sábado, 26 de outubro de 2013

O EU CONFESSO (15)



Esta música evoca uma floresta
povoada de mitos e deuses
que por mero capricho não são meus.
Minha floresta tem outros ritos.
Mas certa música também dela irrompe
e bate em ouvidos que a interceptam
e que por um acaso agora são teus.
Fernando Campanella, 2007

domingo, 13 de outubro de 2013

ISENTO

Foto por Fernando Campanella


Orienta-te pelo calendário das flores
que são viço e esquecimento,
desprende-te dos ofícios do dia,
apaga os números, os anos e anos,
releva a data de teu nascimento.
E por tão leve sendo,
por tão de ti isento -
de uma quase resistência de pluma -
abraça o momento,
leva por bagagem os sonhos
e toma carona nos ventos.

Fernando Campanella
(Poema feito para a minha querida amiga Madalena, por ocasião de seu aniversário em 2009).

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

QUINTESSENCIADO

Foto por Fernando Campanella


Vou arrancar os sapatos
e ouvir
meu blues quintessenciado;

vou despir-me de humores
e escapar, asas em som,
pelos portal dos sentidos
pelo desvão do telhado

– não me lembrem o mundo agora,
este já me entope os poros
a cada esquina
e satura-me a pele feito pólipo –

vou desfazer bagagens
e ser assim alteridade

a mim imune
um fogo fátuo
um vagalume.

Fernando Campanella

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

POEMAS ANTIGOS (EM SÂNSCRITO)

Foto a partir de um desenho, por Fernando Campanella

O vento não tem credo,
os pássaros não têm gramática.
Cego conduzindo cegos
ou apenas uma ordem mais refinada?

Poderia eu sentir em Sânscrito
que o suor de teu corpo
umedece minha alma?

Fernando Campanella

domingo, 1 de setembro de 2013

EXÍLIO

Foto por Fernando Campanella

Caminho tarde adentro
em um lugar de algum tempo
que só a memória me sabe.

Meus olhos devem ser faróis
de alguma ilha perdida –
por que faço da imagem
a pátria da minha vida?

Fernando Campanella


quarta-feira, 28 de agosto de 2013

PRIMEIROS POEMAS (ENSAIO)

Foto por Fernando Campanella

Ensaio

Da mais obscura cela,
dos impenetráveis confins,
um reles mortal, o que vê? 
Aos vermes, o limite da terra,
aos peixes, o lençol do mar,
mas a mim, o que vem?
Minha janela esboça o contorno
de um infinito rasgado de céu...
Inútil ensaio.
Seria este o consolo, 
vislumbrar, somente, 
o que há tanto pedi?
(As asas,
onde as esqueci?)

Fernando Campanella, poema de 1988.

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

À NOITE



À noite seguimos descuidados,
por árvores em renques de aromas
entre pétalas em sono de orvalho.

À noite sonhamos em um céu de metáforas
onde a mínima lua
é unha que arrepia segredos,
estrelas são hangares pequeninos,
a sombra, um lobo dócil que nos chama.

À noite, rompemos degredos,
volvemos aos ninhos,
somos meninos –
infância distraída de seus medos.

Fernando Campanella