segunda-feira, 9 de março de 2009

HERMANN HESSE


(Aquarela de Hermann Hesse)
confortin.com.br/?p=68

Hermann Hesse é uma presença, uma identificação em minha vida. Seu romantismo atemporal, sua sensível leitura do mundo , suas aquarelas, tudo dele me toca, como um mistério, tornando-me, além de um admirador ou um discípulo, um continuador desta corrente de almas que buscam na natureza inspiração e sentido, nela encontrando sua verdadeira pátria.

Este poema meu, abaixo, exemplifica o exposto acima:

Outono
uma aragem
uma estação
um rito de passagem...
um cão sem pelo
em cima do muro:
não é lava nem gelo
nem claro nem escuro
uma luz quase sedada
em transição
(as árvores confrangem;
os ursos já estendem
suas camas)
um sopro
esta alma esvoaçada
um verso
uma folha de mim
à tua janela
deixada.

Fernando Campanella


Agora, um trecho de um livro de crônicas de viagem do Hesse, ‘Pequenas Alegrias’, que comprei em um Sebo. Publicação da editora Record em bela tradução de Lya Luft, de 1977.


“...Muitas coisas boas ainda nos esperam antes que o inverno retorne. As uvas azuladas se tornarão macias e doces, os rapazes cantarão durante e colheita, as mocinhas em seus coloridos lenços de cabeça parecerão belas flores do campo entre as videiras. Muitas coisas boas ainda nos aguardam, e muito do que hoje nos parece amargo amanhã parecerá doce, quando tivermos aprendido melhor a arte de morrer. Por enquanto esperamos o amadurecer das uvas, o cair das castanhas, esperamos apreciar a próxima lua cheia, envelhecemos visivelmente, mas ainda vemos a morte bastante ao longe. Como disse um poeta;

Magnífico é para os velhos
O calor do fogão e o rubro vinho,
E por fim uma suave morte –
Mais tarde, porém, hoje ainda não!

( Hermann Hesse, Fim de verão, 1926)




PELOS CAMPOS


Passam nuvens no céu,
sopra o vento pelos campos,
pelos campos vagueia
o perdido filho de minha mãe.
Rolam folhas nas estradas,
- cantam pássaros nas árvores
nalgum lugar pelos montes
deve estar minha terra
distante.

(Hermann Hesse)


domingo, 8 de março de 2009

A OSTRA E A POESIA


Ferreira Gullar (http://images.google.com.br/imgres?
http://palavraguda.files.wordpress.com/)

Tenho estado um tanto alheio aos acontecimentos do mundo. Fruindo a vida possível, em certas incursões pela natureza, pelo passado, buscando a cultura do simples, do espontâneo, transformando essas experiências em crônicas, pensamentos e poesias.

Hoje, sentindo-me distante, tão particularmente encerrado neste meu 'viver -ostra', disponho-me a dar um giro pelas notícias e reportagens dos jornais do dia. Novamente, é uma realidade a cada instante mais complexa com que me deparo.

Há uma matéria especial sobre os novos empregos do século vinte e um. E mais profissões, altamente especializadas, que passo a conhecer , como a do aquaculturista, que atua na produção de organismos aquáticos. E e a do atuário, profissional que sabe mensurar quanto custam os riscos, um gestor de possíveis danos, espécie de guru das empresas de seguros, por exemplo. . Acidentes de trânsito, doenças, viabilidade de investimentos, tudo passa pelo seu crivo e aferimento.

Nas praias do litoral norte de São Paulo, uma nova modalidade de lazer aquático, o Stand Up Paddle Surf , é o frisson deste verão. Esporte para cuja prática são necessários apenas um prancha e um remo.

A equipe de lexicógrafos do Novo Dicionário Americano de Oxford apresenta sua lista de neologismos mais ‘quentes’ de 2008. 'Frugalista' é um deles, escrito exatamente assim, com o sufixo espanhol ‘ista’ adotado nos anos 90 pelos americanos na palavra ‘fashionista’, referente a alguém que segue religiosamente a moda. 'Frugalista', por sua vez, designa a pessoa que mantém um estilo de vida frugal, permanecendo, porém, saudável, sempre na moda, reciclando ou trocando roupas, comprando utensílios de segunda mão, etc. Sábia atitude neste ano de vacas magras que se inicia.

Mas o foco das manchetes e reportagens dos jornais deste domingo recai sobre os preparativos para a posse de Barack Obama, e o grande desafio que esse carismático democrata tem pela frente: os Estados Unidos e o mundo em recessão e o acirramento da eterna crise no Oriente Médio.

Um pouco mais atualizado com o que acontece fora do meu quintal, passo ao que mais me interessa, uma entrevista com Ferreira Gullar, no Estado de São Paulo. O poeta, aos oitenta anos, retorna à poesia, uma década após a última publicação de seus versos. Está finalizando o livro 'Em Alguma Parte Alguma', com poemas inéditos, a ser lançado pela editora José Olympio.

O que me toca nessa entrevista são suas declarações sobre o seu ser e fazer poéticos.

Para Gullar, cronista, pintor, crítico, o mais importante é a poesia, que nasce do espanto quando a vida lhe revela um novo ângulo, algo que desconhecia. Um perfume de jasmim já lhe inspirou os sentidos para a criação de um maravilhoso poema.

Fecho, então, os jornais, apaziguado. Quando detalhes tão mínimos , como uma certa luz , uma árvore em flor, ou uma canção antiga, me inspiram, não estou tão só, tão abstraído do humano, assim.

Após tanta atuação e conhecimento do mundo, Gullar redescobre o poeta que sempre trouxe dentro de si . E nos diz que o cotidiano com suas particularidades provoca-lhe, às vezes, uma desordem interna, um impulso incontrolável que o leva à poesia.

Minhas também as suas palavras e a sua idiossincrasia.
Fernando Campanella, Janeiro de 2009



'...E digo mais: o poema não é a expressão do que se viveu ou experimentou. Se eu sinto um cheiro de jasmim na noite e escrevo um poema sobre esse fato, o que faço não é expressar tal experiência, mas, na verdade, usá-la como impulso para inventar uma coisa que não existia antes: o poema, o qual se somará a todas as galáxias, planetas, cometas, oceanos e tudo o mais que exista no universo. E o universo será, a partir de então, tudo o que já era mais aquele pequeno agregado de palavras, nascido de um perfume."

Ferreira Gullar, parágrafo final da crônica "E o cronista endoidou..." Folha de S.Paulo (19.06.2005)

DESORDEM


"... o jasmim, por exemplo
é um sistema
como a aranha
(diferente de poema)
o perfume
é um tipo de desordem
a que o olfato põe ordem
e sorve..."
(Ferreira Gullar)


UMA COROLA

Em algum lugar
esplende uma corola
de cor vermelho queimado
metálica
Não está em nenhum jardim
em nenhum jarro
da sala
ou na janela
Não cheira
não atrai abelhas
não murchará
apenas fulge
em alguma parte
da vida
(Ferreira Goulart, Uma corola,
de seu livro inédito)



AQUARELA


Lírio do Brejo, foto by
Fernando Campanella

Bananeiras
lírios do brejo
sapos
e reticências mineiras

Em transparências de tédio
a aquarela da tarde
é meu exílio de Minas....

Fernando Campanella , 1993

sábado, 7 de março de 2009


Paineira no inverno, foto by Fernando Campanella


Painas no chão, foto by Fernando Campanella


Painas, foto by Fernando Campanella


Muchoco, foto by Fernando Campanella

sexta-feira, 6 de março de 2009

MUCHOCO



Muchoco, Foto by Fernando Campanella

Meu itinerário neste sábado frio de Julho é uma visita a uma paineira que vi há exatamente um ano, ao lado da cachoeira da Usina. Naquele julho passado, ela erguia-se grandiosa, desprendendo suas painas, um suave lençol de algodão a seus pés, evocando tempos de maturidade e desapego no final de tarde.

E hoje saio na tarde para registrar em foto aquele mesmo branco, seus flocos , alguns soprando ao vento, outros cobrindo o chão. Mas a estrada, aquele meu particular caminho de Santiago em Minas, me detém em suas outras belezas... Não há pressa, o sol vai lento. Ipês já se cobrindo de roxos e amarelos, as onipresentes flores de São João, as pombas do campo, as legítimas, como dizem, e as enigmáticas árvores secas tomam minha atenção, distraindo-me satisfatoriamente de meu intento.

No meio do caminho, uma árvore toda bordada de flores vermelhas, que eu já vira antes, certamente, mas a que nunca pusera a merecida atenção. Que exuberante paisagem para um foto! Preciso passar por uma porteira para uma maior proximidade dela, e peço licença ao dono da terra, o senhor Tarcísio, que se encontra por perto. Permissão concedida, tiro as fotos, e pergunto ao senhor o nome da árvore. – O povo daqui chama ela de Muchoco, ou Patinho – amigavelmente me diz.

Que nome exótico, misterioso , Muchoco, que me lembra algo em som de x, bochecha, ou muxoxo.... E que também me traz as chaves de um segredo árabe, de um jardim japonês . Não sei se a árvore é nativa, ou se foi trazida da África, como as espatódias, ou do Oriente... Mas absolutamente não importa.

Quando finalmente chego à paineira da Usina, esperando encontrar o mesmo espetáculo daquelas sementes se desprendendo, o que experimento é uma grande decepção. A paineira completamente dissipada, um esqueleto de galhos frios, nenhum fruto, nenhum tapete de painas no chão.

O que acontecera com a cronologia das estações? Voaram aquelas sementes mais cedo? Algum efeito do aquecimento global? O Sr. Luís, dono das terras da cachoeira, me informa que este ano a paineira floresceu em Março e se esvaiu mais cedo. Acontece. Para as árvores não deve haver calendários fixos como, para nós, os aniversários e os natais. Dissipa-se quando sente chegado seu tempo.

Pena não ter eu fotografado a paineira na ocasião da visita anterior . Azar meu que não vivo no campo , que sou um vaga-lume urbano, um romântico tardio. Bastante frustrado, só me resta enfiar a viola no saco e retornar à cidade.

Mas ao sol cadente naquele finalzinho de tarde houve uma súbita revolução de cores no céu, tudo tão intenso, luz sorvendo luz, tons explodindo em tons. E, maravilhado , então mais precavido, captei o possível daquele espetáculo natural em fotos. Depois uma meia-lua brilhou num azul de um quase noturno manto. Outros momentos, outros encantos. Aqueles momentos, assim como o Muchoco, estavam muito bem guardados em minha câmera, essas alegrias agora não me escapam.

Fernando Campanella, 21 de Julho de 2007

quinta-feira, 5 de março de 2009

OFÍCIO


Foto by Fernando Campanella


Naturezas de borboleta
forjam casulos em silêncio.
Em segredo, universos tramam
O absoluto florescimento.

Tanta beleza em surdina
que já não se conta o tempo.

O ferreiro tece o concreto
em diurno alheamento.

Também meu ofício de arte
por estas vias se encorpa.
Tanta mobilidade, tantas formas
me saíram do bolso
assim como do nada

no mais desprovido silêncio.

Fernando Campanella, 1989

terça-feira, 3 de março de 2009

CONVERSA DE COMPADRES*



Foto by Fernando Campanella

Conta-se que lá pelas bandas do Curralinho, a umas boas léguas de Santana de Caldas, vivia um homem, chamado de Bastião Medonho, sovina até os ossos, mestre no ofício de contar os grãos, para gerar maior lucro e evitar dissipação.

Seu sítio era o que mais prosperava nas redondezas. Possuía tal homem uma azenha, onde transformava o milho em fubá ou quirera. A ele recorriam os sitiantes do lugar, trazendo parte de sua safra de milho para a troca com a farinha ou o fubá. E o Sr. Bastião sempre lucrava, o que os vizinhos levavam era três vezes menos o que traziam.

Se era hora do café, às crianças, cujos pais até seu sítio chegavam para uma visita, de amizade ou a negócio, era dada apenas a metade de um bolinho de chuva que a esposa fazia; se hora do almoço, uma lasquinha cozida do imenso capado que abatera...Tudo calculado, medido, cronometrado.

Seus cavalos eram os mais belos e mais possantes, seu milharal o mais viçoso, seu gado o mais gordo da região.

Conta-se , também, que Bastião Medonho era um caloteiro de primeira, mau pagador, embora houvesse amealhado uma pequena fortuna, que esquentava o único banco da pequena Santana de Caldas. Acertava suas dívidas só quando não havia mais jeito e pesava contra ele a ameaça de um processo na comarca da região.

Ora, havia um compadre seu, o Sr. Maneco da Lua, um homem de caráter íntegro, pródigo, uma 'candura de pessoa' , como se dizia por lá. Conheciam-se os dois desde que nasceram. Brincaram juntos, as famílias tinham um laço de compadrio que remontava há várias gerações, embora morassem distantes, o Sr. Maneco vivendo um belo sítio a uns vinte quilômetros dali.

Acontece que, certa vez, o Sr. Maneco vendera algumas cabeças de gado para o compadre Bastião, sem documento assinado, na base da mais pura confiança, da amizade que os unia desde o berço. E nunca recebeu o dinheiro da transação. Também nunca cobrou: o Bastião era ‘cumpadi’, amigo dos ‘bão’ um ‘irmãu’. E se o companheiro não pagava era porque devia estar em situação 'das pior', como este sempre lhe dizia, chorando as mágoas, prometendo saldar a dívida logo que se recuperasse.

O tempo passou e Bastião nunca mais deus as caras no sítio do compadre, mais por safadeza que por vergonha de encarar o bobo do compadre.

O Sr. Maneco não era mesmo um homem deste mundo. Colocava os valores do sentimento acima de tudo, a fidelidade, a integridade eram seus bens maiores, embora fosse constantemente acusado de ingenuidade pela esposa e familiares.

E certa feita, em regresso de uma viagem de vários dias, Bastião passou em um armarinho de Santana para a compra de um botão para sua camisa. E viu que lá estava o Maneco. Tentou disfarçar, evitar o encontro, um certo mal-estar lhe esquentando as veias como se houvesse enxergado um fantasma. Mas o bom homem dele se aproximou, em sua aura de cordialidade, sempre discreto em sua elegância, o chapéu bem limpo, os óculos, a calça mais curta, deixando ver as botas sem meia, o embornalzinho a tiracolo.

- Salvi, Cumpadi Bastião. Comu tem passado a famia? E ocê, irmãu, já ta melhozinho lá nu sítiu? Miorô as coisa por lá?

- Vigi, cumpadi, a situação ta ruim, mais ta ruim... to penano dimais, muita chuva, perdi o milho tudinhu, Deus tenha dó....

E continuou a ladainha, tentando despertar piedade no amigo, evitando tocar no assunto da dívida contraída.

Porém, o Maneco também nem referência fez, só lembrou os bons tempos em que nadavam nas enchentes, lá no Lava-Cavalos, bons tempos da infância em comum dos dois. E despediu-se assim como viera, uma leveza de espírito, quase um sopro de candura. Uma luz calma que de repente alumia e esvaece.

Meio encolhido pela grandeza do amigo, disse então Bastião ao dono da loja -Bom sujeitinhu este Manequinhu – Pareci até um espíritu di tão levezinhu .... E riu, meio a contragosto.

- O senhor tá bem? – perguntou o proprietário do armarinho. – Tava falando sozinhu... Tá passandu bem?

- Tava proseanu aqui com meu Cumpadi, ora, o Maneco da Lua, irmão dos báum.....

- O Sô Maneco lá da Juruaia? – indagou o dono da loja, espantado?

- Sim, meu cumpadi....

- Ele faleceu esta manhãzinha ... O corpo tá lá na igreja agora. O enterro é daqui a pouco...

Diz a lenda que Bastião, após confirmar falecimento do compadre pelo anúncio da igreja, se arrepiou dos fios do cabelo às unhas do pé, e disparou da loja, como se o Maldito, o Coisa-ruim, a Besta-de-Barba-de-Bode, o tivesse atacado.

Seu sítio foi vendido, a família dali se foi. De Bastião Medonho não mais se ouviu falar.

Se honrou as dívidas, se continuou medonho, não se sabe...Se morreu, ninguém sentiu.

Fernando Campanella, 03 de Março de 2009.

* A foto no início desta página apenas serviu de inspiração para este conto que é trabalho de mais pura ficção.