sábado, 14 de fevereiro de 2009

TREASURED


Foto by Fernando Campanella

Wise is the teaching of the leaves:
acid green,
treasured sepia,
crumbling gold.
I silently
watch my seasons
unfold.

Fernando Campanella

SUAVE É A NOITE


Foto by Fernando Campanella


(Suave é a noite...
Logo a Rainha-Lua sobe ao trono de luz
com a legião de suas fadas estelares...
JOHN KEATS)


As estrelas espiam de longe
e o caracol ao ciciar da brisa
arrasta seus passos.
Meu amor dorme.
Suave é a noite em seu silêncio
de longos braços.

Fernando Campanella


TENDER IS THE NIGHT


(...tender is the night,
And haply the Queen-Moon is on her throne,
Cluster'd around by all her starry Fays...
JOHN KEATS )


The stars peep at a distance
and the snail trails its footsteps
under the breeze's voice.
My love is asleep.
Tender is the night
in its silence of long arms.

Fernando Campanella

LUTO NA ROÇA


Foto by Fernando Campanella
(Casa sesquicentenária de Gonçalves, sul de MG)

Íamos em um passeio pela área rural de Gonçalves, MG, bela cidadezinha encravada nos contrafortes da Mantiqueira. O casal de amigos estaciona o carro a uma certa altura para nos mostrar uma casa sesquicentenária, tida como a mais antiga do município. Um singelo monumento, preservado, seus porões em pedra, caiação nas paredes de pau-a-pique, antigas telhas escurecidas pelo tempo, um verde-negro em janelas e portas.

Excelente motivo para uma foto aquela casa na tarde. Quando nos aproximamos daquela maravilha, com seu mistério, seus segredos embrulhados em névoas e sonho, algo como um reconhecimento bateu em mim. Pareceu-me tê-la visto antes, e logo me lembrei que por ali já passara havia uns quinze anos. Na época, 1993, estava eu em férias em casa de amigos que lá então residiam. E em um dia frio transitáramos por aquele sítio.

A ocasião de minha visita anterior fora triste pois alguém havia falecido naquele lar.. Escutávamos as orações vindas de seu interior, algumas pessoas circunspectas à porta, uma atmosfera longa de pesar e dor, naquele grave silêncio do momento que viviam. Deparamo-nos com um homem de uns vinte e oito anos, inconsolável , em lágrimas, e o cumprimentamos.

Mas não nos detivemos por ali.. Algo como um pressentimento, um certo medo da perda de meus próprios entes queridos havia me tomado naquele momento. E logo partimos, meus amigos e eu, como se fugitivos, crianças buscando seus brinquedos e acontecimentos mais descompromissados da finitude de tudo.

Quinze anos mais tarde , algumas duras perdas já sofridas , eu haveria de retornar àquela casa do luto. À sua porta, reconheci o rapaz entristecido daquela época, agora um senhor, adentrando a meia-idade. Apresentei -me, pedi licença para tirar algumas fotos. E contei -lhe, então, de minha lembrança. Surpreso, o homem confirmou o falecimento da mãe naquela ocasião. Dona Mariana havia contraído uma infecção pulmonar, sendo levada ás pressas para São José dos Campos onde alguns dias depois viera a falecer. O sepultamento fora no cemitério local, de São Sebastião das Três Orelhas, o santo assim cognominado pelos três imponentes e altos picos da região.

O filho relatava-me o passamento da mãe, e algo como um vazio, uma certa tristeza, ainda nublava seu olhar. Porém, senti, mais que uma surpresa, uma certa gratidão vindo de sua alma, por eu, talvez, um turista como tantos que por ali passavam , de repente ter me lembrando de algo tão irrelevante aos olhos do mundo, tão precioso à sua memória.

Ao me despedir, senti-me aliviado, como por um dever, por feliz coincidência, então cumprido. E incorporei minhas perdas, minhas lágrimas, agora mais amadurecido em minha trajetória do mundo.

À porta daquela casa antiga havia um crucifixo. Dona Mariana, permanecia ali, eterna, naquele ícone, na casa singela, na memória do filho. Também presente na saudade de todos os caríssimos meus que as alegrias e dores na terra já haviam cumprido..

Requiescat!

Fernando Campanella, 10 de outubro de 2008

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

REQUIESCAT*


Foto by Antonio Carlos Januário

De meu mar, ofereço-te as ondas
e as praias que poéticas conchas te trazem.
Tais suaves mistérios te concedo, mais as algas
e as gaivotas que bicam tecidos de luz na tarde.

Povoados de ti, de mim,os barcos que chegam
e ardem.

Adere-te, pois, ao sal que a mim te chama,
cobre teus pés em espuma e encanto,
molha teu rosto
nas claras águas que o dia me abre.

(Sosseguem , minhas dorsais,
descanse, meu leviatã esconso).

Fernando Campanella


* Requiescat: palavra do latim, significando 'Descanse', usada na expressão 'Requiescat in Peace', 'Descanse em Paz'. Estas são palavras do ofício dos mortos, frequentemente escritas em lápides de túmulos.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

CARTAS AO EU ( I )


Foto by Fernando Campanella

Meu caro Eu, este é um momento em que ao meu privativo quintal eu saio. Aqui o mundo me é suave, digerível e palpável.

Toco em uma chuva fina de cristais ralados , molhando ibiscos, e em samambaias selvagens que emergem das fendas dos muros, ao lado. As úmidas mil-folhas no vaso são pespontos em nossa alma bifurcada.

Tudo aqui planamente vital. Pudesse eu saciar o coração em fome por estas ternas formas.

Estes pombos sujos de ferrugem dos telhados são especiais efeitos nesta cena, neste teatro de paisagens. As nuvens concedem, às vezes, um azul: entro e saio.

Aqui tudo é pleno meu amigo, tudo tão desarmada simplicidade. Tua mente é que coloca significados, coisas além das coisas, vê deuses em cabeças de pombos. Tenta refrear, meu caro, esta tua insistência por signos alados.

Gosto de me aprofundar em uma certa fragilidade que me toma ; às vezes, de certas naturezas, chega à minha alma o sopro de um velho, bucólico, daimon. Sei que você me entende com uma amiga serenidade.

Uma percepção induz-me agora a um pio - psiu - ouço um tilintar de luzes, um saltitar de pássaros... Um silêncio, um prolapso, uma abelha saindo de meu limbo, um posfácio:


Um ceifeiro vem de meu jardim
certas pragas arrancar
porém de uma se esquece
e esta ,sorrateira,
vinga o descuido em flor.
Cinco mínimas pétalas
em cor
que a meu coração de abelha
vêm sedutoras tentar.
Obrigado, ceifeiro,
sem pudores te confesso:
nestes pistilos me deito,
me esfrego nesta flor mais rara
das tantas que já vivi a namorar.


Fernando Campanella, Janeiro de 2007

O QUE É QUE A BAIANA TEM?



Foto do Flickr ( Galeria de Iñigo Garcia)

Cem anos de vida estaria completando Carmen Miranda nesta semana de fevereiro de 2009. Justas homenagens são prestadas na mídia a esta que foi, talvez, junto de Pelé, a maior representante do Brasil mundo afora.

A portuguesinha do distrito do Porto, com alma de brasileira, como ela própria se definia, veio a ser um fenômeno de alegria e brasilidade. Seus detratores podem argumentar que ela, com seus turbantes, balangandãs e salto plataforma, tenha contribuído para um estereótipo de nosso país, uma nação que não é séria , na visão do estadista britânico francês Charles de Gaulle. Mas foi como nosso espelho, nos mostrando a nossa melhor face, nossas cores e sensualidade, sem modéstia ou falsos pudores. Longe do estigma de uma certa política corrupta, mostrou um Brasil que pode e deve se amar, se enfeitar, celebrando o viver.

Dos vários epítetos com que lhe aclamaram, de Pequena Notável a ‘Brazilian Bombshell’, ( algo como 'explosão brasileira') , rejeitou o de Embaixatriz do Samba, que considerava avacalhação. Talvez porque seu repertório contemplasse não só o samba, mas toda uma riqueza de gêneros musicais nacionais como samba canção, chorinho, marcha, marchinha de carnaval, cateretê , chegando à rumba e ao tango.

E fez escola esta inigualável artista, este mito, com seus sons e movimentos esfuziantes, irreverentes, sua pitoresca indumentária. Vivendo em época de alfaiates e modistas, onde nem se sonhava com design de moda, tem exercido influência em gerações e gerações de modernos estilistas, cantores... Madonna confessa ter se inspirado em seu estilo na composição de seus adereços. Escolas de samba, museus, peças de teatro, biografias e musicais sempre a revisitam e lhe rendem as honras que merece.

A pequena-grande notável fez muito por nossa cultura popular. Cantou na linguagem da mulher simples, do homem do povo, do 'malandro' carioca. Gravou composições de ícones de nossa música, como Ari Barroso, Joubert de Carvalho, Synval Silva ( a maravilhosa ‘Adeus, Batucada’) Lamartine Babo e Dorival Caymmi, e tantos outros. E levou para o mundo o que aqui existe de genuinamente bom, diferente dos que se curvam a fetiches de primeiro-mundismo. Nada como sua arte, para vermos, restaurado, o saudável orgulho de sermos uma terra pródiga em nossos próprios frutos, e não uma republiqueta de bananas.

O Brasil de Carmen era essencialmente tropical. E tropical era, para ela, uma palavra ‘quente’, segundo a jornalista e amiga Dulce Damasceno de Brito. Palavra que ‘simboliza todo o espírito de nós, latinos, principalmente em época de carnaval’. Nossa alma, tão assim latinamente assumida, e revelada, agradece.

Seu falecimento em 1955 foi como um apagar de uma chuva de meteoros que eletrizaram por vários anos o Brasil e o mundo. O sepultamento no Cemitério de São João Batista teve, nas palavras do jornalista e historiador Abel Cardoso Junior(1938-2003), o acompanhamento mais concorrido de toda a história do Rio de Janeiro. O Brasil que Carmen tanto amou e representou lhe rendeu homenagens de grandes líderes da História.

Fernando Campanella, 09 de Fevereiro de 2009

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

INDIFERENÇA


Foto by Fernando Campanella

Setenta vezes sete vezes
o céu mudou de tom
nas impermanências do dia.
Mas, e então?
Melhor para além da retina
ser a cor.
Talvez, assim, alguma diferença fizesse
se em um ponto A do universo
uma super-nova explodisse
na mais gritante, incosequente alquimia.

Fernando Campanella, 1989.