terça-feira, 15 de dezembro de 2009

VITRAIS


Foto by Fernando Campanella

(Eis o teu sol da meia noite
eis a luz transfigurada,
benditos os que vivem em bom termos
com o hóspede imaginário,
com a 'louca da casa'.)

(Fernando Campanella,
Versos finais da crônica 'O Sol da Meia Noite'.)

STAINGLASS WINDOWS

Why do I write?
Why do I sometimes
into my hands clasp the light
only to spread it,
a thousand gasping wings
probing the sideless skies -

and the universe
suddenly dresses bright
and a stainglass window
in a chapel then reflects
my heart…

Fernando Campanella

VITRAIS

Por que escrevo?
Por que em minhas mãos
às vezes a luz retenho
apenas para estendê-la -
mil asas ofegantes
sondando os céus
sem beirais –

e de repente o universo
se faz luzente
e uma capela
reflete então
meu coração
em seus vitrais...

Fernando Campanella

sábado, 12 de dezembro de 2009

ESTRELA DA NATIVIDADE


Pintura de 1925, feita por um pintor italiano na capela Santa Dorotéia
em Pouso Alegre, Minas Gerais.
Foto by Fernando Campanella

Um poema de natal , ESTRELA DA NATIVIDADE,
de Joseph Brodsky:

Numa estação invernal, em um lugar mais afeito ao calor
que ao frio, mais a planuras que a montanhas,
para salvar o mundo, em uma gruta nasceu um menino.
Nevava como só acontece em desertos no frio, em toda parte.

Ao infante tudo enorme parecia: o seio da mãe, o vapor
das narinas dos bois, o grupo dos magos - Melchior,
Gaspar e Baltazar - e suas prendas à entrada da gruta deixadas.
Ele era apenas um ponto, assim como o era a estrela.

Atenta, sem pestanejar, por entre pálidas nuvens esparsas, de longe
- das profundezas do universo, de seu extremo oposto -
sobre o menino na manjedoura, ao interior do presépio mirava
aquela estrela. E era do Pai aquele olhar.

Joseph Brodsky, poema escrito em 1987.

(Tradução de Fernando Campanella)


Do original, em inglês:

STAR OF THE NATIVITY

In the cold season, in a locality accustomed to heat more than
to cold, to horizontality more than to a mountain,
a child was born in a cave in order to save the world;
it blew as only in deserts in winter it blows, athwart.

To Him, all things seemed enormous: His mothers breast, the steam
out of the ox’s nostrils, Caspar, Balthazar, Melchior – the team
of Magi, their presents heaped by the door, ajar.
He was but a dot, and a dot was the star.

Keenly, without blinking, through pallid, stray
clouds, upon the child in the manger, from far away -
from the depth of the universe, from the opposite end - the star
was looking into the cave. And that was the Father’s stare.

(Joseph Brodsky)

Em espanhol:

ESTRELLA DE NAVIDAD

En estación helada y en un lugar más hecho al calor
que al frío, más a la superficie llana que al alcor,
en una cueva ha nacido un niño para salvar el mundo;
nevaba como sólo lo hace en el desierto en invierno crudo.

Al niño todo se le antojaba enorme: el pecho de la madre, el vapor
de las narices de los bueyes, los reyes magos, Melchor,
Gaspar y Baltasar, y los regalos acarreados a la cueva.
Él no era más que un punto. También lo era la estrella.

Atenta, sin parpadeo, por entre leves nubes, desde lejos,
de la profundidad del Universo, desde su extremo opuesto,
sobre el niño acostado en el pesebre, hacia la cueva miraba
aquella estrella. Y era del Padre la mirada.

(Joseph Brodsky)

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

IMAGEM DO DIA


Foto by Fernando Campanella


Dezembro acende as luzes
em ricos pinheiros de natal.

Fernando Campanella

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

NOTURNO

Foto by Fernando Campanella

Gosto de ver-te assim,
noturno segredo,
à luz, quase um brinquedo,
projetado de mim.

Fernando Campanella

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

A UM CÃO


Foto by Fernando Campanella

Dorme,
a vida é um sono,
sou tua poesia,
és o meu dono.

Fernando Campanella

sábado, 5 de dezembro de 2009

ANTIQUALHA


Rádio Philips, modelo B5R76-A, 1959



Vejo em um museu alguns modelos bem antigos de rádio, simpáticos dinossauros já descartados pela evolução da espécie. Não sei se ainda tocam, ou, se o fazem, algum ouvido os ouve.

Mas aqueles aparelhos, ali em exibição, alimentaram sonhos e sonhos lares adentro. Pelos anos de fabricação, 1939, 41, etc. foram ouvidos em plena era do rádio, iniciada oficialmente no Brasil em 1936, com a inauguração da Rádio Nacional do Rio de Janeiro. Todo o país se distraía, se informava, através deles, com as novelas, as notícias & amenidades do mundo, e os famosos cantores e cantoras do rádio.

Minha infância e adolescência foram vividas em outros tempos, já com a febre da TV : a era da imagem. Mas o som de rádios e eletrolas ainda exerceu seu poder de encantamento sobre mim.

Acompanhei , pelo rádio, várias ondas musicais como o rock, a jovem-guarda, concomitantes aos grandes temas musicais da era de ouro do cinema romântico americano. Dancei ao som dos 'Ritmos de boate', programa do saudoso DJ e radialista Big Boy, pela rádio Mundial. Sem me esquecer da febre italiana e francesa com canções que ocupavam os primeiros lugares nas paradas dos programas de domingo. Tudo coroado pela grande explosão dos Beatles.

Todo aquele fascínio eu vivi, através de antiqualhas como aquelas, antigos rádios que ainda tocavam. Em especial por um Philips, modelo B5R76-A de 1959, onde eu sintonizava a BBC de Londres e os programas das rádios MEC e Cultura que me iniciaram nos clássicos da música.

Através dele tive meus primeiros contatos com obras luminares como a “Paixão segundo São Mateus” , de Bach, a “Pastoral” de Beethoven. Suas ondas calmas trouxeram-me a beleza do canto gregoriano em um programa apresentado pelo monge-poeta Dom Marcos Barbosa, cujos versos vez ou outra eu ouvia:

“Vós, que amais a natureza,é preciso vir para vê-la,recém-brotada das águas,como no céu uma estrela!...”( A flor no tanque, Dom Marcos Barbosa)

Eras tão rápidas, fugidias. Nem gosto de pensar que em dinossauro talvez esteja eu próprio me tornando, tão antigo em minhas memórias. Mas, se, diferente daqueles modelos de rádio do museu, ainda toco essas lembranças, quem as ouviria?

Preservem os pré-históricos o seu encanto. E Deus me resgate de todo saudosismo e nostalgia. Bem-vinda a era da informática que tudo integra, que possibilita toda música, inclusive a erudita, e toda notícia , pela internet.

Porém , algo me chama a render uma justa homenagem a tudo que me fez bem, que contribuiu para o melhor do que sou.

Aquele rádio, meu bom, velho Philips, ainda toca... E eu, agradecido , o ouço.

(Fernando Campanella, 03 de outubro de 2008)

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

EFEMÉRIDES (DEZEMBRO)


Foto by Fernando Campanella


Dezembro acende as luzes
em ricos pinheiros de natal.

Mas é naquela árvore
despojada na montanha
ou à beira da estrada
que se agregam bem-te-vis
e tagarelam maritacas.

Mangueira, Santa Bárbara,
Jacarandá -
ao pássaro tanto faz:
folhagens são mimos anônimos.

(Eu insisto em um Deus
que se projeta em tronco
e esparrama os braços
para acolher os seus.)

(Fernando Campanella
Poema da série 'Efemérides')