sexta-feira, 2 de outubro de 2009

IMAGENS DO DIA


Peroba-branca na manhã,
Foto by Fernando Campanella
Peroba-branca ao pôr-do-sol,
Foto by Fernando Campanella

A árvore nas fotos acima de há muito tem sido minha cúmplice em caminhadas na tarde. As árvores das fotos acima, melhor dizendo, pois são seis troncos contíguos, de uma mesma espécie, agregando o que parece ser uma única copa esplendorosa.

Gosto de vê-las principalmente no final de agosto, início de setembro, com a estação do calor já se aproximando. Ao anúncio da primavera, sob uma certa luz poente, que só as tardes desses meses concedem, elas me trazem maior identidade à alma.

Hoje, caminhando pela manhã, novamente as vejo. Já estão com folhas novas, tão verdes, tilintando à luz do sol. São belas em qualquer hora do dia, sem dúvida, e até mesmo à noite devem ter seu encanto, sob a tíbia luz do luar.

Nunca indaguei por seu nome, porém na caminhada de hoje uma curiosidade enorme desperta-se em mim a esse respeito. Prometo a mim mesmo que não terminará a manhã sem que eu descubra como se chamam.

A resposta vem de um pescador, que passa por mim em sua bicicleta. Resposta imediata, clara como algo que sempre se soubera - Peroba Branca, árvore muito boa para móveis e caibros de telhados.

Ah, as minhas companheiras de caminhadas são então Perobas, gosto muito de saber isso. Árvores muito cortadas, infelizmnte, por sua condição de madeira de lei. Parentes da Peroba-Rosa...

Mundinho, mundão... Volto para casa com a estranha sensação de sempre ter sido um estrangeiro em minha própria terra. Sou capaz de nomear certas estrelas a milhares de anos-luz da terra, indiferentes no céu , porém o nome de minhas fiéis companheiras, tão famosas, por sinal, eu desconhecia.

Em minhas futuras caminhadas, cumprimentarei vocês pelo nome, minhas Perobas -Brancas. Acredito que esse deve ser mesmo o nome, pois o senhor da informação respondeu-me tão prontamente, com detalhes, parecendo ter conhecimento de causa. Mas saibam que se fossem Aroeiras, Angicos, Guatambus, etc. , não perderiam, absolutamente, o encanto que sempre instilaram em mim.

Fernando Campanella



segunda-feira, 28 de setembro de 2009

ESFÍNGICA


Sphinx Moth* on Celestial Lily, photo by Tony Western
http://www.flickr.com/photos/7380883@N02/


Devolve-me o livro da alma
que há muito me tomaste -
esfinge minha -
pois tu, somente tu, o escreves:
concedes-me a palavra por escudo
enquanto me devoras na entrelinha.

Fernando Campanella

*A mariposa esfingídea, ou mariposa-esfinge, da foto acima, é uma excelente voadora. Modificando o ângulo das asas, ela consegue pairar sobre as flores e sugar-lhes o néctar. Encontra-se em todas as regiões temperadas do mundo. Mantém a parte da frente do corpo ereta como uma esfinge. Suas larvas têm listras e pintas brilhantes.

Fonte: Vida Animal, Mariposa Esfingídea

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

MOTO


Horseshow Canyon, oeste de Drumheller, photo by Nancy Chow*

por que moer
a mesma pedra

por que a mesma esfera
sobre ossos
ad nauseam a girar?

nada mesmo de novo
sob o sol parece haver -
salvo um olhar

Fernando Campanella

*Congratulations, Nancy, for the beautiful photo above, a masterpiece, an absolutely breathtaking view, a fantastic capture of 70 million years of history, or Pre-History, for that matter.

(Parabéns, Nancy, pela linda foto acima, uma obra-prima, uma visão de tirar o fôlego, fantástica captura de setenta milhões de anos de história, ou Pré-História, melhor dizendo.)

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

A SENHORA DAS FLORES


Foto by Fernando Campanella

Está agendado lá no calendário: dia 22 de setembro de 2009, precisamente às 18h19, ela chega, a senhorinha das flores. Vem um pouco adiantada neste ano, visto que oficialmente deveria aparecer no dia 23 de setembro.

É uma senhora vetusta, mas obstinada e dura na queda, sempre atuante entre os equinócios de primavera e os solstícios de verão. Tão velhinha, sim, porém sempre aprumada, aromática, a trazer no rosto, por sobre as espessas rugas, um mais suave tom em carmim.

Tão prestimosa, não obstante a concreta frieza das cidades e a dureza dos homens.

Tão dinâmica, um espetáculo de vitalidade e vibração, colocando muitos jovens no chinelo. Nem bem chega e já derrama as chuvas, põe a trabalhar os campos e os jardins. Guarnece os caminhos e os canteiros de margaridas campestres, gérberas, jasmins, manacás... Espeta as abelhas e as borboletas preguiçosas. Espanta os filhotes de pássaros das cornijas, instruindo-os a voar.

E tão invasiva, essa anciã: escancara minhas janelas, arregaça minhas mangas, botando -me a espanar as teias, a varrer as folhas residuais do inverno. E ainda faz mote de meus ares introspectivos, de minha ficção outonal.

No dia 22, às 18h19, pois, ela chega, deliciosamente incômoda, assertiva, anunciando que com ela não tem tempo frio, nem árvores secas.

E novamente trará seu antigo, imenso barco onde me acomodará. Içará então as velas, e com seu invejável fôlego me tornará redivivo, despachando-me para mares do sul com seus luminosos jardins de coral.

Fernando Campanella


domingo, 20 de setembro de 2009

CANTA


'Minas Gerais' Arte Naïf, tela de Carlos Herglotz*


A vida encanta
porque passa
- canta, vida,
a arte repassa.


(Fernando Campanella,
texto da série 'O Eu Confesso')


*Abaixo, um excerto do texto que o crítico de arte Oscar D'Ambrosio escreveu sobre o trabalho de arte primitivista de meu grande amigo-irmão Carlos Herglotz, autor da tela e da foto desta postagem:

"...Nascido em Taubaté, SP, em 24 de julho de 1959, Carlos Herglotz retira de suas impressões e lembranças a matéria-prima das imagens que percorrem a sua pintura. Sua simplicidade e encantamento decorrem da maneira como dá forma aquilo que viu e sentiu.A matriz de seu trabalho é inegavelmente popular. Isso se confirma pelo seu fazer de artesão e envolvimento em projetos e ações de valorização dos saberes tradicionais do povo, pois é neles que visualiza a possibilidade de uma sociedade melhor. É no saber do povo que reside um Brasil rico em possibilidades de interpretação do real marcadas pela criatividade..."
(Oscar D'Ambrosio)

Conheça mais sobre o belo trabalho desse artista visitando seu blog:

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

VISLUMBRE


Foto by Fernando Campanella


Se existe uma metáfora ou mesmo uma técnica
para a gradual apreensão de Deus
seja a de meu lento aproximar de pássaros
quando para uma manhã de fotografias eu saio.

Sabiá pousado, primeiro disparo, depois três passos,
segunda tomada, mais três, e, em série registrando,
me achego até onde a ave o permita,
demarcado entre nós o intransponível espaço.

Após o vôo alçado, vou conferir as mais límpidas faces
da maravilha outorgada, em fotos.
Tal meu artifício para explorar esses reinos
de que os humanos foram há ‘eons’ alijados.

Talvez um dia, na inesgotável alquimia dos tempos,
o pássaro, como Deus, de mim não mais escape
e eu revele sua melhor, definitiva face.

Ou, quem sabe, rasgue a ave o círculo,
e para os domínios do eterno me conduza
nas fímbrias de suas transparecidas asas.

Talvez... mas não haja pressa. Dêem-me os céus
a infinita paciência daquele eremita dos montes:

em minha caverna mais funda,
no burburinho de minhas fontes,
a incomensurável graça
de captar tais vislumbres alados
por ora então me baste.


Fernando Campanella

domingo, 13 de setembro de 2009

IMAGENS DO DIA


Foto by Fernando Campanella
14980862@N03/ (Reduced, reduzida)

Na foto, acima, postada no sábado por Nancy Chow, no Flickr, temos uma vista dos arredores de Calgary, Canadá. Em nota descritiva, a fotógrafa informa: “ as árvores nos arredores de Calgary já começam a mudar de cores”. O outono já bate às portas do hemisfério norte.

Além da delicadeza e da poesia cênica que a imagem transmite, o que me chamou a atenção na foto de Nancy foi sua semelhança com uma foto minha, postada logo acima da foto de Nancy. Há como que suaves pinceladas de um aquerelista em ambas.

Creio que Nanci, como eu, deve ter ficado muito feliz com o resultado de sua imagem. São raros os momentos em que a fotografia extrapola seus limites, seu campo mais objetivo, superando a expectativa do fotógrafo, transformando-se em algo tão inefável assim.

Uma alma de artista agradece por esses raros momentos.


Fernando Campanella