segunda-feira, 12 de maio de 2014
ESTAÇÃO
As pontes de ferro desativadas
evocam refugos e traças,
são naves caducas, ex-órbitas,
são marias que viraram fumaça.
A velha ordem se rompe,
parabólicas acolhem a pax americana.
A estação da memória resiste
mas já é Minas fossilizando.
(Fernando Campanella)
quinta-feira, 1 de maio de 2014
AS CORES DO MUNDO
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| Foto por Fernando Campanella |
Quando vejo a imagem acima com a belíssima luz que realçou as cores da terra, do céu, da árvore, da casinha naquele final de tarde, me espanto pensando sobre algo tão óbvio à ciência, ou seja, que a as cores das coisas na realidade não existem, a não ser pela interação de nossos olhos, ferramentas com as quais o cérebro cria o campo visual, com a luz.
Embora nossa visão possa ser ampliada por instrumentos cada
vez mais sofisticados, criados ao longo da civilização, das lupas, telescópios, microscópios a aparelhos de ressonância magnética, etc., a percepção a olho nu ainda nos surpreende e nos encanta. E justiça seja feita à câmera fotográfica que consegue imprimir essas belezas que o mundo nos concede.
"Faça-se a luz", disse Deus, diluindo as trevas, ao criar o vasto mundo que nos hospedaria. Talvez naquele instante tenha também surgido toda nossa predestinação à arte.
(Fernando Campanella)
quarta-feira, 9 de abril de 2014
segunda-feira, 24 de março de 2014
PARQUE DAS EMAS
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| Foto por Fernando Campanella |
Não
façais mal nem à terra, nem às plantas
Nem
às águas...
(Apocalipse)
Acordei no meio da noite, e vi o dia,
dia mais avesso que o miolo das trevas
quando os inocentes da terra choravam,
as flores enrustiam o perfume
e o vinho amargava o sabor.
Os cavalos vermelhos desordenavam
a paz da terra, debandavam as rolas,
disparavam loucas as emas.
Promessas de novas proles não se cumpriam
que os ninhos eram cinzas por palhas
e os ovos, um a um derretiam.
As falanges do fogo consumiam a obra,
calcinavam as ervas, não distinguiam
as montanhas do domínio das águas –
onde era natural majestade, desintegravam,
onde fossem líquidas relíquias, secariam.
Nunca se vira por estas paragens
dor tão intensa e democrática, castigando
desde as ninfas, desfeitas de seus reinos,
até as baleias, de suas águas desmembradas.
Os inocentes da terra choravam
por impotentes e frágeis
diante de tão cruel, definitiva ceifa.
Antes fossem apenas delírios de profetas
o que o livro dos tempos anunciara.
Antes ficasse somente em imagem
a horda de criminosos das glebas
a desfilar com fardas em chamas
e bocas de vômito incandescente.
(O espírito do fogo consome a obra,
sua língua profana lambe e devasta,
seus dentes não deixarão grão sobre grão.)
Fernando Campanella, 1988
sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014
SILÊNCIO MARINHO
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| Foto por Fernando Campanella |
"...Mas escuta, ó meu coração, o canto dos marujos!"
(Mallarmé)
Não sou um homem de cartas marcadas,
o destino, vulgo sorte, fez-me à parte,
não me quis.
Tranquei-me em chaves desde a infância
e onde as deixei, esqueci.
Na contramão das grandes rotas, não demarquei
terras, não publiquei um livro, não amealhei
títulos ou troféus -
não me mudei quando jovem para Nova Iorque
não me viu a TV, nem me fisgaram
os olhos oblíquos dos jornais.
Semeando em campos tão áridos, que cansaço
trazem as glórias do mundo, a mim, que delas fugi,
e nunca as colhi.
Somos dois? Somos tantos, companheiros?
Embebedemo-nos de nosso infortúnio
até o fastio, até sangrarmos, pois
e dobremos os lenços, desbravando o silêncio,
dos elos fortuitos, das graças modestas,
que vem do mar.
Fernando Campanella
o destino, vulgo sorte, fez-me à parte,
não me quis.
Tranquei-me em chaves desde a infância
e onde as deixei, esqueci.
Na contramão das grandes rotas, não demarquei
terras, não publiquei um livro, não amealhei
títulos ou troféus -
não me mudei quando jovem para Nova Iorque
não me viu a TV, nem me fisgaram
os olhos oblíquos dos jornais.
Semeando em campos tão áridos, que cansaço
trazem as glórias do mundo, a mim, que delas fugi,
e nunca as colhi.
Somos dois? Somos tantos, companheiros?
Embebedemo-nos de nosso infortúnio
até o fastio, até sangrarmos, pois
e dobremos os lenços, desbravando o silêncio,
dos elos fortuitos, das graças modestas,
que vem do mar.
Fernando Campanella
segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014
COM A MEDIDA DO BONFIM
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| Foto por Fernando Campanella |
A moça na janela
não usa brinco de pérola
mas também atrai pelo olhar
toda alma de artista
é da Bahia, traz na voz
o molejo dos Nagôs
e no pulso direito
a fitinha do Bonfim.
Que destino lhe aguarda?
Vender água de coco pra turistas
como sua avó
ou tapioca pelas ruas
como a tia?
(Desde os tempos de criança
tem um desejo - me diz querer
ser pintora, ou ampliar seu universo
na arte da fotografia.)
A moça na janela...
Que Oxum regue a branca rosa de seu peito.
Que o Senhor de todos os santos
vele por seus sonhos, e preserve um tal sorriso -
que é dos simples - de menina -
que, eu que parto, guardo comigo, levo dela.
Fernando Campanella
sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014
RESPONSU
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| Foto por Fernando Campanella |
Naquela estradinha de terra que me levava ao Pantano dos Rosa, Zé Grandão, em sua carroça, levando silagem ao gado, com o cigarro de palha na boca, deteve-se em seu trajeto e contou-me por quase um par de horas um tanto da história de sua vida.
A certa altura, disse-me:
- Minha madrinha tem responsu com Santa Luzia.
- Responso? - perguntei.
- É, responsu. Quando tem uns pobrema dos bravu comigo, qui num consigo resolvê, vou na casa dela, tomo a bênção e mostru a fechadura. Ela reza então pra santa, no altarzinho da sala, se sacodi em tremura e me diz: "Pode ir, meu fio, tudo se ajeita, o que é pro teu bem já tá marcadu."
E completou:
- E eu sempri encontrei a chavi.
(Fernando Campanella)
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