segunda-feira, 7 de novembro de 2011

EFEMÉRIDES (NOVEMBRO)


Guapuruvu, foto por Fernando Campanella

Novembro lava a alma
e as flores do Guapuruvu
respingam na tarde.
Logo a lua dá o ar da graça
e entre os galhos da árvore
amorosamente se enrosca.

Fernando Campanella

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

DEO GRATIAS* (BEM-AVENTURANÇA)


Foto por Fernando Campanella


Graças, por todo pão e mistério
pela palavra soerguida
pela poesia
pela vida sobre a vida.

Fernando Campanella


(Graças também pela bem-aventurança nas epifanias, pela oração das imagens também soerguidas pela poesia.)*

Marcantonio Costa

*Meus agradecimentos aos poetas amigos do Facebook Adriano Winter, que meu inspirou o título "Deo Gratias" , e Marcantonio Costa, cujo comentário transcrevi acima.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

SINA


Foto por Fernando Campanella


Sempre ouvi dizer que poetas
têm um solitário destino.
(A solidão ora enlouquece
ora floresce)
Não sei: ser poeta é minha sina
ou busco a poesia
que a solidão me atina.

Fernando Campanella, 1993.

sábado, 22 de outubro de 2011

HÃO DE LEMBRAR


Foto por Fernando Campanella

o mar me ultrapassa
mas ondas haverão de contar
aos ouvidos que lá pousarem
que um dia sonhei no mar

o céu não vai se importar
quando eu de meu hábito partir
mas estrelas enquanto restarem
hão de lembrar
que um dia me puseram feliz

a terra , é fato, há de me subtrair
mas a árvore que me deitou raiz
e os frutos que em meu tempo colhi
estes eu levo comigo
ninguém há de tirá-los de mim

Fernando Campanella



quarta-feira, 5 de outubro de 2011

METÁFORA


Foto por Fernando Campanella

Já não tento reter do dia
a luz que por exata concede
a chama alquímica dos amantes
a doçura de pétalas breves.
O tempo tem o galope das fúrias
ventos que jamais enternecem.
Melhor correr da memória o labirinto
drenar os aquíferos fundos
e aguardar: tudo vai escapando
o que restar será na noite
a forma intáctil, o espectro redivivo.

(Mais no mundo me tardo
mais no comando de sombras me esmero)

Deus conceda que me baste
este último apelo de náufrago: a metáfora,
pétala incorpórea com que me visto.

Fernando Campanella, 2006

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

NIGHTBOUND (UM POEMA E SUA TRADUÇÃO)


Foto por Fernando Campanella

NIGHTBOUND

I breathe the nights
I'm the restless longings
of past sheperds & ancient bards

(an elated zombie
eternally wandering - am I?)

the spell of whispering waves
the tranquility seas
the mystery capes

of the trees the secretive design

Orion's hunter and magi
the nocturnal, inebrianting wine

I'm the one who inhales and weeps
amber beads at night, some gods' wink
( Hush - But a dream? )

I'm the moon's transfigured light.

Fernando Campanella


NOTURNO

Respiro as noites
sou inquietas saudades
de antigos pastores
e bardos primordiais

(um extático zumbi
eternamente vagando
- seria eu mais?)

os cabos de mistério
os mares de tranquilidade
a magia de ondas enternecidas

o desenho incógnito das árvores

de Orion, o caçador e os magos
o vinho noturno, inebriado

o que gotas de âmbar, à noite,
sorve e lacrimeja

algum piscar dos deuses
(Silêncio - apenas sonho?)

sou da lua a luz transfigurada.)

Fernando Campanella

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

CONVERSA DE COMPADRES*

Foto por Fernando Campanella


Conta-se que lá pelas bandas dos Campos do Serapião, a umas boas léguas de Despropósito, vivia um homem batizado Sebastião, esconjurado Bastião Medonho, sovina até os ossos, mestre no ofício de contar migalhas para gerar maior lucro e evitar dissipação.

Seu sítio era o que mais prosperava nas redondezas. Seus cavalos, os mais possantes, seu gado, o mais gordo, seu milharal, o mais viçoso da região.

Possuía tal indivíduo uma azenha , ou moinho d'água, onde processava o milho que plantava. A ele recorriam os sitiantes do lugar, trazendo suas safras para a barganha em farinha ou fubá. E o Medonho sempre lucrava, o que os vizinhos levavam era três vezes menos o que traziam.

Às crianças, que com seus pais ao sítio do Bastião chegavam, sempre era dada a metade de um bolinho de chuva que a esposa fritara, ou , se na hora do almoço, uma lasquinha do capado que abatera...Tudo milimetricamente calculado.


Conta-se, enfim, que o Medonho, embora com ares de "tão bãum, tão bãumzinho", era péssimo pagador. E que amealhara uma pequena fortuna , a qual esquentava o único banco de Despropósito. Acertava suas dívidas apenas quando não havia mais escape e lhe pesava a ameaça de processos na comarca.

Ora, vivia também por lá um compadre seu, o Sr. Maneco Furtado, um homem de caráter reto, pródigo, "uma candura de pessoa" , diziam. Conheciam-se os dois, o Bastião e o Maneco, desde que nasceram, por conta de laços de compadrio das famílias, os quais remontavam a várias gerações.

Certa feita, o Maneco vendera umas cabeças de gado para o compadre Bastião, sem documento assinado, na base da mais pura confiança, da amizade que unia os dois desde tenra infância. E nunca recebeu o dinheiro da transação. Também nunca cobrou: o Bastião era "cumpadi, amigo "dos bãum", um mano quase de sangue". E se não pagava era porque devia estar em má fase, como o compadre Bastião sempre lhe reclamava, chorando as pitangas, prometedendo saldar a dívida assim que "as coisa miorasse".

Após a tal compra do gado, o Bastião ficou tempos sem ver o compadre, não dando mais as caras em seu sítio.

Maneco não era mesmo um homem deste mundo. Mas de tolo nada tinha. Sabia que o sítio do compadre prosperava, mas fazia vista grossa ao fato. Colocava os valores de sentimento e de dignidade acima de todas as coisas, embora acusado de ingênuo pela esposa e familiares.

Até que num dia, fadado a acontecer, Bastião viu o Maneco em Despropósito, num armarinho, numa dessas antigas lojinhas que vendiam de tudo, de guarda-chuva a botão. Tentou disfarçar, até mesmo escapar do encontro, um mal-estar lhe gelando as veias como se houvesse enxergado um fantasma, familiar, mas um fantasma. Todavia, o bom Maneco, em sua aura de cordialidade , veio ao seu encontro, com a discreta elegância que lhe era característica, o chapéu bem limpinho, os óculos, a calça deixando entrever as botas sem meia, o embornal de compras a tiracolo.

-Salvi, cumpadi Bastião, como tem passado a famia? E ocê, irmãu, já tá melhorzinho lá no sítio? Miorô as coisa por lá?

-Vigi, cumpadi, a situação tá ruim mais tá ruim. Tô penano dimais. Muita chuva, perdi o mio tudinho, Deus tenha dó....

E Bastião continuou a ladainha, tentando causar pena no Maneco, evitando a todo custo tocar na ferida da dívida feita com o compadre. A esta, porém, o Maneco nem referência fez, apenas relembrou os tempos da infância que tiveram, quando nadavam nas enchentes do Lava- Cavalo', os bons momentos que haviam vivido em comum.

Após algum tempo, despediu-se o Maneco, exatamente como surgira, em leveza de espírito, em um quase sopro de candura, luz calma que de repente alumia, e esvaece.


-Bom sujeito esse Manequinho, meu cumpadi, disse então o Bastião ao dono da loja, o Toninho da Zefa. E arrematou, rindo meio a contragosto: Pareci até um espiritu de tão levinho...

-O senhor tá bem? - perguntou-lhe o Toninho. Tava falando sozinho... Tá passando bem?

-Tava proseanu aqui com meu cumpadi Manequinho, irmãu dus bãum...


- Ele morreu esta madrugada. O corpo tá na igreja, o enterro tá marcado pras quatro da tarde.

Corre a lenda que Bastião, após confirmar o falecimento do compadre pelo anúncio da igreja, arrepiou-se dos fios do cabelo às unhas dos pés, e que disparou da cidade como se tivesse visto o Coisa-Ruim, a Besta-de-Barba-de -Bode.

Seu sítio foi vendido, a família dali se mudou. E do safado nunca mais se ouviu falar. Se continuou medonho, não se sabe. Se morreu, ninguém sentiu.

Fernando Campanella, Março de 2009.

* O personagens do conto não têm relação nenhuma com a foto postada, a qual é mera ilustração.