quarta-feira, 21 de maio de 2014

AS AVES DO CÉU

Foto por Fernando Campanella 

"As raposas têm as tocas e as aves dos céus, ninhos; mas o filho do homem não tem onde reclinar a cabeça." (Mateus, 8,20)


...Tarde de maio, teu espelho me afaga -
e as aves sonolentas retornam à casa.

(Final do poema Vias Errantes, por Fernando Campanella)




sexta-feira, 16 de maio de 2014

O PAI



O pai me chamou na sala e perguntou: cadê tua mãe? 

A mãe? - perguntei, em resposta, com incredulidade e espanto, pois já haviam se passado quase doze anos desde o falecimento dela.

Outro dia eu pensara em como os neurônios castigam, amargam a longevidade, pela própria perda deles, ou outros fatores, mas hoje, diante da pergunta de meu pai, na dureza e glória de seus 93 anos,  consegui perceber um veio de ternura em sua voz. Momento de solo absoluto, em que o touro, frágil, torna-se ave, e a memória faz seu ninho. Indagar por alguém que já partira há tantos anos, como se a presença física da pessoa amada, com quem convivera por bem mais de meio século, ainda rondasse os aposentos da casa, e sua voz se fizesse ouvir da varanda, da cozinha, é algo, no mínimo, resplandecente, rompendo os grilhões de ferrugem, a tirania dos hábitos, dos medos que a solidão procria.

- A mãe? Ela está parte no céu, parte aqui conosco - acrescentei - reze por ela.

No final de nosso diálogo, meu pai, em tocante desamparo, disse-me que estava perdendo a memória. Arrematou que orava pela esposa diariamente. E não estava sendo demagogo, não estava mentindo: várias noites antes de ele se deitar, sem que me visse, eu o observara fazer o sinal da cruz diante  do antigo porta retrato em seu quarto. Então tomava-o nas mãos, beijava a imagem dela, dizendo baixinho: minha eterna companheira.

Os seres, embora imbuídos em categorias e espécies, desde as casas que habitamos, as árvores, as flores, os animais de estimação, até os nossos entes queridos, são únicos, insubstituíveis, mas passei a mão no cabelo branco de meu pai como para dizer: eu estou aqui, mesmo com toda ausência, toda falta que o senhor possa sofrer. E  o senti mais leve, pois de alguma maneira eu intuía que a mãe estava ali entre nós.

Fernando Campanella 





segunda-feira, 12 de maio de 2014

ESTAÇÃO



As pontes de ferro desativadas
evocam refugos e traças,
são naves caducas, ex-órbitas,
são marias que viraram fumaça. 

A velha ordem se rompe,
parabólicas acolhem a pax americana.
A estação da memória resiste
mas já é Minas fossilizando. 

(Fernando Campanella)


quinta-feira, 1 de maio de 2014

AS CORES DO MUNDO

Foto por Fernando Campanella

Quando vejo a imagem acima com a belíssima luz que realçou as cores da terra, do céu, da árvore, da casinha naquele final de tarde, me espanto pensando sobre algo tão óbvio à ciência, ou seja, que a as cores das coisas na realidade não existem, a não ser pela interação de nossos olhos, ferramentas com as quais o cérebro cria o campo visual, com a luz.

Embora nossa visão possa ser ampliada por instrumentos cada 
vez mais sofisticados, criados ao longo da civilização, das lupas, telescópios, microscópios a aparelhos de ressonância magnética, etc., a percepção a olho nu ainda nos surpreende e nos encanta. E justiça seja feita à câmera fotográfica que consegue imprimir essas belezas que o mundo nos concede.

"Faça-se a luz", disse Deus, diluindo as trevas, ao criar o vasto mundo que nos hospedaria. Talvez naquele instante tenha também surgido toda nossa predestinação à arte.

(Fernando Campanella)   


 


quarta-feira, 9 de abril de 2014

LÓTUS

Foto por Fernando Campanella

O amor raciocina em sete línguas. 
(Fernando Campanella)





segunda-feira, 24 de março de 2014

PARQUE DAS EMAS

Foto por Fernando Campanella


Não façais mal nem à terra, nem às plantas
Nem às águas...
(Apocalipse)

Acordei no meio da noite, e vi o dia,
dia mais avesso que o miolo das trevas
quando os inocentes da terra choravam,
as flores enrustiam o perfume
e o vinho amargava o sabor.

Os cavalos vermelhos desordenavam
a paz da terra, debandavam as rolas,
disparavam loucas as emas.

Promessas de novas proles não se cumpriam
que os ninhos eram cinzas por palhas
e os ovos, um a um derretiam.

As falanges do fogo consumiam a obra,
calcinavam as ervas, não distinguiam
as montanhas do domínio das águas –
onde era natural majestade, desintegravam,
onde fossem líquidas relíquias, secariam.

Nunca se vira por estas paragens
dor tão intensa e democrática, castigando
desde as ninfas, desfeitas de seus reinos,
até as baleias, de suas águas desmembradas.

Os inocentes da terra choravam
por impotentes e frágeis
diante de tão cruel, definitiva ceifa.

Antes fossem apenas delírios de profetas
o que o livro dos tempos anunciara.

Antes ficasse somente em imagem
a horda de criminosos das glebas
a desfilar com fardas em chamas
e bocas de vômito incandescente.

(O espírito do fogo consome a obra,
sua língua profana lambe e devasta,
seus dentes não deixarão grão sobre grão.)

Fernando Campanella, 1988



sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

SILÊNCIO MARINHO

Foto por Fernando Campanella


"...Mas escuta, ó meu coração, o canto dos marujos!"

(Mallarmé)


Não sou um homem de cartas marcadas,
o destino, vulgo sorte, fez-me à parte,
não me quis.
Tranquei-me em chaves desde a infância
e onde as deixei, esqueci.
Na contramão das grandes rotas, não demarquei
terras, não publiquei um livro, não amealhei
títulos ou troféus -

não me mudei quando jovem para Nova Iorque
não me viu a TV, nem me fisgaram
os olhos oblíquos dos jornais.

Semeando em campos tão áridos, que cansaço
trazem as glórias do mundo, a mim, que delas fugi,
e nunca as colhi. 

Somos dois? Somos tantos, companheiros?
Embebedemo-nos de nosso infortúnio
até o fastio, até sangrarmos, pois

e dobremos os lenços, desbravando o silêncio,
dos elos fortuitos, das graças modestas,
que vem do mar. 

 Fernando Campanella