segunda-feira, 20 de julho de 2009

PAISAGENS


São Sebastião das Três Orelhas, sul de MG
Foto by Fernando Campanella

Candeeiro à beira da estrada
paisagens de neblinas e comas:
cheiram mimos de melissa
dormem casas sombreadas
pupilas noturnas voam.

Coração circunspecto de Minas,
bate em noite, bate em dia,
abre uma artéria em mim.

Fernando Campanella

domingo, 19 de julho de 2009

DAS CEREJEIRAS EM FLOR


Foto by Fernando Campanella


De meu caro amigo poeta, José Carlos Brandão, recebo estas palavras referentes à minha foto de uma cerejeira postada neste blogger: "A cerejeira vale por um poema. É até pena: deixa pouco para nós poetas. Mas é engano: dá mais trabalho – quais as palavras? A imagem está formada, no espírito, mas quais as palavras que lhe deem a forma concreta?"

Atenho-me à primeira parte de seu comentário, quanto à referência de a cerejeira deixar pouco para nós poetas. Realmente, essa árvore parece-me ser a poesia em si própria: algum jardineiro de Deus, no início do florestamento da terra, deve a ela ter dispensado uma dedicação contemplativa tal que diante de sua obra até as musas silenciaram em admiração.

Hipérboles à parte, as cerejeiras suscitam, além de nosso silêncio, ou algo como um estado Zen, o minimalismo em nossas formas ou técnicas de expressão. O hai-kai seria a forma mais propícia para abordá-las visto que, segundo Octávio Paz, tal estrutura poética 'é anti-retórica, lisa, e simples'. Uma abordagem, uma observação, cujo fruto seja o conhecimento direto, não esotérico ou racional, da árvore e, por extensão, do mundo natural.

De alguns haikais sobre a cerejeira, destaco dois de Bashô (1644-1694), o poeta de inspiração budista que estabeleceu os cânones do tradicional hai-kai japonês:


Quantas memórias
me trazem à mente
Cerejeiras em flor
(Matsuo Bashô, 1666)

Uma velha sem dentes
que rejuvenesce:
cerejeira em flor.
(Matsuo Bashô)

Retomando o comentário de meu amigo Brandão, mencionado no início, estou, então, de pleno acordo: as cerejeiras deixam pouco para nós, poetas. E esse pouco eu ouso aqui, em um poemínimo, com o espírito, mais que a técnica, do hai-kai, endossando as gentis palavras que o poeta me enviou:

Prudente todo o silêncio
À tua súbita aparição,
Cerejeira em flor

Fernando Campanella



sábado, 18 de julho de 2009

EXÓTICA


Foto by Fernando Campanella

Cerejeiras, cerejeiras -
como vêm, como vão?
São caprichos, são intrusas?
Não importa, se minha alma
é exótica, é Japão.

Fernando Campanella

ANÔNIMOS


Autorretrato* anônimo (Pichação em muro da cidade)
Foto by meu amigo D'Ângelo (Dedé)


de volta ao futuro:
ecos rupestres
na caverna do muro

Fernando Campanella


Meu grande amigo, poeta e fotógrafo, D'Ângelo enviou-me a foto, acima, que tirou de um desenho pichado em um muro de nossa cidade. Uma excelente imagem que meu amigo conseguiu e que suscita reflexões sobre o ato anônimo, e vândalo, nos termos do artigo 65 da lei dos crimes ambientais.

Segundo o site informativo http://www.wikipédia/, a pichacão existe desde a Antiguidade. Nos muros de Pompéia pichavam-se poesias, insultos e críticas de caráter político. Na época medieval, padres pichavam muros de conventos rivais.

Na época moderna, são emblemáticas como manifestações de liberdade, as pichações do lado ocidental do ex-muro de Berlim, constratando com a pintura intacta do lado oriental, controlado pelo regime socialista soviético.

No Brasil, as pichações vêm se tornando um ato cada vez mais constante, praticado por jovens, geralmente da classe média, motivados por uma necessidade de lazer, aventura ou adrenalina, ou até mesmo disputa, mais que com o objetivo de protesto político ou social.

Costuma-se estabelecer uma distinção entre grafite e pichação, embora as duas formas de expressão utilizem-se dos mesmos materiais de execução. O grafite, dentro dessa conceituação, seria artisticamete mais elaborado, permitido, aceito como manifestação de arte contemporânea.

(O histórico sobre a pichação acima foi compilado de um excelente texto informativo sobre o assunto do site: http://www.wikipédia.com/ )


O desenho da foto acima poderia ser classificado como pichação ou grafite? Como um ato vândalo, realizado sem a permissão do proprietário do muro, trata-se, é óbvio, de uma pichação. Porém, há nele um quê de arte contemporânea, um Picasso ou um Miró, anônimos, uma voz que transgride, sim, mas que se faz ouvir na cor, nas formas, nas linhas que se dispõem com uma expressividade tal a permitir infinitas leituras... Da solidão das cavernas ao cérebro moderno, como um parafuso, um utensílio, um abridor de garrafas...

Fernando Campanella

*Abaixo da foto, escrevi autorretrato, e senti grande estranheza: seria essa a grafia correta após a reforma? De acordo com o site www.nuvemseo.net/nova na seção Ortografia a ortografia está corretíssima pois:

Hífen -
O sinal não poderá ser mais usado quando a primeira palavra terminar com vogal e a segunda começar com consoante. Ex. Antes: anti-rugas, auto-retrato, ultra-som. Depois (da Reforma): antirrugas, autorretrato, ultrassom.

O sinal (hífen) deverá ser usado quando a palavra seguinte começa com b, h, r, m , n ou com vogal igual à última do prefixo. Ex. sub-base, inter-regional, super-homem, etc.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

ANTÍQUA (V)


Foto by Fernando Campanella



(... Promessas de novas proles não se cumpriam
que os ninhos eram cinzas por palhas
e os ovos um a um derretiam...)*


Também já senti em minha alma
como nos livros sagrados
a destruição por incluso fogo,
um apocalipse, uma noite
sem as fímbrias das nascentes,
sem os arautos da manhã.
E em cinzas, um fantasma,
um pesadelo deambulante,
me exauri, me desfiz.

Mas algo como um sopro,
de tuas entranhas, Amor,
sussurrou-me, então,
que eu não estava morto.

Fernando Campanella

*Trecho do poema 'Parque das Emas'
de minha autoria escrito em 1989.

terça-feira, 14 de julho de 2009

TRÊS MARIAS


Foto by Fernando Campanella
(Colônia de nidificação das garças junto ao
rio Sapucaí, Bela Vista, sul de MG)

...Contemplando-as na tarde, consortes, amantes em plena, festiva cumplicidade, ciente de que logo partirão, em incansável saga de asas, para cuidar de outras conquistas, lembro-me dos versos do poeta irlandês Yeats, referindo-se aos seus cisnes selvagens de Coole:

'Entre que juncos edificarão sua morada,
Junto a que lago, junto a que charco,
Deliciarão o olhar do homem quando um dia eu despertar
E descobrir que voando se foram?'

Fernando Campanella
(Trecho do texto 'Saga de asas' sobre a colônia
de nidificação das garças no rio Sapucaí, sul de MG)

TRÊS MARIAS

Três garças na árvore quando passo
Três meninas - de que brincam,
que sonhos em penugens terão?
Três senhorinhas no rio emplumadas
quando volto - o que bicam,
nas águas rasas o que pescarão?
Quando me vou deixo três viúvas penadas -

meus desejos, minhas três graças,
que deuses agora concederão?

Fernando Campanella

segunda-feira, 13 de julho de 2009

TREVO DE MINAS


Foto by Fernando Campanella
(foto consentida, região rural de Baependi, sul de MG)

era uma vez hoje:

minas me vêm
minas me vão
minas me amam
minas me enganam
minas me foram
minas me clamam
minas 'mi são'
Fernando Campanella