSAROS ATINGIR CADA E TODAS AS ALMAS...

Porém, fica com minha amiga Sonia Brandão, o melhor arremate para esta evocação dos pássaros. Em comentário à postagem ela me diz:

"Se todos tivessem olhos para a beleza dos pássaros teríamos um mundo melhor.É preciso também ouvir o pássaro que canta dentro de nós."


O robin é o pássaro mencionado no poema da Emily Dickinson na postagem anterior. Mas penso a poetisa ter se referido ao Robin Americano, que já é uma outra espécie.


Na foto acima temos o Robin Pisco-de-peito-ruivo, encontrado em Portugal, Inglaterra, e em outros países, mas , acredito, não nos Estados Unidos.



O pássaro, segundo o fotógrafo Ian Lewis, de Redruth, Reino Unido, pousou no espelho retrovisor de seu carro durante uma pausa para almoço no estacionamento do Parque Lydford. Felizmente, nos diz o fotógrafo, o vidro do carro estava aberto, e sua câmera encoantrava-se no banco de passageiro. Uma oportunidade dos deuses.



Visite sua galeria no Flickr para lindas fotos sobre a natureza do Reino Unido.



Visite também o site avesdeportugual.info com lindas fotos do robin Pisco-do-peito-ruivo, de onde tirei informações para esta postagem.

EMILY DICKINSON, UMA TRADUÇÃO*


Sempre-viva, foto by Fernando Campanella

Pink, small, and punctual.
Aromatic, low,
Covert in April,
Candid in May,

Dear to the moss,
Known by the knoll,
Next to the robin,
In every human soul,

Bold little beauty,
Bedecked with thee,
Nature forswears
Antiquity.

(Emily Dickinson Complete poems,
1924, Part Two: Nature)

(A UMA SEMPRE-VIVA)

Rósea, minima, e pontual.
Rasteira e aromática,
Secreta em abril,
Em maio desperta,

Querida aos musgos
Conhecida dos montes,
Vizinha dos tordos
Presente nas almas
dos homens...

Adornada de tua majestade,
Oh, delicada beleza,
A natureza renega
A antiguidade.

Livre tradução de Fernando Campanella
(18/08/2009)

* Poesia não se traduz, dizia uma mestra de Literatura Inglesa em meu curso de Letras. Fazia coro, creio, com o poeta Robert Frost que afirmava que 'poesia é o que se perde na tradução'.
Há um tanto de verdade nisso. Rima, sonoridade, ritmo, cultura, vivências, memória linguística - são tão sutis e intrincados os liames entre língua e conteúdo no universo do poema que toda tradução passa a ser, no mínimo, temerária. Porém, como poderíamos sentir a grandeza de um poema do grego Constantinos Cavafis, por exemplo, senão pela tradução?

O poema da Emily acima tanto me encantou que senti a necessidade de traduzir tal encanto, a sua atmosfera, para a nossa língua. Que me perdoe a mestra, e a própria Emily, mas não resisti.

Tomei a liberdade de colocar um título ( Emily jamais os colocava em seus poemas). Outros expedientes de que me utilizei foram mencionar 'Sempre-viva' quando li que ela se referia, no poema, a um 'Arbutus' (uma espécie de Sempre-Viva), assim como sacrificar a palavra 'bold' do original, que significa algo como 'audaciosa', 'corajosa', substituindo-a por 'majestade', que traz a idéia de coragem, destemor, facilitando, assim, a rima com antiguidade. Para uma melhor compreensão, traduzi, também, a palavra 'robin' por 'tordo', uma vez que aquele é uma espécie deste último e a palavra 'robin' não teria uma tradução para o português.

Pode haver algo, ou muito, de mim na tradução do poema da Emily, isso é inevitável, afinal é um pouco do universo da poetisa visto através de meus olhos, de minha sensibilidade. Ademais, poetas só traduzem poetas com quem têm afinidade.

Espero que a essência e a beleza de sua poesia estejam em minha tradução preservadas.
Fernando Campanella