terça-feira, 23 de junho de 2009

PLÁSTICA


Foto by Fernando Campanella

A luz é palpável
a cor é palpável -
dizem os mestres
das formas.


Eu palpo as palavras
que caem à revelia.

Fernando Campanella

segunda-feira, 22 de junho de 2009

AO MUNDO


Foto by Fernando Campanella

Vai entender os poetas
os que rastreiam a luz esconsa
o verbo intáctil
das manhãs.

Alcançariam seu intento
quando a noite os desperta
(real tormento)
a cada incauto morder de romãs?
Sim, pois destilam os sonhos
nas entrelinhas.

Ao mundo, o que é do mundo,
ao estado límpido de alma
(entendamos os poetas)
o que da comunhão dos pastores,
da poesia.

Fernando Campanella

quinta-feira, 18 de junho de 2009

EFEMÉRIDES (JUNHO)


Foto by Fernando Campanella

Junho é um grasnar solitário,
é uma gralha
que ao colo da araucária retorna.

As garras da ave, desprendidas do dia,
soltam as sementes que meus olhos
em silêncio recolhem.


(Fernando Campanella
da série “Efemérides”)

A GRALHA AZUL


http://1.bp.blogspot.com/_5ItmkEGoJ4o/SaBRwojAzfI
/AAAAAAAAE3A/YS_qx9PzM7I/s400
/gralha+azul+-+Cyanocorax+caeruleus+-+
Takao+Takayama.jpg

Gosto de percorrer as enciclopédias, impressas ou eletrônicas, hábito adquirido na infância, em busca da história e da geografia, nossas e de outros povos, do mundo natural, das conquistas da ciência e do espírito das artes.

Nessas maravilhas informativas, os espaços dedicados às árvores e aos animais, em particular às aves, são os que mais me encantam, e, ao mesmo tempo me entristecem: junto a belíssimas fotos e informações sobre determinado membro do reino vegetal ou animal há sempre o malfadado carimbo de ‘espécie em extinção’.

A gralha azul , ave símbolo do Paraná, é uma, como tantas, dessas espécies condenadas ao desaparecimento pela irreversível, depredatória, ocupação humana do espaço natural.

Ave de majestoso porte, medindo em torno de 40 cm do bico à cauda, é considerada uma das grandes aves brasileiras. Vive em bandos de 4 a nove indivíduos, prefere espaços fechados, como as matas, e prestam auxílio mútuo na limpeza das belas plumagens.

À parte toda sua majestade e beleza, a gralha azul destaca-se por um comportamento previdente que enorme serviço tem prestado à disseminação das araucárias no sul do país. Na época de fartura dos pinhões, ela enterra alguns deles, a longas distâncias, armazenando-os, assim, para ter alimento na época da escassez. E como, por tanto alimento estocado, se esquece muitas vezes de onde o colocou, as sementes poupadas gerarão novas árvores. Daí a sua elevação a ave símbolo do Paraná , estado caracterizado geograficamente por suas grandes extensões de araucárias.

Essa ave ícone, não só de um estado, mas, por extensão, de toda uma conscientização ecológica, tem inspirado inúmeras lendas cujo tema é precisamente a necessidade do respeito e da preservação de nosso ecossistema.

A gralha azul , assim como outras espécies ameaçadas da terra, ainda é real, visível e atuante, porém, corre o risco de viver apenas em suas lendas, ou na arte, tornando-se um elo perdido, símbolo, não mais de um estado, mas de um paraíso sonhado, para sempre em retrospecto.

"Nas enciclopédias multimídias do terceiro milênio
Os dinossauros verdes e alados do mundo
Serão o ‘cult’ da garotada.
Os teóricos vão digitar sobre a extinção
Das árvores, dos pássaros, em massa."
(Poema de Fernando Campanella, 1990)

Fernando Campanella

Fonte: Pavilhão Literário Cultural Singrando Horizontes - José Feldman

quarta-feira, 17 de junho de 2009

JUNINAS


Foto by Fernando Campanella

São João me batiza,
Santo Antônio me casa,
São Pedro me abre as portas
do céu.

Fernando Campanella

segunda-feira, 15 de junho de 2009

BEIJADOR*


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(Esta é uma das mais belas estórias da vida real que já ouvi, e que espero seja também uma das mais belas que escrevi.)
(Para A. C.)

- Pai, compra um caracol para o aquário?

Não havia poder de dissuasão contra a vontade do menino que sempre movia mil argumentos a favor dos bichos que queria. E teve que ir, o pai, mais uma vez, para a loja de peixes, acuado pelos olhinhos brilhantes, pelo coração do filho que parecia saltar de ansiedade pela boca. Se não comprasse o caracol era o aquário todo que morria.

Das outras vezes, a mesma arrebatação. Como esquecer a chegada da ratinha branca Madalena, do periquito, da enigmática Dama de Negro, o peixinho-telescópio de olhos esbugalhados. Personagens que já haviam se integrado à estória da família. E , sobretudo, como esquecer que a limpeza do cocô, a ração, as mordidelas e bicadas dos ‘amiguinhos’ ficariam todas sob sua inteira, intransferível, responsabilidade?

Na loja, mais uma vez veio o proprietário solícito, a lhe despejar informações técnicas: parâmetros da água, filtragem, coabitabilidade dos peixes... ‘Pomacea...’ é o nome do bicho desta vez , um caracol amarelado, o único que pode ser mantido em um aquário plantado como o do filho, alimentando-se de algas, ração dos próprios peixes e folhinhas em decomposição.

Após a compra do molusco , de volta à casa, assediado pela agitação da criança, com um certo medo ou repulsa lhe alizando as mãos, o pai deixa escapar o caracol que perde uma lasca da concha no choque contra o chão. Com redobrado cuidado, apanha a preciosidade e a acomoda no aquário , sentindo-se um monstro inafiançável diante do choro e das acusações do menino de ter assassinado a criatura.

À noite , após o filho, ainda choramingando , terminar a lição de casa, volta com o menino ao aquário na sala, para sondarem as possibilidades de sobrevivência do caracol. Redescobrem o milagre, a resistência da vida, ao verem-no se movendo, as anteninhas brancas, espertas, voltadas para fora.

Tudo se resolvera da melhor maneira e agora é , novamente, o paizão amigo, provedor da serenidade e da ordem.

Ao colocar o filho para dormir, diz que o Marujo, nome do novo membro da família , com certeza sobreviverá. Vê a esperança já cerrando os olhos do garoto e se redime, com a sensação de missão de paterna cumprida. Quando vai apagar a luz, o menino lhe pede:
- Pai, me compra uma tartaruga?

- Tartaruga??? Você só pode estar brincando , moleque, logo vai querer um elefante também. Mas veja só, tartarugas estão totalmente protegidas pelos ambientalistas e não podemos mais criá-las em casa, e ponto final.... Mas por que você quer uma tartaruga?

- Porque elas são calmas , pai – e o guri adormece como um anjo.

Ao deixar o quarto , vai até a sala, liga o som , senta-se à poltrona para sua descontração, o desapego do dia.

Ah, filhos!... Mas já fora criança e nutrira enorme interesse pelo universo dos bichos. Guardara luto e realizava verdadeiros funerais de seus animaizinhos que morriam. Permutara peixes de aquário com a prima, nos finais de semana. Uma vez ganhara dela um Kínguio deslumbrante, que mais parecia uma chama líquido-dourada, com nadadeiras e caudas de véus flutuantes.

Agora mais leve, contemplando o aquário, a música calma lhe trazendo o sono, alegra-se com uma idéia que então lhe ocorre, a de que crianças têm a idade dos peixes, o sono do mar.

E não se assusta quando vê o filho nadando nas transparências daquelas águas , entre os peixinhos multicoloridos : um Beijador branco-prateado, afugentando o inamistoso caracol que se enfia em sua casa e tranca a escura portinhola Deus sabe até quando.

Fernando Campanella, 05 de Julho de 2007


*
"Os beijadores são peixes que chegam a reconhecer o dono, e que se tornam agessivos se o espaço (onde vivem) for pequeno."

(Comentário feito pelo aquarista Fabrício Caramello Ortins Sampaio à postagem sobre esse peixe no blogger: www.aquarionline.com.br/portal/peixes/peixes_detalhe.asp?id=211 -

domingo, 14 de junho de 2009

CORUJAS EM TRÊS TEMPOS


Foto by Fernando Campanella


Eu sigo escrevendo , bebendo de poetas que adoto, deixando a alma me conduzir a este porto íntimo onde as estrelas pousam, os grilos cricram e a dama-da-noite me seduz com seu perfume, suas vestes de seda e luz. Ah, corujas também me visitam e tomam às vezes um chá comigo, depois partem, com promessas de volta.
Assim a minha alma, rastreadora do universo, da polissemia, ou da própria ausência de qualquer sentido. Viver, no mistério mais encantado da palavra, é metaforizar.
Fernando Campanella


I

Corujas
são pupilas
sencientes
da noite
que afronta

- eu sou pupila
do faz-
de-
conta.

II


Faz de conta que a coruja
me chama em augúrios
na noite.

Tolo caçador de mistério
me faço:

corujas e eu
não roemos a mesma corda

e mistérios, se existem,
em mim não cabem,
passam longe da minha porta.

III

(INFÂNCIA)

Mãe coruja fez seu ninho
lá no oco do bambu
- salta fora, passarinho,
passa longe urutu.