quinta-feira, 24 de novembro de 2011

ARCO DE CORES


Foto por Fernando Campanella


Dobrei o labirinto
e lá ele estava,
assente, como um farol.
Não indaguei como
nem quis saber porquês.
Melhor que as belezas
aconteçam assim
- um engaste do tempo -
zênite em mim.

Fernando Campanella


domingo, 20 de novembro de 2011

LA CAMPANELLA


Foto por Fernando Campanella

Aquela senhora tem um piano
Que é agradável mas não é o correr dos rios
Nem o murmúrio que as árvores fazem...

(Alberto Caeiro)


Aquela senhora toca um piano na tarde,
as teclas ágeis ondulando em mimos,
em vibrantes sinos delicados.
Imersos cada qual em sua história,
de repente uma sintonia nos toma,
uma arte - um rio profundo sem corte,
um outro azul que nos sonha.


Fernando Campanella

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

EFEMÉRIDES (NOVEMBRO)


Guapuruvu, foto por Fernando Campanella

Novembro lava a alma
e as flores do Guapuruvu
respingam na tarde.
Logo a lua dá o ar da graça
e entre os galhos da árvore
amorosamente se enrosca.

Fernando Campanella

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

DEO GRATIAS* (BEM-AVENTURANÇA)


Foto por Fernando Campanella


Graças, por todo pão e mistério
pela palavra soerguida
pela poesia
pela vida sobre a vida.

Fernando Campanella


(Graças também pela bem-aventurança nas epifanias, pela oração das imagens também soerguidas pela poesia.)*

Marcantonio Costa

*Meus agradecimentos aos poetas amigos do Facebook Adriano Winter, que meu inspirou o título "Deo Gratias" , e Marcantonio Costa, cujo comentário transcrevi acima.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

SINA


Foto por Fernando Campanella


Sempre ouvi dizer que poetas
têm um solitário destino.
(A solidão ora enlouquece
ora floresce)
Não sei: ser poeta é minha sina
ou busco a poesia
que a solidão me atina.

Fernando Campanella, 1993.

sábado, 22 de outubro de 2011

HÃO DE LEMBRAR


Foto por Fernando Campanella

o mar me ultrapassa
mas ondas haverão de contar
aos ouvidos que lá pousarem
que um dia sonhei no mar

o céu não vai se importar
quando eu de meu hábito partir
mas estrelas enquanto restarem
hão de lembrar
que um dia me puseram feliz

a terra , é fato, há de me subtrair
mas a árvore que me deitou raiz
e os frutos que em meu tempo colhi
estes eu levo comigo
ninguém há de tirá-los de mim

Fernando Campanella



quarta-feira, 5 de outubro de 2011

METÁFORA


Foto por Fernando Campanella

Já não tento reter do dia
a luz que por exata concede
a chama alquímica dos amantes
a doçura de pétalas breves.
O tempo tem o galope das fúrias
ventos que jamais enternecem.
Melhor correr da memória o labirinto
drenar os aquíferos fundos
e aguardar: tudo vai escapando
o que restar será na noite
a forma intáctil, o espectro redivivo.

(Mais no mundo me tardo
mais no comando de sombras me esmero)

Deus conceda que me baste
este último apelo de náufrago: a metáfora,
pétala incorpórea com que me visto.

Fernando Campanella, 2006