domingo, 27 de julho de 2014

DANÇA DAS HORAS

Foto por Fernando Campanella


O velho pêndulo da sala
tiquetaqueia a vida
para além do mecanismo das horas.
Traz levezas, alegres algaravias -
asas de borboletas - entremeadas a ruídos
das mais secas, dolorosas matracas.
Quando nascemos, são júbilos e sinos,
ao partirmos, são traques - catracas -

quem sabe, após, o silêncio -

a tua voz que desincorpora -
mas um vulto sempre lhe dá cordas
e o velho pêndulo da sala não para. 

Fernando Campanella


quinta-feira, 17 de julho de 2014

CASA À ENTRADA DO LAGO

Foto por Fernando Campanella

Esta luz por sobre a velha casa
transpôs o dia, desfaz a tarde -
meus olhos requerem distância
e percorrem a longa, diária
trilha deixada -
não me lembrem agora que caminhos 
apenas conduzem a caminhos 

que labirintos sempre me trazem 
de volta, ao mesmo lugar, mais nada.

Fernando Campanella


quarta-feira, 9 de julho de 2014

"VEXAME" NACIONAL

Foto por Fernando Campanella

Levantei hoje como após um pesadelo, sentindo a derrota da nossa seleção para a Alemanha. Mas logo lembrei que haviam batido à porta da minha casa algumas horas antes, às quinze pras cinco da manhã. Batidas fortes, insistentes, que me acordaram. Fui olhar pela janela da sala (nao tenho interfone) e eram policiais perguntando se aqui morava um vizinho meu. Desculparam-se e me disseram que precisavam informar a ele, o vizinho, que haviam prendido os assaltantes de seu estabelecimento comercial. O assalto, fiquei sabendo depois, havia ocorrido após o término do jogo de ontem.

Tenho que passar no escritório da CEMIG (Centrais Elétricas de Minas Gerais) para reclamar que há três meses a conta de luz não chega à minha casa, meu direito de consumidor. E infinitas pequenas coisas para administrar no meu dia, com um tempinho para editar minhas fotos e postar esta crônica aqui. 

Não vou mais pensar na derrota, decidi. Está mais que na hora de pendurar as chuteiras deste ópio tão cegante, tão manipulado, que é o nosso futebol. Afinal, nenhum membro da seleção perderá seus contratos, seus milhões. A FIFA arrecadou milhões também, e quem for campeão nesta Copa vai ter seus dias de glória, como já tivemos, as redes sociais vão continuar ridicularizando nosso "vexame"... Além disso, há preocupações mais urgentes, como as sócio-econômicas, as referentes à Educação e Saúde públicas, à violência, e (escrevam) à chuva que não vem, escassa em níveis alarmantes, com a perspectiva de um racionamento de água e energia nunca visto antes no Sudeste. 

Cá entre nós, esses problemas tão mais sérios, cruciais, o partidarismo nacional não soluciona. (É aquele eterno blablablá de farpas mútuas, conchavos vergonhosos, demagogia e corrupção.) Nem o futebol. Mas, como disse um amigo, vamos continuar hasteando a bandeira nacional nas instituições, nas casas, nos carros, dentro de nós. Foram atos execráveis os que vi pelos noticiários de torcedores queimando nosso símbolo mais sagrado, vital. Deu vontade de  dizer a eles - companheiros, expressem toda esta indignação nas urnas, não confundam nação com futebol.    Afinal, com ou sem este, e sem a vitória na Copa, temos uma Pátria, precisamos dela, e ela precisa de nós. 

Fernando Campanella  




sábado, 21 de junho de 2014

AMÉM




E Deus rogou as pragas –
capituvas, trevos, ora-pro-nóbis...

Após as chuvas
um sapo estufa
e a vida estica.

Um pardal corteja
a flor conspícua
da tiririca.

Fernando Campanella



domingo, 25 de maio de 2014

POEMAS ANTIGOS



Já viste a alma presa
no cálice de tua mão?
Não validemos tal dor,
no cômputo total
ela não vai além de uma gota,
um suspiro de orvalho
sacrificado ao ar. 
Ao universo nada importa,
tudo traz o selo da perfeição.
Não choro -
mas como queria de vós, 
Natureza, uma tal isenção.

(Fernando Campanella, 1986)

quarta-feira, 21 de maio de 2014

AS AVES DO CÉU

Foto por Fernando Campanella 

"As raposas têm as tocas e as aves dos céus, ninhos; mas o filho do homem não tem onde reclinar a cabeça." (Mateus, 8,20)


...Tarde de maio, teu espelho me afaga -
e as aves sonolentas retornam à casa.

(Final do poema Vias Errantes, por Fernando Campanella)




sexta-feira, 16 de maio de 2014

O PAI



O pai me chamou na sala e perguntou: cadê tua mãe? 

A mãe? - perguntei, em resposta, com incredulidade e espanto, pois já haviam se passado quase doze anos desde o falecimento dela.

Outro dia eu pensara em como os neurônios castigam, amargam a longevidade, pela própria perda deles, ou outros fatores, mas hoje, diante da pergunta de meu pai, na dureza e glória de seus 93 anos,  consegui perceber um veio de ternura em sua voz. Momento de solo absoluto, em que o touro, frágil, torna-se ave, e a memória faz seu ninho. Indagar por alguém que já partira há tantos anos, como se a presença física da pessoa amada, com quem convivera por bem mais de meio século, ainda rondasse os aposentos da casa, e sua voz se fizesse ouvir da varanda, da cozinha, é algo, no mínimo, resplandecente, rompendo os grilhões de ferrugem, a tirania dos hábitos, dos medos que a solidão procria.

- A mãe? Ela está parte no céu, parte aqui conosco - acrescentei - reze por ela.

No final de nosso diálogo, meu pai, em tocante desamparo, disse-me que estava perdendo a memória. Arrematou que orava pela esposa diariamente. E não estava sendo demagogo, não estava mentindo: várias noites antes de ele se deitar, sem que me visse, eu o observara fazer o sinal da cruz diante  do antigo porta retrato em seu quarto. Então tomava-o nas mãos, beijava a imagem dela, dizendo baixinho: minha eterna companheira.

Os seres, embora imbuídos em categorias e espécies, desde as casas que habitamos, as árvores, as flores, os animais de estimação, até os nossos entes queridos, são únicos, insubstituíveis, mas passei a mão no cabelo branco de meu pai como para dizer: eu estou aqui, mesmo com toda ausência, toda falta que o senhor possa sofrer. E  o senti mais leve, pois de alguma maneira eu intuía que a mãe estava ali entre nós.

Fernando Campanella