sexta-feira, 27 de março de 2009

VERSOS ANTIGOS


Foto by Fernando Campanella

Às vezes revisito meus antigos poemas. Retiro do armário certas páginas datilografadas, amarelecidas, que dormem à sombra de uma caixa. E leio aqueles escritos como se lesse um sonho de um poeta incipiente, e distante.

Versos com reminiscências, ecos de Cecília Meireles, Emily Dickinson, Florbela Espanca, Fernando Pessoa... Alguns mal-delineados, um fluxo desordenado de imagens. Outros já melhor elaborados. Um caminho recém-descoberto, que eu não poderia saber aonde iria me levar.

Reestruturo tais versos, algumas vezes, sob a ótica de um certo amadurecimento poético adquirido com os anos. Há imagens bonitas, às vezes soltas, dentro de alguns poemas que justificariam uma lapidação.

Porem, é sempre com um sentimento de culpa que trabalho em tais poemas mais antigos. São sonhos de um poeta distante, como eu disse acima, melhor respeitá-los, dentro das limitações em que se formaram. Filhotes , ainda, que ensaiavam o vôo.

Por um outro lado, tenho comigo que um poema nunca esteja definitivamente criado. E se não trabalhei em meus antigos versos à época em que foram escritos, por falta de tempo, pela urgência de outros compromissos, por que não fazê-lo agora?

Escrever, assim como viver, é debater-se em escolhas. E às vezes opto por deixar um antigo poema como está, inteiro, com sua possível imperfeição, suas reminiscências, sua dignidade. Ingênuo, sagaz, hermético, lúcido... O que importa? Um poema se tece.

Um poema antigo, intacto, que hoje trago à luz:

GOTA


Já viste a alma presa
No cálice de tua mão?
Não validemos tal dor,
No cômputo final
Ela não ultrapassa uma gota,
Um suspiro de orvalho
Sacrificado ao ar.
Ao universo nada importa,
Tudo traz o selo de perfeição.
Não choro.
Mas como queria de vós, natureza,
Uma tal isenção.

Fernando Campanella, 1986

quinta-feira, 26 de março de 2009

CARTAS DE AMOR


'Mulher escrevendo carta', tela de Johannes Vermeer
i2.photobucket.com/.../escrever/vermeer1.jpg


http://www.youtube.com/watch?v=xBsFACFJkZY


CARTA

Ouso dizer-te, meu amor,
que tua ausência
é uma distância implícita de mim.

Nossos eus se emaranham
e já não sei
em que ponto me quedo,
em que ponto te levantas.

A que limite
sou eu que te busco,
ou tu que me alcanças?

Quando prosa ritmada,
ou verso sem pé?

Faca ou colher?

Quando manha, quando ferida?
Onde pecado, onde pudor?

Em que berço
com teus sonhos me deito?
Com meus sonhos
te despertas em que leito?

Cara ou metade?
Lucidez ou enfermidade?

Se memória de ti,
Se esquecimento de mim,
já o que importa?

Onde defeito ,
um mais que perfeito,
um efêmero,
um querer-te comprido,
sem fim....

(Fernando Campanella)




Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)

(Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoa)



CARTA
Carlos Drummond de Andrade

Há muito tempo, sim, não te escrevo.
Ficaram velhas todas as notícias.
Eu mesmo envelhecí: olha em relevo
estes sinais em mim, não das carícias
(tão leves) que fazias no meu rosto:
são golpes, são espinhos, são lembranças
da vida a teu menino, que a sol-posto
perde a sabedoria das crianças.
A falta que me fazes não é tanto
à hora de dormir, quando dizias
“Deus te abençoe ”, e a noite abria em sonho.
É quando, ao despertar, revejo a um canto
a noite acumulada de meus dias,
e sinto que estou vivo, e que não sonho.



MINHA AMADA IMORTAL


Ludwig Van Beethoven
3.bp.blogspot.com/.../s320/Beethoven-764449.jpg


Ouça 'Für Elise" by Beethoven

http://www.youtube.com/watch?v=xdyWbXsvvDg&feature=related


"Após a morte de Beethoven, foi encontrada em seus papéis particulares uma carta de amor, escrita a lápis, sem qualquer indicação sobre sua destinatária. "Meu anjo, meu tudo, meu eu…", dizia a carta, redigida em tom de lamento. "Esqueceu de que você não é inteiramente minha e de que eu não sou inteiramente seu? Oh, Deus!", gemia Beethoven. Até hoje os biógrafos discutem a identidade da musa secreta. A história rendeu um filme, Minha amada imortal (Immortal Beloved), de 1994, dirigido por Bernard Rose, com Gary Oldman na pele de Beethoven."

(FOLHAONLINE :
http://musicaclassica.folha.com.br/cds/03/curiosidades.html)



Manhã de 6 de julho [de 1812]
Meu anjo, meu tudo, meu ser. Apenas algumas palavras hoje, à lápis (o seu). Até amanhã a minha morada estará definida. Que desperdício de tempo. Por que [sinto] esta tristeza profunda quando a necessidade fala? Pode o nosso amor resistir ao sacrifício, em não exigir a totalidade um do outro? Pode mudar o fato de que você não é toda minha nem sou todo seu? Oh, Deus! Olhe para a beleza da natureza e conforte o seu coração com o que deve ser. O amor exige tudo e com razão. Assim, eu estou em você e você em mim. Mas você se esquece facilmente que preciso viver para mim e para você. Se estivéssemos completamente unidos, você sentiria esta dor tão próxima quanto eu sinto. A minha viagem foi terrível; só cheguei ontem às 4 horas da manhã, uma vez que na falta de cavalos, o cocheiro escolheu um outro caminho, mas que caminho terrível. Na penúltima parada fui avisado para não viajar à noite, fiquei com medo da floresta, e isso só me deixou mais ansioso – e eu estava errado. O cocheiro precisou parar na estrada infeliz, uma estrada imprestável e barrenta. Se estivesse sem os apetrechos que levo comigo teria ficado preso na estrada. Esterhazy, percorrendo este caminho habitual, teve o mesmo destino com oito cavalos que eu tive com quatro. Senti algum prazer nisso, como sempre sinto quando supero com sucesso as dificuldades. Agora uma rápida mudança das coisas externas para as internas. Provavelmente nos veremos em breve, mas hoje não posso compartilhar contigo os pensamentos que tive durante estes poucos dias dias sobre a minha vida. Se os nossos corações estivessem sempre juntos, eu não teria nenhum deles. O meu coração está repleto de coisas que gostaria de dizer-te. Ah. Há momentos que sinto esse discurso não ser nada. Alegre-se. Você permanece [sendo] a minha verdade, o meu tesouro, o meu tudo como eu sou o teu. Os deuses devem nos mandar o restante, aquilo que deve ser para nós e será. Seu fiel Ludwig.

(Beethoven)

(Do blogger: www.nubibella.com/category/curiosidades/)

quarta-feira, 25 de março de 2009

THE DAYS OF WINE AND ROSES


Rosa híbrida
www.jardineria.pro/.../2008/06/constance.jpg


http://www.youtube.com/watch?v=9TpvTEb4BaQ&feature=related


They are not long, the weeping and the laughter,
Love and desire and hate;
I think they have no portion in us after
We pass the gate.

They are not long, the days of wine and roses:
Out of a misty dream
Our path emerges for a while, then closes
Within a dream.

Ernest Dowson



OS DIAS DE VINHO E ROSAS

Não são longos, o riso e o choro,
o amor, o desejo e o ódio;
Porção nenhuma em nós terão,
imagino,
após o portal cruzarmos.

Não são longos, os dias de vinho e rosas:
De um sonho em névoa
nosso caminho por um instante desperta
depois dentro de um sonho
se encerra.

Ernest Dowson


( Livre tradução de Fernando Campanella)

DE ROSAS


Foto by Fernando Campanella


Brindemos, amantes, a cada manhã
com um suave tilintar de pétalas,
com o mais fino licor de uma rosa
tão finita & sempre viva,
tão óbvia & super nova,
tão dolorosamente espinho
e ainda amorosamente rosa:
eis o amor em sua mais redundante
e ainda irretocável metáfora -
todo o resto é meramente prosa.

Fernando Campanella


OF ROSES

Let’s toast, lovers, each morn,
With a caring tinkling of petals,
And the finest liquor
of a rose
So finite & everlasting,
So obvious & anew,
So painfully a thorn
And lovingly a rose
Still.
That’s love
In its redundant
Yet most irreproachable
Metaphor –
All the rest is merely prose.

Fernando Campanella

segunda-feira, 23 de março de 2009

LÓTUS


Foto by Fernando Campanella

meu lodo
meu lótus

ali
onde tantos se afogam
eu escrevo nas águas

Fernando Campanella

À NOITE SONHAMOS*


Foto by A. Carlos Januário

À noite, seguimos descuidados,
a vida é solta,

árvores nítidas de aromas,
pétalas tão úmidas de orvalho.

À noite sonhamos em um céu de metáforas
onde a mínima lua
é unha que arrepia segredos
estrelas são hangares pequeninos -
a sombra, um dócil lobo que nos chama.

À noite, rompemos degredos,
volvemos aos ninhos,
somos meninos -

infância distraída de seus medos.

Fernando Campanella



Ouça:
Prelúdio número 15 'Raindrop' - by Chopin, pianista Alfred Perl
http://www.youtube.com/watch?v=-Ot9INo7Zvw


Noturno Op.9 N0. 2, by Chopin, pianista Arthur Rubinstein
http://www.youtube.com/watch?v=YGRO05WcNDk&feature=related



* 'A Noite Sonhamos' - Título de um filme que apresenta a biografia de um dos maiores gênios da música de todos os tempos: Frédéríc Chopin (Cornei Wilde). Depois de ser expulso da Polônia, por se recusar a tocar para o governador Czarista, Chopin e seu professor musical fogem para Paris. Lá, Chopin conhece a escritora Aurore Dupin (Merle Oberon). mais conhecida pelo pseudônimo masculino que usava para assinar seus livros, George Sand, por quem se apaixona perdidamente. Debilitado fisicamente e temendo que seu romance se torne público, Chopin, acompanhado de Sand, viaja para Majorea, onde o clima úmido chuvoso fortaleceria ainda mais sua maior inimiga: a tuberculose. Excelente adaptação biográfica para as telas, lhe rendendo 6 indicações ao Oscar, incluindo Melhor Ator (Cornel Wilde) e Melhor Roteiro Original. (http://www.netmovies.com.br/titulo/A-Noite-Sonhamos.html)