domingo, 12 de janeiro de 2014

ENTRE POLOS

Foto por Fernando Campanella

Há uma luz que incide em nossos corpos,
às vezes vaga, às vezes lume,
às vezes arco que constela de cores
as vias tortuosas de nossa estrada. 
Se enfrentei os mastodontes da noite
e minha armadura, ainda assim, 
revestiu-se de nada, eu me rendo:
esta luz que oscila entre nossos polos,
ora magra, ora vasta, é ganho, é graça -

desenha-me um azul no glaciar da alma
e me retrata. 

Fernando Campanella


domingo, 29 de dezembro de 2013

GAVIÃO-FUMAÇA

Foto por Fernando Campanella

- Tio Raimundo, um gavião desceu no quintal e quase pegou  o sabiá na gaiola. Eita bicho malvado.

- Foi o sabiá que te dei, foi?

Tio Raimundo trouxera o pássaro ainda filhote para o sobrinho. O bichinho caíra do ninho e seria presa fácil de alguma cascavel. O menino o criara em uma bela gaiola com todo carinho, alimentando-o, conversando com ele na linguagem que só a alma em estado graça pode ter  com os bichos. Haviam se tornado grandes amigos.

- Bicho malvado o gavião, tio – insistiu o menino.

- Não é bem assim, meu filho – disse o tio com aquela sabedoria de quem permaneceu criança  e tem um pacto secreto com a natureza, característica que o sobrinho, ainda sem racionalizações, mais admirava no tio.

- Não é bem assim não –insistiu o tio – nunca chame os animais de malvados, a natureza deles não é a mesma dos homens. Vem cá, senta aqui, vou te contar uma coisa que vi, que vai fazer você mudar esta cabecinha.

O sobrinho sentou-se bem junto do tio, e atentou os ouvidos, presa do encanto das histórias que aquele homem sempre contava.

- Uma vez, voltando da cidade, passei pelo sítio  do João Teodoro, lá pelas bandas do Paiolinho. Ao dobrar a curva depois da casa do João, deparei com um fogaréu na mata, desses incêndios criminosos tão comuns por aqui,  coisa de doer a alma. Parei meu carro, meio pesaroso, sabe, pois a cena era por demais triste.  Em uma árvore alta , próxima ao fogo, vi um gavião muito compenetrado, olhando para aquela danação  toda. O bicho estava triste, posso te jurar, eu senti isso pelo jeito que olhava a mata em chamas. Deu até vontade de chorar. Ali naquele incêndio provocado pelo João Teodoro provavelmente  haviam morrido a fêmea e os filhotes em uma daquelas árvores mais altas. O gavião macho ficara sozinho, soziinho  no mundo. Quando voltava com algum alimento para a família deve ter presenciado  toda aquela desolação.

- Nossa, tio, coitado do gavião.

- Sim, meu filho, o bicho estava sofrendo, imagina perder toda a família naquele escarcéu  de fogo... Foi uma das cenas mais doídas que já vi na vida. Se a gente se põe no lugar daquela ave, menino, sentindo a perda de uma família, podemos sentir o que o animal estava sentindo.

O menino ficou em silêncio, imaginando aquelas chamas, sentindo toda a dor do gavião.

- Mas, veja bem – continuou o tio – agora vem a parte mais bonita da história... Alguns meses depois quando por aquele lugar passei  vi um gavião em uma árvore junto a alguns bem-te-vis ainda filhotes.  Pareciam alegres, brincalhões, atrevidamente amigos. E pensei: como pode? Gaviões são os piratas dos ares, por todos bichos menores temidos. Eu não tinha explicação para aquele milagre.

- Então me lembrei, só podia ser isto: o pirata encontrara seu tesouro definitivo, uma família, ficara amigo de um casal de bem-te-vis com seus filhotes. Fiquei ali por algum tempo, observando e logo chegaram os pais com alimento. Tudo parecia em ordem, em paz. Eu nem acreditava no que via...

Mais tarde,  após o tio ter ido embora,  ao contar aquela triste e ainda linda história  ao pai, o menino dele ouviu:

- Olha, meu filho, é bom que você saiba, o tio Raimundo é boa pessoa mas imagina demais. Aqueles gaviões que ficam perto do queimadas na roça são chamados de gavião-fumaça. Ficam ali um tempão à espreita,  esperando os bichos saírem em desespero para atacar as presas. Esta estória de amizade deste bicho com os pássaros é pura fantasia.

O menino, decepcionado, sentiu-se bastante confuso  com a explicação do pai que  já fora sitiante  e entendia de bichos. Mas  lembrou-se do fogo na mata, da violência do ato e,  por algo inexplicável em sua alma, decidiu  adotar a história do tio como a  mais necessária, inquestionável   verdade. 

Fernando Campanella, 2009.



terça-feira, 3 de dezembro de 2013

AQUARELA DIGITAL

Foto por Fernando Campanella

bananais
lírios do brejo
reticências e sapos

em transparências digitais
a aquarela de Minas
é meu exílio na tarde

Fernando Campanella


quinta-feira, 21 de novembro de 2013

MAGNUM MYSTERIUM




Fotos por Fernando Campanella

Minha mãe chorava em terço,
meu pai benzia vacas no quintal. 
À porta de Minas, para seus entraves,
entre Deus e o curisco,
sempre havia uma cruz.

Sobre a palavra, edifico teu reino,
ó magno Mistério.  Minha chave -
deixar que te apropries das formas
e que dês corpo à luz.  

Fernando Campanella


sábado, 16 de novembro de 2013

PRIMEIROS TRABALHOS


De repente, este espaço vazio,
vozes sumindo, o vento sussurrando
em folhas...

De repente, a memória das palavras,
imagem e som em filigranas...

(tua possibilidade espiada 
entre frestas de janelas e portas)

Num lance de dados
te encontro, te acaricio, doce poesia...

Filtro emoções, recomponho o universo,
só, feliz, repentinamente...

(Fernando Campanella, 1982).

O poema de 1982  e a foto de 2007 acima foram dos primeiros trabalhos que fiz em poesia e fotografia.


terça-feira, 5 de novembro de 2013

LUA AMARELA (YELLOW MOON)

Foto por Fernando Campanella


Não lamentes idos amores, lua amarela,
que ainda preservas teus encantos
envolvendo mortais em tua trança
desde eras imemoriais. 
Não chores, embora meros errantes,
reféns entre o ser e o nada, sejamos,
e tão mais a mim sobrevivas
em nossas solitárias jornadas. 
A noite é apenas uma assombrosa 
e sonora chance. Dá-me tua mão, assim, 
afasta teu pranto - e que comigo dances. 

Fernando Campanella

YELLOW MOON

Don't mourn over past lovers, yellow moon, 
for you have preserved your charms
and enticed mortals to your feet
since generations of old. 
Don't weep, though we're mere wanderers,
hostages between being and nothingness,
and you survive so much longer than I
in our solitary strolls. 
Night is but a wondrous and sounding
chance. Take my hand, thus, part from 
your moans - shall we dance?

Fernando Campanella                                                                                                                                                   

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

EFEMÉRIDES (NOVEMBRO)



XI

Novembro lava a alma
e as flores do guapuruvu
respingam na tarde.

Logo a lua dá o ar da graça
e nos galhos da árvore
amorosamente se enrosca.

(O universo embala então
 a terra, e os pássaros
sonham abóbodas iluminadas).

Fernando Campanella