domingo, 12 de junho de 2011

RESPONSO*


Foto por Fernando Campanella

Santo Antônio do Itaim é uma região rural do município de Pouso Alegre, sul de Minas Gerais, cujo nome inspirou-me este responso (abaixo) de alguma alma que habita o imaginário, a ancestralidade da qual estamos embuídos, de que somos herdeiros, devotos ou não.

Santo Antônio do Itaim,
intercessor das tentações,
agradeço, meu bom santo,
pelas bênçãos que recebi
mas meu vestido de noiva
já não me encanta, não me veste,
foi se encolhendo ao tempo,
juntando nódoas e traças
das núpcias que desfiz.

Nove vezes nove terças-feiras
vi crescerem e minguarem
as luas, os brotos de meu capim,
agora, descasada do mundo,
recolho cacos, fiapos
de minha vidinha sem fim.

Faz com que eu me cubra de estrelas
da imensidão de teu céu
nas águas de onde saí.

De mim, só a velha carroça,
sem mais canarim pra tratar
e ainda devota de ti,
mais uma vez,
agora teu nome em meus seios,
vou acender sete velas,
sete rosas vermelhas ofertar.

(Se ainda solteiro, meu santo,
meu homem, concede-me a graça,
a bênção das bênçãos,
de contigo pro altar me levar).

Fernando Campanella

*Responso: oração a Santo Antonio para que se achem coisas perdidas ou não aconteça mal que se receia.


segunda-feira, 6 de junho de 2011

A LOUCA DA CASA


Foto por Fernando Campanella



...Era um sonho... E nele vozes antigas, versando em língua que por arte própria dos sonhos eu entendia, em grave encantamento assim diziam:

'Eis o teu sol da meia-noite,
eis a luz transfigurada.
Benditos os que vivem em bons termos
com o hóspede imaginário,
com a 'louca da casa'.

Fernando Campanella


Foto por Fernando Campanella


domingo, 29 de maio de 2011

CARL SANDBURG, UMA TRADUÇÃO


Foto por Fernando Campanella

SONHOS NO CREPÚSCULO

Sonhos no crepúsculo,
Apenas sonhos encerrando o dia,
Retornando-o com tal desfecho,
Aos tons cinza, escurecidos,
Às coisas fundas e longínquas
Do território dos sonhos.

Sonhos, apenas sonhos no crepúsculo,
Apenas as rotas imagens lembradas
Dos tempos idos, quando o ocaso de cada dia
Escrevia em prantos as perdas da afeição.

Lágrimas e perdas e sonhos desfeitos
Talvez acolham teu coração
ao anoitecer.

(Dreams in the Dusk, poema de Carl Sandburg,
tradução de Fernando Campanella)



Foto por Fernando Campanella

DREAMS IN THE DUSK

Dreams in the dusk,
Only dreams closing the day
And with the day's close going back
To the gray things, to the dark things,
The far, deep things of dreamland.

Dreams, only dreams in the dusk,
Only the old remembered pictures
Of lost days when the day's loss
Wrote in tears the heart's loss.

Tears and loss and broken dreams
May find your heart at dusk.

(Carl Sandburg)

sexta-feira, 27 de maio de 2011

SE ESSA RUA FOSSE MINHA


Foto por Fernando Campanella

seria uma rua encantada

onde as casas exalam cores
e os vizinhos dão bom-dia
quando amanhece e o sol
vem sentar na calçada

Fernando Campanella



quinta-feira, 19 de maio de 2011

SAKURA*, UM HAIKAI


Foto por Fernando Campanella


Vã toda palavra
à tua súbita visão,
cerejeira em flor

(Fernando Campanella)


Uma velha sem dentes
que rejuvenece
cerejeira em flor

(Matsuo Bashô)

*A flor de cerejeira é uma flor de qualquer árvore do gênero 'Prunus', particularmente a cerejeira japonesa 'Prunus serrulata', a qual é chamada algumas vezes de 'Sakura'. (Wikipedia)


quinta-feira, 12 de maio de 2011

E MAIS O TEMPO...


Foto por Fernando Campanella


há em mim a natureza de um calcário
de catedrais adentro

dê-me todo oceano do mundo
e mais o tempo
e mais o tempo...

Fernando Campanella, 1989

quarta-feira, 4 de maio de 2011

FRUTOS DA TERRA


Foto por Fernando Campanella


Benditos os filhos do ventre da terra
que o sol desperta tão cedo
que o trigo e a uva aguardam no campo
para o mágico processo do pão e do vinho.

Benditos os frutos da terra
que se abrem à manhã
em silêncios e cantos
que se mesclam no ar

e os filhos da paz
que ligam o céu ao mundo,
os que reciclam o dia
dele retirando sustento e eternidade.

Abençoados os que bendizem,
os que curam, os que a dor amenizam
e que por via da tolerância se entendem.

Benditos os que domam a cólera
e se transformam no amor,
amor que bebe da vida em identidade.

Bendito o sol
que amadurece os frutos da terra.
Mais bendita a luz
por que anseia a 'noite escura da alma'.

Fernando Campanella, poema escrito em 1984.