sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

COMO OS ANOS


Foto por Fernando Campanella


aquelas gotas de chuva
nas folhas
pesam, pesam...

e se tornam leves
quando não são mais tempo

e
caem

Fernando Campanella




...Um brinde aos vivos e aos mortos, ao dia-após-dia, ao ano que se desmancha, e ao que principia, à Terra, à nossa espoliada casa, à nossa jornada, ao protocolo de Kioto, à física quântica, a Você, a Mim, à nossa imensa família, aos vários sexos e raças, às nossas diferenças e igualdades,
à utopia, à boa palavra, a um novo milênio, à esperança de um novo mundo, com mais respeito e tolerância, a um Deus, enfim, maior à nossa própria imagem, às cores, ao arco da nova aliança.
Fernando Campanella, passagem do ano de 2006

FELIZ ANO NOVO A TODOS MEUS QUERIDOS AMIGOS DA BLOGOSFERA.


terça-feira, 21 de dezembro de 2010

SINOS DE MINAS


Foto por Fernando Campanella

Dois sinos tocam ao finado,
um maior, como do céu chamando,
e a alma melancólica respondendo
'Já vou indo, meu pai'
é o sino menor dobrado.

Outro sino
nove vezes na tarde badala
ad aeternum evocando a chegada
do antigo anjo dos mitos.

Aqui, sinos não celebram grandes impérios
nem cataclismos rememoram
nem por isso menos sino se torna
o eco do longínquo que sentimos.

Aqui também bate o sineiro
sinos doces, pequeninos
e da branca torre no natal
todo ano como num encanto
desce do Deus menino
um soprinho.

(Fernando Campanella)

UM FELIZ NATAL A TODOS AMIGOS QUE ME VISITAM, QUE SEMPRE DEMONSTRARAM CARINHO E APRECIAÇÃO PELO MEU TRABALHO. O ESPÍRITO DA ARTE (EM DEUS, ACIMA DE TODA HUMANA ARTE) NOS IRMANA.


domingo, 12 de dezembro de 2010

E QUE PASSA...


Foto por Fernando Campanella

Tua beleza, inconsciente de si,
me puxa em seus encantos
para o seu leito.

Mas o que fazer de tua beleza
senao enquadrá-la em vaso
para nutrir a mesa

senão sofrer/gozá-la em doses
de venenos súbitos e densos...

Como um jardineiro de ventos
prefiro ver-te
eras galgando muros
ervas tecendo pastos
ou aérea flor da memória.

Amar tua beleza, não mais,
como cor que não apreendo
rio que não estanco
e que passa...

Fernando Campanella


sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

VOA, PALAVRA


Design por Marco Antonio Costa (Marcantonio)
Poema por Fernando Campanella



Voa, palavra

a ave avião



Fotos por Fernando Campanella

(Meu agradecimento ao Marcantonio que fez o belo trabalho com meu poema, tendo como fundo uma obra de Paul Klee.)


sábado, 27 de novembro de 2010

CHOVE


Mycena interrupta
Foto encontrada no blog de Taíla www.http://taibioimagens.blogspot.com
Fonte: eol.com.br


CHOVE

a memória como um tronco
e o amor brota-me olhos
de cogumelos azuis

Fernando Campanella

(Nunca esquecerei que à entrada daquela mata, sob a chuva, tinha um tronco e que nele brotou o encanto de cogumelos azuis.)
Fernando Campanella

No vídeo abaixo, minha grande amiga Marialba Matos de Castro, professora de flauta doce e teoria de música em nosso conservatório, e em em faculdade de São Paulo, criadora do grupo de música antiga 'Le Bizarre', canta 'Besame' de Flávio Venturini.

sábado, 20 de novembro de 2010

E ME ALIVIA....


Foto por Fernando Campanella

Eu me alegro
à terra firme
sob meus sapatos
surrados

refaço as pedras
retomo as insanidades
do meio dia

- irrelevantes agora
a velha praga da horta
e os ratos
da minha cozinha -

acaricio as ranhuras
da minha porta

ajoelho, beijo o solo
da alma reencontrada.

(No eco das sombras
já não havia ternura
e podaram-se os jardins
das palavras)

Até que à fria gosma dos musgos
eu me confunda
e a surda ausência me destitua,
amor, me toma, e me alivia.

Fernando Campanella, 2006


domingo, 14 de novembro de 2010

COMO NOS CÉUS



assim na terra
abro as comportas da criação
(e que o espírito da arte me proteja)

Fernando Campanella


Fotos por Fernando Campanella

"Para os gondes, do estado de Madhya Pradesh, na Índia central, a arte é uma forma de prece, eles acreditam que a fortuna cabe àqueles que conseguem uma boa imagem."
Para mim, ela é a forma que encontro de abordar, de intuir a Deus.

(Fernando Campanella)

Fonte: Resenha do livro, A vida secreta das árvores, da editora Martins Fontes.

(Meus agradecimentos a Djabal (http://djabalmaat.blogspot.com/) que me enviou a informação sobre os gondes, e a José Carlos Brandão (http://poesiacronica.blogspot.com/) que fez uma homenagem a mim em seu blog com seu poema sobre a árvore da vida.)

domingo, 7 de novembro de 2010

QUANDO ME FALTAM AS PALAVRAS...




"As palavras correm de mim algumas vezes...
Aí me refugio nas imagens!!"
(Pinacoteca Nacional, São Paulo, enviado por minha amiga Ruby)


Fotos por Fernando Campanella
A casa nas fotos acima não é uma casinha de palha, parece abandonada ao pé de alguma serra de Minas, não tem baunilha nem manacás, mas em agosto/setembro fica toda juncada de flores de ipê amarelo. Nela, como em tantas outras, minha alma habita quando me faltam as palavras e a memória me fala.
Minha homenagem ao grande seresteiro e poeta do Norte de Minas, Godofredo Guedes, pai de Beto Guedes, com sua 'Casinha de Palha', no vídeo abaixo:

domingo, 31 de outubro de 2010

A ÁRVORE DA VIDA


Foto por Fernando Campanella

...Eu insisto em um Deus
que se projeta em tronco
e esparrama os braços
para acolher os seus.

(Fernando Campanella, trecho do poema de dezembro de "Efemérides")

...aqui está mais profundo segredo a todos velado
(aqui está a raiz da raiz e o botão do botão
e as alturas das alturas de uma árvore chamada vida; que cresce
para além do que a alma pode esperar ou o pensamento esconder)
e é esta a maravilha que mantém as estrelas separadas

Trago o teu coração (guardo-o dentro do meu coração)

(Trecho de um poema de e.e.cummings, tradução de Manuel Anastácio, gentilmente enviado por minha amiga Gerana Damulakis, do blog http://leitoracritica.blogspot.com/)

A árvore da vida é um mito, um tema recorrente em várias culturas e religiões, na literatura, na música, na pintura, etc. O trecho do belo poema de e.e.cummings, acima, é um exemplo de tal recorrência, assim como a música 'The tree of life', da trilha sonora do filme 'The Fountain", no vídeo abaixo.


segunda-feira, 25 de outubro de 2010

ALGO NAS FLORES


Foto por Fernando Campanella

há algo de óbvio nas flores -
eu o admito, mas reincido -
a beleza requer exercício

Fernando Campanella

domingo, 17 de outubro de 2010

BARCA DO NORTE


Sulcos
Foto arte por Fernando Campanella

meus versos em uma garrafa
ou em uma barca vazia -
meu remador é o vento
e alguma ilha a utopia

Fernando Campanella

"...A ficção (a arte) não é a vida, senão uma réplica da vida, que a fantasia dos seres humanos tem construído, dando-lhe algo que a vida não tem: um complemento ou dimensão que é precisamente o 'fictício' da ficção, o propriamente 'novelesco' de uma novela, aquilo de que a vida real carece e que desejamos que tivesse..."
(Mario Vargas Llosa, El Viaje a la Fición, parênteses com adendos meus)

"Escreve-se (cria-se arte) para preencer vazios, para fazer separações contra (e ao mesmo tempo reintegrar) a realidade, contra as circunstâncias."

(Mario Vargas Llosa, parênteses com adendos meus)

Vídeo: 'Rema na Canoa', cantiga das destaladeiras de fumo de Arapiraca, Alagoas.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

...É TAMBÉM O SAPO



Vídeo feito por Diana Liz Duque Sandoval, da Estação Experimental Caparo, Venezuela

o luar sobre a lagoa

cada amor em meu lugar

e já não há metáforas:

o belo para mim

é também o sapo.

(Fernando Campanella)

Obs. Os versos acima já foram aqui postados alguns meses atrás. Porém hoje encontrei um vídeo por Diana Lis Duque Sandoval no site de fotografias FLICKR e me veio a ideia de uma repostagem do poema, visto que finalmente encontrei sua perfeita ilustração.

Meus parabéns e minha admiração à Diana pelo belo trabalho. Vejam sua página no Flickr, onde se apresenta como Lizduquesa:

http://www.flickr.com/photos/diana_duque/

domingo, 10 de outubro de 2010

O PÁSSARO AZUL (A CHARLES BUKOWSKI)


(Charles Bukowski)

o pássaro azul -
que saibam as putas,
os estafetas,
os solitários do bar -
o pássaro azul não vai foder
com meu emprego
ou me enlouquecer

nem a venda de meus livros
(que não editei) irá na Europa
arruinar

porque o soltei, não se fez abutre,
ave do terror
ou qualquer esfinge alada,
odiosa e indecifrável,
que desde a idade do homem
vive para me atormentar


o pássaro azul
quis apenas território próprio,
voo alçado
entre meu encantamento
e sina,
a solidão de poder tantas vezes
torcer o nariz ao mundo -


a prerrogativa,
me entenda, Bukowski,
de enternecer, de chorar.

Fernando Campanella


Poema Blue Bird, Pássaro Azul, de Charles Bukowski:

há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado duro para ele,
e digo, fica aí dentro,
não vou deixar ninguém ver-te.
há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu despejo whisky para cima dele
e inalo fumo de cigarros
e as putas e os empregados do bar
e os funcionários da mercearia
nunca saberão que ele se encontra
lá dentro.
há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado duro para ele,
e digo, fica escondido,
queres arruinar-me?
queres foder-me o
meu trabalho?
queres arruinar
as minhas vendas de livros
na Europa?
há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado esperto,
só o deixo sair à noite
por vezes
quando todos estão a dormir.
digo-lhe, eu sei que estás aí,
por isso
não estejas triste.
depois ,
coloco-o de volta,
mas ele canta um pouco lá dentro,
não o deixei morre de todo
e dormimos juntos
assim
com o nosso
pacto secreto
e é bom o suficiente
para fazer um homem chorar,
mas eu não choro,
e tu?
(Charles Bukowski)

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

CARTAS AO EU (FRAGMENTOS)



... a beleza são esses achados, um certo conci-

liar entre o sentido que enxerga e as inesgo-

táveis manifestações da alteridade...



Fotos by Fernando Campanella



AO EU POETA OBSCURO

Meu caro eu, meu poeta obscuro, se as portas se fecham, acalma o coração que o Todo deseja. Deixa supurar o mar da fúria. Eu sou essa fúria espalmada, aquele caracol que de teu limbo escapa. Um ângulo da alma, um certo abismo que te chama. Mas não te deixes sorver por essa força que te toma. Aceita, escreve... E lembra-te: lesmas, abelhas, abismos não são propriamente aos quinze minutos de fama destinados.

Se a poesia te chama, empenha-te em colocá-la para fora com as ferramentas que te servem. E aos ouvidos que te pedem, fala...

Entra em bons termos com a mágoa. E que tua alma acolha mais e mais a dor dos elefantes...

Achega-te a mim, a tua secreta verdade...

Sente como é bom pernoitar no coração dos amigos que te acolhem, te apalpam. São eles teus termômetros, tuas asas.

Vai ao teu jardim, ama tuas flores, observa aquela luz que as ilumina e se transfigura em tua alma. A beleza são esses achados, um certo conciliar entre o sentido que enxerga e as inesgotáveis manifestações da alteridade. É o paradoxo encantado, ilusão que nos diz que não existimos sem o mundo, e este não vive sem nossos olhos. Expressa essa beleza que é essência, que ao espírito remete.

No mais, os dias passam, o sol diminui no ocaso seu passo. E tudo volta, com o novo dia, ao seu antigo hábito.

Ah, escreve para os elefantes. Dizem que eles não esquecem. Assim tua alma inteira irá se aquientando em tua casa...

Fernando Campanella




Tradução do trecho de Demian, de Hermann Hesse, apresentado em italiano no vídeo acima:

"... E me contou uma estória de um adolescente que estava enamorado de uma estrela.
Junto ao mar, estendia os braços para ela, adorava-a, sonhava com ela e lhe dedicava todos os seus pensamentos. Mas sabia, ou pensava saber, que um homem não pode alcançar uma estrela. Imaginava que seu destino era amá-la sempre sem esperanças e construiu sobre essa ideia toda uma vida de renúncia e de dores, muda e fiel, que devia purificá-lo e enobrecê-lo. Uma noite estava de novo sentado junto ao mar, no alto de uma escarpa, contemplando a amada, ardendo de amor por ela. E num instante de profundo anseio, saltou no vazio para alcançar a estrela. Mas ainda não pensou na possibilidade de alcançá-la e caiu, arrebantando-se contra as rochas. Não sabia amar. Se no momento de saltar tivesse força de alma bastante para crer fixa e seguramente na obtenção de seu desejo, teria voado para o ceu para encontrar sua estrela.

(Demian, Hermann Hesse)

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

EM MINIATURA (IN MINIATURE)


Foto by Fernando Campanella

Gosto de pensar na fotografia como a perfeita arte da miniatura, onde comprimimos o mundo, e o universo, por extensão, para que caibam dentro de nossos sonhos.

Fernando Campanella


Foto by Fernando Campanella

(I like to think of photography as the perfect art of miniature, where we compress the world, and the universe, by extension, so that they fit into our dreams.)

Fernando Campanella


terça-feira, 21 de setembro de 2010

CONTRAFORTES


Foto por Fernando Campanella

neste abismo da beleza
suspenso
se não na terra
em qual dos sete céus
me encontro?

Fernando Campanella


FOOTHILLS

at this beauty abyss
suspended
if not on Earth, in which
of the seven heavens
would I find myself?

Fernando Campanella

Vídeo: trecho de Appalachian Spring por Aaron Copland

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

CIRCUNSPECTO


Foto por Fernando Campanella

...em algum lugar de um tempo
que só me sabe a memória...
(Fernando Campanella)


Candeeiro à beira da estrada
paisagens de neblinas e comas -
cheiram mimos de melissa
dormem casas sombreadas
pupilas noturnas voam.

Coração circunspecto de Minas,
bate em noite, bate em dia,
abre uma artéria em mim.

Sr. Romildo, do alto de S.Domingos.
Foto (concedida) por Fernando Campanella

(Coração circunspecto de Minas,
bate em noite, bate em dia,
abre uma artéria em mim.)

Vídeo: Beto Guedes cantando 'Noite sem luar', canção de seu pai, Godofredo Guedes.



terça-feira, 7 de setembro de 2010

E SÓ ME LEMBRA (DEAD MAN'S BLUES)


Automat, 1927, tela por Edward Hopper


A minha musa fechou o tempo -
eu canto um blues e não me invento
eu miro o lago e só me lembra
a funda ausência -

sem meus fantasmas
não finco pés
não me sustento.

( Poema da série 'O Eu Confesso',
Fernando Campanella)


Ao buscar uma ilustração para esta postagem, deparei-me com o blog de Andréa, 'Por um triz', onde vi este texto, assinado por ela, que, acredito, de alguma forma enquadra-se no poema acima:

"Para os antigos gregos, Mnemósyne era a deusa da memória, a mãe das nove musas que inspiraram os artistas. Seu simbolismo define que a memória precisa ser criada pelas artes. Numa civilização oral, como foi a grega, nada mais compreensível que a divinização da memória.

A memória é a mãe das artes, por meio delas é que mantém sua existência. Por isso ela presidia a poesia, permitindo ao poeta saber e dizer o que os "outros" não sabiam.

Que a memória seja mãe das musas significa que a lembrança é a mãe da criatividade. Na filosofia dinstinguiam-se dois modos de rememoração: Mneme, arquivo disponível que se pode acessar a qualquer momento e Anamnese, memória que está guardada em cada um e pode ser recuperada com certo esforço. A primeira envolve um registro consciente, enquanto a segunda manifesta o que há de inconsciente. A memória era a deusa que permitia a conexão com os mortos, com o que passou, inclusive com o que poderia ter sido, com o que, para sempre, não mais nos pertence... "


Vídeo: Nina Simone, I put a spell on you.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

SUAVE É A NOITE


Foto por Fernando Campanella


(...Suave é a noite
logo a rainha-lua sobe ao trono e luz
com a legião de suas fadas estelares...)
Keats


As estrelas espiam de longe
e o caracol ao ciciar da brisa
arrasta seus passos.
Meu amor dorme - suave é a noite
em seu silêncio de longos braços.

Fernando Campanella


sábado, 28 de agosto de 2010

YELLOW MOON (LUA AMARELA)


.
..Night is but a wondrous, sounding chance...

(...A noite é apenas uma assombrosa e sonora
chance...)


Fotos por Fernando Campanella


YELLOW MOON


Don't mourn over past lovers, yellow moon,
for you have preserved your charms
and enticed mortals to your feet
since generations of old.
Don't cry, though we're lone wanderers
and you last so much longer than I.
Night is but a wondrous, sounding
chance - take my hand, thus,
leave your seat - shall we dance?

Fernando Campanella


LUA AMARELA


Não lamentes idos amores, lua amarela,
pois ainda preservas teus encantos
envolvendo mortais com tua trança
desde gerações imemoriais.
Não chores, embora solitários errantes
sejamos, e sobrevivas tão mais a mim.
A noite é apenas uma assombrosa
e sonora chance - dá-me tua mão, assim,
sai de teu canto - e que comigo dances.



Fernando Campanella



Recebi o youtube abaixo de meu amigo Jairo de Brito. Trata-se de gravação, por Ravi Shankar e família, de uma música de George Harrison 'I am missing you'. O ex-beatle a compôs em homenagem a Krishna, divindade hindu.
Os versos iniciais da canção dizem: ' Sinto falta de ti, Oh, Krishna, onde estás?'
Conta-se que Srila Prabhupada, um mestre espiritual da India, ao ouvir essa bela canção teria dito que se George continuasse a compor música assim ele avançaria rapidamente na vida espiritual.



Um trecho do Bhagavad Gita:



"...Krishna havia se retirado para a floresta e estava em meditação embaixo de uma árvore, quando um caçador, na penumbra da floresta, o confunde com um antílope e o fere na planta do pé. Mesmo ferido de morte, aceita-a com grande serenidade."



"Inevitável é a morte para os que nascem; todo morrer é um nascer - pelo que não deves entristecer-te por causa do inevitável."



(Krishna)



Fontes de pesquisa:
1) ISKCON NEWS
2) WIKIPÉDIA



sexta-feira, 20 de agosto de 2010

REVISITANDO (INTERLÚNIO)


Foto por Fernando Campanella


...de onde esta concha
que verbaliza os pássaros?

este azul
que esfuma os montes
e inventa um céu

meu poder de ficção

meu sonho
que paira tão alto
e para sempre me escapa...

Fernando Campanella (Trecho do poema Interlúnio)

Galen Smith, que canta e toca 'Scarborough fair ' no vídeo feito para um projeto escolar, abaixo, nos diz que essa canção, popularizada por Simon and Garfunkel no final de década de sessenta, é na realidade uma balada tradicional folclórica inglesa. Sua criação remonta pelo menos a duzentos anos.
Os versos, segundo algumas pesquisas, eram para ser cantados em dueto, alternadamente, onde um amante imporia ao outro tarefas impossíveis de serem cumpridas. Pela realização das mesmas, provariam que verdadeiramente amavam, merecendo do mesmo tanto ser amados.
Uma outra interpretação da letra da música aponta para a desilusão de alguém que pelo amor traído impõe tarefas absurdas à pessoa amada para que esta reconquiste sua confiança.
Qualquer que tenha sido a motivação inicial, o tema dessa melancólica, e ao mesmo tempo bem-humorada canção, parece ser a dúvida acerca da existência de um verdadeiro e eterno amor. Mais a sensibilidade, a dor de um sentimento desacreditado, e a quase impossibilidade de recuperação. No final da letra, após a enumeração das difíceis tarefas, temos estes belos versos:

"... o amor impõe impossíveis tarefas
mas não mais que qualquer coração peça..."

Deixo aqui a tradução de uma estrofe onde podemos sentir o grau de dificuldade, a impossibilidade, mesmo, do cumprimento da exigência imposta:

"...Vocé está indo para a feira de Scarborough?
Salsa, sálvia, rosmaninho e tomilho...
Diga a ela para fazer-me uma camisa de cambraia...
Sem costura nem o bom trabalho de uma agulha
Então ela será o verdadeiro amor de minha vida..."

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

À CURVA DE DEUS


Foto por Fernando Campanella

...escrevo por linhas tortas
(Deus me ensina)...
Fernando Campanella

Perco o mundo
ganho a palavra.
O que me fica
senão como as viúvas
escandir meus mortos
- à curva de Deus
orar a poesia?

Fernando Campanella


quinta-feira, 12 de agosto de 2010

ADÉLIA PRADO, UM ANTIGO POEMA E UMA CARTA


Foto do blog:
http://um.buraco.na.sombra.netsigma.pt


No Caderno 2 do jornal O Estado de São Paulo de domingo passado, uma matéria, por Ubiratan Brasil, sobre o lançamento de 'A Duração do Dia, novo livro de poesia de Adélia Prado após um jejum de onze anos. E uma entrevista concedida ao jornal pela poeta por e-mail, de Divinópolis, MG, onde cuida de sua delicada saúde.

Da entrevista, destaco algumas considerações da escritora sobre o seu processo poético:

"A poesia, a 'beleza', é epifânica sempre. É uma aparição oracular pedindo corpo por via da palavra. Não a invento, eu a recolho. Como? Ainda não se descobriu o maravilhoso caminho da criação de um poema, estranho ao próprio autor. Ao fim, a arte é maior que o artista. Sem esta convicção (e se equivoca bastante) não deve vir a público. A beleza exige obediência restrita."

"...cada um de nós tem a terra e o céu para lhe inspirar."

"(a poesia) é energia porque é viva, pulsa, tem sangue e alma divina."

E a reportagem nos traz em primeira mão este maravilhoso poema, do novo livro de Adélia:

ALVARÁ DE DEMOLIÇÃO

O que precisa nascer
aparece no sonho
buscando frinchas no teto,
réstias de luz e ar.
Sei muito bem
do que este sonho fala
e a quem pode me dar
peço coragem.

(Adélia Prado, A Duração do Dia, editora Record)

Transcrevo aqui, com muita alegria, uma pequena grande carta que Adélia me enviou em 1989, respondendo a uns poucos poemas que lhe enviei para apreciação através de um aluno meu, de Divinópolis, que a conhecia:

Antônio Fernando,
tive imensa alegria ao ler os seus textos, pois são de um poeta! Não se dá conselhos a poetas. Escreva, escreva, escreva, para sua e nossa alegria.

Por que não manda seus originais para este editor?: ............................

Pentecostes está chegando. Feliz incêndio pra você! Que a poesia te inunde. Como fiquei feliz!

O abraço da Adélia Prado.

Divinópolis, 26 de abril de 1989.

PS - Não se esqueça de mim quando fizer seu primeiro livro. Não fique ansioso. Deus quando dá o dom, dá os meios. Aguarde.

Muitos anos depois, fiz um blog, e enviei o 'link' para Adélia, pois o considero como um livro que realizo. Infelizmente ela não pôde acessá-lo devido a problemas de saúde, segundo me informou seu marido. Mas ficam aqui meu agradecimento e meu carinho por essa poeta que em algum tempo de sua vida teve a delicadeza de responder, em uma carta escrita à mão, aos meus poemas incipientes, e de me incentivar.

Eu enviara a ela cinco poemas, dos primeiros que escrevi. Escolhi um deles, que aqui transcrevo:

CAIXAS DE MÚSICA

Feito experimentar a dor
de uma fome
que nada satisfaz
ou consegue saciar
é perceber sonoridades
de caixas
onde pequenos dançarinos
se esmeram
em esfuziante acrobacia.
Cortem-lhes o instante das cordas
- plunct -
e são silêncios opacos,
são fundos e frios.

A nós, o dom
e a maldição de sonhar.

(Fernando Campanella, 1983)





terça-feira, 10 de agosto de 2010

QUE DIFERENÇA FAZ ÀS FLORES....


Foto por Fernando Campanella

Que diferença faz às flores
se por um segundo as contemplo?
Nem sei se algo no mundo
precisa de meu olhar assim atento.
Se me procuras, em teu espelho
por um tempo me reflito.
Depois ao cálice de mim retrocedo.
Eu sou o velho vinho que me bebo
de minha embriaguês me contento.

Fernando Campanella, O Eu Confesso, XXX.

sábado, 7 de agosto de 2010

CADA AMOR


Foto por Fernando Campanella

O luar sobre a lagoa
cada amor em meu lugar
e já não ha metáforas - o belo
para mim é também o sapo.

Fernando Campanella

BELO, BELEZA

Perguntai a um sapo o que é a beleza, o supremo belo, o to kalon. Responder-vos-á ser a sapa com dois olhos exagerados e redondos encaixados na cabeça minúscula, a boca larga e chata, o ventre amarelo, o dorso pardo...

(Voltaire, Dicionário Filósofico)



segunda-feira, 2 de agosto de 2010

NEM BEM ENTRA AGOSTO....



Agosto não é bem rima



nem bem desgosto



é quase um quê de mim



em ipês amarelos e roxos

Fernando Campanella (Efemérides, Agosto)

(Fotos por Fernando Campanella)



quinta-feira, 29 de julho de 2010

ANTES QUE JULHO ACABE


Paina no solo....


Fazenda, com as paineiras ao fundo...



Fluida é a paina que envolve meus sonhos...


Paineiras e painas, fotos por Fernando Campanella

Antes que julho acabe, e as paineiras se esgotem, fica aqui um registro da bela árvore em fotos tiradas no domingo passado.
Julho é essa paineira que se esvai, porém as sementes se espalham, gerando outras árvores, dando seguimento ao capricho vital da natureza.
E em dezembro/janeiro as mesmas árvores, agora secas, estarão novamente carregadas de flores. O que se sente como despedida, ou morte, fica sendo apenas ensaio para renovação.
(Gosto de sentir que as partes não se perdem, que o Todo se mantém - eternidade retomada em ciclos.)

Fernando Campanella

O vídeo abaixo é um belo trabalho realizado por minha amiga Leila Laderzi em outubro de 2008 com fotos que eu tirava de minha região à época. Espero que apreciem.


domingo, 25 de julho de 2010

A CAPPELLA


Foto por Fernando Campanella

Minas de minhas almas,
eu te imagino em nome da mãe
e te embalo a capela
para que em mim sonhes

e já não me pesas
e já não me dóis

Fernando Campanella, 2010




terça-feira, 20 de julho de 2010

UM MUNDO, ENFIM...


Foto por Fernando Campanella

Se nascemos para o amor
para a celebração não oficial
da vida
não deixe, Deus, que eu me afogue
nas emboscadas de meus dissídios.
Venha a mim a energia das criaturas

simples e primitivas -
a centelha exata que relumbra
e inebria os pântanos e os párias -
um mundo, enfim,
sem ilhas nem mágoas.


Fernando Campanella, 1998




Clássico é clássico, ultrapassa toda pompa e circnustância. E tão bem nos diz isso o poeta metafísico inglês, John Donne (1572-1631), com sua meditação XVII. A mesma, em associação com a foto acima, me inspiraram hoje a palavra "ilha" inserida no poema "Um mundo, enfim", escrito em 1998.

Eis um excerto dessa belíssima meditação:


"...Nenhum homem é uma ilha, completa em si mesma; todo homem é um pedaço do continente, uma parte da terra firme. Se um torrão de terra for levado pelo mar, a Europa fica menor, como se tivesse perdido um promontório, ou perdido o solar de um teu amigo, ou o teu próprio. A morte de qualquer homem diminui a mim, porque na humanidade me encontro envolvido; por isso, nunca mandes indagar por quem os sinos dobram; eles dobram por ti."

(John Donne, excerto da Meditação 17, tradução de Paulo Vizioli)



O vídeo escolhido para esta postagem apresenta-nos a música de Orlando Gibbons (Silver Swan), contemporâneo de John Donne. Gibbons, inclusive, e mais John Dowland e William Corkine, colocaram em música o poema 'Break of day', de Donne.




domingo, 18 de julho de 2010

IMAGENS DO DIA


Inflorescência do capim-gordura
Foto por Fernando Campanella


Flores do Cipó-de-São João
Foto por Fernando Campanella

As flores do capim-gordura e do cipó-de-São João, acima, são as eleitas, as figurinhas carimbadas, do meu inverno aqui no sul de Minas.

Difícil explicar a razão de minha escolha, a não ser que florescem em junho/julho. Mas outras flores, como as do muchoco, da pata-de-vaca, etc. também desabrocham nesssa estação. A seleção então ficaria, talvez, por conta de um certo estado de espírito, um vago anseio, uma necessidade de expressão que devem ter me acometido em algum ponto de meus invernos mais remotos.

Hoje elas aqui estão, em imagens, frutos de minha tentativa de criar alguma arte.

E deixo alguns versos que fiz há algum tempo, tendo recorrido a essas flores como símbolos de uma Minas mais interiorizada, com seus sertões, suas estradas bifurcando-se na alma:

Bananeira- do- brejo
capim-gordura
cipó-de-São João -
em transparências de tédio
a aquarela na tarde
é meu exílio de Minas.

Fernando Campanella


Vídeo: Lô Borges cantando 'Sonho real':

sexta-feira, 16 de julho de 2010

MÍNIMOS


Foto por Fernando Campanella


um sopro
‘ninguém viu
de onde vem
ninguém sabe
aonde vai’

um vírus
quase
nada

um
ponto
na
enseada

um quantum
envieza o olhar

uma artéria
e Roma não tem bocas
e Inês é folha morta

um dedo de luz
na chuva oblíqua
um arco de cores
instala

um vôo desanda a rota

ninhos desovam

um triz
frio polar
oceanos que resvalam

torres se movem
pés desarvoram

espelhos que descamam
não consigo me achar

um mínimo
e já não me sou

de repente
algo me sonha

Fernando Campanella


Pássaro solitário

As condições de um pássaro solitário são cinco:
. Primeiro, que ele voe ao ponto mais alto;
. Segundo, que ele não anseie por companhia,

nem mesmo de sua própria espécie;
. Terceiro, que dirija seu bico para os céus;

. Quarto, que não tenha uma cor definida e
. Quinto, que tenha um canto muito suave.
(San Juan de La Cruz, Dichos de Luz y Amor.)


Vídeo: Loreena Mckennitt cantando 'The Dark Night of the Soul',
versos de São João da Cruz.