quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

CORDEL ENVENADO


Fotos por Fernando Campanella

O menino da casa ao lado solta uma pipa vermelha - descarrega, puxa, assovia. Testa a liberdade ao vento como se com uma lua, agora cheia, brincasse.

Já quase noite, a mãe, da janela, o chama várias vezes para o lanche e a rotina dos deveres escolares.

Esse casulo, sob o acalanto da lua, reminiscências de minha infância, totalmente feliz me poria, não  fossem meus pensamentos de outras pipas, outras janelas, não tão longe, de geografias mais desprovidas, onde mães em pavor invocam seus santos, chamando os filhos para dentro, para o incerto abrigo embaixo da mesa, atrás do sofá, sob a ameaça de balas perdidas de um tiroteio a começar.  

Meninos voam com sonhos, talvez de um Einstein, um Mandela, ou mesmo de um cidadão do bem, como seu pai, quando infantes. Porém, às vezes, cordéis se envenenam, as pipas desgarram e vão, sabe lá Deus aonde, à revelia da infância, pousar.  

(Certas ruas
 certas ruas têm um bosque
 - armadilhas - que se chamam
 que se chamam exclusão...)

Fernando Campanella



segunda-feira, 31 de julho de 2017

NO JARDIM

Foto por Fernando Campanella

Percebo neste inverno, no meu jardim, que um broto de ixora (Ixora Coccinea) recebe a luz do sol diretamente sobre seu corpo pouco depois das 4 da tarde. São alguns minutos de uma transformação que corteja o milagre. A planta parece namorar aqueles raios tão fugazes, ainda que intensos.
E a simbiose se afirma, tudo fica mais bonito, embora a sombra logo se imponha, com o peso do frio das noites de julho.
Acredito que, passada a estação das águas, a raiz fincada na terra, este broto encontra na gratidão, na plena entrega à luz por tão rápidos minutos, a força e a alegria para medrar por aqui.
Esta é a expressão da beleza a que consigo chegar. Gostaria de ir mais adiante, entender as razões, os porquês desta alquimia arbórea, porém, como diz o poeta norte-americano, Robert Frost, "alguma coisa tem que ser deixada para Deus".
(Fernando Campanella)
 
 

segunda-feira, 24 de julho de 2017

UM TUDO QUASE NADA


 
 
um tudo quase nada
um mínimo de luz
sobre um grão de mostarda
 
(Fernando Campanella)
 
 


sábado, 22 de julho de 2017

UMA SUPERLUA

(Foto por Fernando Campanella)


 
 Às vezes travo um solilóquio com a morte
com a dor inapelável
dos que não escapam ao fim.
De repente uma superlua
(ou teu olhar?) 
desponta entre as ramagens sombrias
e parece me dizer baixinho:
sossega, eu ainda estou aqui.
(Fernando Campanella)




domingo, 16 de julho de 2017

RIBALTA

                                           
 

Tua vida foi mais um palco
As luzes cessaram
Os aplausos minguaram -
 
E agora, e agora, irmão?
 
Agora que apenas te resta
Desfazer as dobras
Tatear as sombras
Do rosto de Hades
 
Dançando ao som
Da brisa leve
Soprando a vela acesa
Na palma de tua mão.
 
(Fernando Campanella)
 
 

domingo, 5 de julho de 2015

QUADRILHA MODERNA

Foto por Fernando Campanella

Rodrigo amava Diogo que amava Bruna que amava Raissa que amava
Bianca e Thiago que não amavam ninguém.
Rodrigo foi para Miami, Diogo para Caracas.
Bruna morreu de overdose, Raissa, vítima de assalto.
Bianca converteu-se crente, Thiago, transexual, virou Yasmin
e entrou em união estável com P. J. Collins,
empresário americano que não tinha entrado na história.

Fernando Campanella

(Com a licença do mestre Drummond, um aggiornamento que fiz de seu poema "Quadrilha", publicado em 1930)





segunda-feira, 6 de abril de 2015

A ARTE DA FUGA

Foto por Fernando Campanella


Sobre "A Arte da Fuga", última obra de Bach, inacabada, a pianista Angela Hewitt diz que mesmo o compositor tendo trabalhado a peça em ré menor, tonalidade geralmente associada a afetos de tristeza, "Bach pode dançar".
Outro dia divaguei sobre como as paisagens, as pessoas, que fotografo denotam uma certa tristeza, imbuída da mais teimosa alegria.
Minas, em seus contrapontos e harmonias, talvez, me desperte justamente isto: uma fuga, uma melancolia querendo dançar.

(Fernando Campanella)