domingo, 11 de dezembro de 2011

A CAPELLA


Foto por Fernando Campanella

Minas de minhas almas,
eu te batizo em nome da mãe
e te embalo a capella
para que em mim sonhes -

e já não me pesas
e já não me dóis.
Fernando Campanella

O vídeo abaixo traz a música do compositor mineiro Lobo de Mesquita, nascido em Vila do Príncipe, atual Serro, no século XVIII. Sua "Salve Regina" ou "Antífona de Nossa Senhora" aqui apresentada é uma pequena amostra da grandiosa música sacra que se compôs em Minas na época colonial.

No vídeo, temos também belíssimas imagens de Diamantina, MG.
Meus parabéns ao criador deste Youtube (infelizmente não consegui ver seu nome) pelo excelente trabalho realizado.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

UM TEMPO PARA CADA COISA


Foto por Fernando Campanella

dezembro para os flamboyants
em flor

Fernando Campanella


quarta-feira, 30 de novembro de 2011

AMÁLGAMA


Foto por Fernando Campanella


esta tarde
evoca outras tardes
de eus pregressos
dispersos em viagem

tarde inconsútil, abstrata...

(o homem abraça o poeta
e a memória se espelha em linguagem)

Fernando Campanella

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

ARCO DE CORES


Foto por Fernando Campanella


Dobrei o labirinto
e lá ele estava,
assente, como um farol.
Não indaguei como
nem quis saber porquês.
Melhor que as belezas
aconteçam assim
- um engaste do tempo -
zênite em mim.

Fernando Campanella


domingo, 20 de novembro de 2011

LA CAMPANELLA


Foto por Fernando Campanella

Aquela senhora tem um piano
Que é agradável mas não é o correr dos rios
Nem o murmúrio que as árvores fazem...

(Alberto Caeiro)


Aquela senhora toca um piano na tarde,
as teclas ágeis ondulando em mimos,
em vibrantes sinos delicados.
Imersos cada qual em sua história,
de repente uma sintonia nos toma,
uma arte - um rio profundo sem corte,
um outro azul que nos sonha.


Fernando Campanella

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

EFEMÉRIDES (NOVEMBRO)


Guapuruvu, foto por Fernando Campanella

Novembro lava a alma
e as flores do Guapuruvu
respingam na tarde.
Logo a lua dá o ar da graça
e entre os galhos da árvore
amorosamente se enrosca.

Fernando Campanella

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

DEO GRATIAS* (BEM-AVENTURANÇA)


Foto por Fernando Campanella


Graças, por todo pão e mistério
pela palavra soerguida
pela poesia
pela vida sobre a vida.

Fernando Campanella


(Graças também pela bem-aventurança nas epifanias, pela oração das imagens também soerguidas pela poesia.)*

Marcantonio Costa

*Meus agradecimentos aos poetas amigos do Facebook Adriano Winter, que meu inspirou o título "Deo Gratias" , e Marcantonio Costa, cujo comentário transcrevi acima.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

SINA


Foto por Fernando Campanella


Sempre ouvi dizer que poetas
têm um solitário destino.
(A solidão ora enlouquece
ora floresce)
Não sei: ser poeta é minha sina
ou busco a poesia
que a solidão me atina.

Fernando Campanella, 1993.

sábado, 22 de outubro de 2011

HÃO DE LEMBRAR


Foto por Fernando Campanella

o mar me ultrapassa
mas ondas haverão de contar
aos ouvidos que lá pousarem
que um dia sonhei no mar

o céu não vai se importar
quando eu de meu hábito partir
mas estrelas enquanto restarem
hão de lembrar
que um dia me puseram feliz

a terra , é fato, há de me subtrair
mas a árvore que me deitou raiz
e os frutos que em meu tempo colhi
estes eu levo comigo
ninguém há de tirá-los de mim

Fernando Campanella



quarta-feira, 5 de outubro de 2011

METÁFORA


Foto por Fernando Campanella

Já não tento reter do dia
a luz que por exata concede
a chama alquímica dos amantes
a doçura de pétalas breves.
O tempo tem o galope das fúrias
ventos que jamais enternecem.
Melhor correr da memória o labirinto
drenar os aquíferos fundos
e aguardar: tudo vai escapando
o que restar será na noite
a forma intáctil, o espectro redivivo.

(Mais no mundo me tardo
mais no comando de sombras me esmero)

Deus conceda que me baste
este último apelo de náufrago: a metáfora,
pétala incorpórea com que me visto.

Fernando Campanella, 2006

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

NIGHTBOUND (UM POEMA E SUA TRADUÇÃO)


Foto por Fernando Campanella

NIGHTBOUND

I breathe the nights
I'm the restless longings
of past sheperds & ancient bards

(an elated zombie
eternally wandering - am I?)

the spell of whispering waves
the tranquility seas
the mystery capes

of the trees the secretive design

Orion's hunter and magi
the nocturnal, inebrianting wine

I'm the one who inhales and weeps
amber beads at night, some gods' wink
( Hush - But a dream? )

I'm the moon's transfigured light.

Fernando Campanella


NOTURNO

Respiro as noites
sou inquietas saudades
de antigos pastores
e bardos primordiais

(um extático zumbi
eternamente vagando
- seria eu mais?)

os cabos de mistério
os mares de tranquilidade
a magia de ondas enternecidas

o desenho incógnito das árvores

de Orion, o caçador e os magos
o vinho noturno, inebriado

o que gotas de âmbar, à noite,
sorve e lacrimeja

algum piscar dos deuses
(Silêncio - apenas sonho?)

sou da lua a luz transfigurada.)

Fernando Campanella

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

CONVERSA DE COMPADRES*

Foto por Fernando Campanella


Conta-se que lá pelas bandas dos Campos do Serapião, a umas boas léguas de Despropósito, vivia um homem batizado Sebastião, esconjurado Bastião Medonho, sovina até os ossos, mestre no ofício de contar migalhas para gerar maior lucro e evitar dissipação.

Seu sítio era o que mais prosperava nas redondezas. Seus cavalos, os mais possantes, seu gado, o mais gordo, seu milharal, o mais viçoso da região.

Possuía tal indivíduo uma azenha , ou moinho d'água, onde processava o milho que plantava. A ele recorriam os sitiantes do lugar, trazendo suas safras para a barganha em farinha ou fubá. E o Medonho sempre lucrava, o que os vizinhos levavam era três vezes menos o que traziam.

Às crianças, que com seus pais ao sítio do Bastião chegavam, sempre era dada a metade de um bolinho de chuva que a esposa fritara, ou , se na hora do almoço, uma lasquinha do capado que abatera...Tudo milimetricamente calculado.


Conta-se, enfim, que o Medonho, embora com ares de "tão bãum, tão bãumzinho", era péssimo pagador. E que amealhara uma pequena fortuna , a qual esquentava o único banco de Despropósito. Acertava suas dívidas apenas quando não havia mais escape e lhe pesava a ameaça de processos na comarca.

Ora, vivia também por lá um compadre seu, o Sr. Maneco Furtado, um homem de caráter reto, pródigo, "uma candura de pessoa" , diziam. Conheciam-se os dois, o Bastião e o Maneco, desde que nasceram, por conta de laços de compadrio das famílias, os quais remontavam a várias gerações.

Certa feita, o Maneco vendera umas cabeças de gado para o compadre Bastião, sem documento assinado, na base da mais pura confiança, da amizade que unia os dois desde tenra infância. E nunca recebeu o dinheiro da transação. Também nunca cobrou: o Bastião era "cumpadi, amigo "dos bãum", um mano quase de sangue". E se não pagava era porque devia estar em má fase, como o compadre Bastião sempre lhe reclamava, chorando as pitangas, prometedendo saldar a dívida assim que "as coisa miorasse".

Após a tal compra do gado, o Bastião ficou tempos sem ver o compadre, não dando mais as caras em seu sítio.

Maneco não era mesmo um homem deste mundo. Mas de tolo nada tinha. Sabia que o sítio do compadre prosperava, mas fazia vista grossa ao fato. Colocava os valores de sentimento e de dignidade acima de todas as coisas, embora acusado de ingênuo pela esposa e familiares.

Até que num dia, fadado a acontecer, Bastião viu o Maneco em Despropósito, num armarinho, numa dessas antigas lojinhas que vendiam de tudo, de guarda-chuva a botão. Tentou disfarçar, até mesmo escapar do encontro, um mal-estar lhe gelando as veias como se houvesse enxergado um fantasma, familiar, mas um fantasma. Todavia, o bom Maneco, em sua aura de cordialidade , veio ao seu encontro, com a discreta elegância que lhe era característica, o chapéu bem limpinho, os óculos, a calça deixando entrever as botas sem meia, o embornal de compras a tiracolo.

-Salvi, cumpadi Bastião, como tem passado a famia? E ocê, irmãu, já tá melhorzinho lá no sítio? Miorô as coisa por lá?

-Vigi, cumpadi, a situação tá ruim mais tá ruim. Tô penano dimais. Muita chuva, perdi o mio tudinho, Deus tenha dó....

E Bastião continuou a ladainha, tentando causar pena no Maneco, evitando a todo custo tocar na ferida da dívida feita com o compadre. A esta, porém, o Maneco nem referência fez, apenas relembrou os tempos da infância que tiveram, quando nadavam nas enchentes do Lava- Cavalo', os bons momentos que haviam vivido em comum.

Após algum tempo, despediu-se o Maneco, exatamente como surgira, em leveza de espírito, em um quase sopro de candura, luz calma que de repente alumia, e esvaece.


-Bom sujeito esse Manequinho, meu cumpadi, disse então o Bastião ao dono da loja, o Toninho da Zefa. E arrematou, rindo meio a contragosto: Pareci até um espiritu de tão levinho...

-O senhor tá bem? - perguntou-lhe o Toninho. Tava falando sozinho... Tá passando bem?

-Tava proseanu aqui com meu cumpadi Manequinho, irmãu dus bãum...


- Ele morreu esta madrugada. O corpo tá na igreja, o enterro tá marcado pras quatro da tarde.

Corre a lenda que Bastião, após confirmar o falecimento do compadre pelo anúncio da igreja, arrepiou-se dos fios do cabelo às unhas dos pés, e que disparou da cidade como se tivesse visto o Coisa-Ruim, a Besta-de-Barba-de -Bode.

Seu sítio foi vendido, a família dali se mudou. E do safado nunca mais se ouviu falar. Se continuou medonho, não se sabe. Se morreu, ninguém sentiu.

Fernando Campanella, Março de 2009.

* O personagens do conto não têm relação nenhuma com a foto postada, a qual é mera ilustração.


terça-feira, 6 de setembro de 2011

MINAS E NOMES (SERIA MINAS?) *


Foto por Fernando Campanella

Seria Minas
mais dorsal em mantiqueira
mais sertão em buritis
mais 'hermosa' em mar de espanha
mais sem mar em paraty

mais devota em capelinha
mais devassa em babilônia
mais barroca em marianas
mas sofrida em mucuri

mais ioruba em ouro preto
mais latina em oratórios
mais tupi em aiuruoca

mais sincrética
em nossas senhoras de sabarabuçu

ou mais bahia em são francisco
mais mineira em turmalina

mais infância em maravilha
em amanhece

em amor-perfeito
que Minas não é

Fernando Campanella



* O poema acima é uma brincadeira (?) poética com nomes sugestivos, de municípios mineiros (Maravilha, Amanhece, Mar de Espanha, Turmalina, etc. , e de outros elementos característicos do estado. Deixei, propositadamente, os substantivos próprios com letras minúsculas.


domingo, 28 de agosto de 2011

IMPRESSÕES (DOIS POEMAS NO TEMPO)


Foto por Fernando Campanella

I

Setenta vezes sete vezes
o céu mudou de tom
nas impermanências do dia.

Mas e então?

Melhor, para além da retina,
ser a cor.

Talvez assim alguma diferença faça
que num ponto A do universo
uma supernova exploda
na mais gritante, inconsequente
alquimia.

Fernando Campanella, 1989

II

...bebo a luz, traço a alma,
eu sou o impressionista itinerante

então nem me perguntes
por quais geografias me espalho

meus olhos são câmeras mimadas,
meus pincéis, artífices do instante.

( Fernando Campanella, trecho do poema 'Impressionista', 2007)




domingo, 21 de agosto de 2011

E MINHAS ÁGUAS ORDENARÃO SEU CURSO


Foto por Gaëtan Bourque, do Flickr.

Deixa-me beber do liberado vinho
entoar meu íntimo canto
que a opressão dentro de mim dói
e quero a plenitude dos campos
dos gansos de arribação

que me fique o espaço para ouvir o vento
e o silêncio que o vento assopra
nos interstícios das águas

- não quero asas desjuntas-
deixa-me o corpo em vida, e a fantasia ,
para que das vias torpes não desfolhe eu
apenas as pétalas frias

deixa-me ser o que somos , amplamente,
na multidão dissonante dos eus

deixa-me assim até que te perceba
e apaziguado te toque

e minhas águas ordenarão seu curso
e minhas ilhas já não serão sem braços.

(Fernando Campanella, 1988)

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

JOSHUA TREE (ÁRVORE DE JOSUÉ)


The Joshua tree, foto da Wikepedia

sol cáustico na veia
areia na epiderme


a palavra na pele, meu cactus

Fernando Campanella

The Joshua tree, foto da Wikepedia

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

JOÃO, MARIA (E O VIVER)


Imagem do blog 'Atividades Educativas'
http://atividadeescolar.blogspot.com/

...Não arranque as asas dele,
João Jiló, porque dói e dói...

(Trecho da composição 'João Jiló', por Maurício Tizumba)

Te disseram que Maria era bela?
Afunda nela, afunda nela.

Te ensinaram que a vida era dom?
Desaprende, desaprende:
nada de graça a graça da vida te rende.

Que dó:
viver dói, dói, João Jiló.

Fernando Campanella

domingo, 31 de julho de 2011

OS IPÊS DA ALVARENGA PEIXOTO



Agosto chegando, retorno àquele terreno baldio da rua Alvarenga Peixoto na expectativa de que seus ipês amarelos já tenham florido.

São duas árvores muito altas, ipês de mata atlântica, plantados há mais de cinquenta anos, que entre julho e agosto explodem em florescências. E trazem vida não apenas àquela rua, como também a outras, paralelas, as quais igualmente trazem nomes de vultos da Inconfidência Mineira, como Tomás Antonio Gonzaga e Cláudio Manuel da Costa.

Já há três anos bato meu ponto fotográfico naquele local nesta época. Tomado pela exuberância daquele espetáculo visual, esbanjei cliques, sempre em busca do melhor ângulo, da melhor composição para minhas imagens.

Hoje, porém, as árvores não se encontram mais lá. Estão construindo um condomínio no terreno. Um morador da rua me informou que serão erguidos três blocos de apartamentos no local. O IBAMA perdeu a batalha para os empreendedores da especulação imobiliária.

Tristeza, mais que decepção, foi o que senti. Acredito que os moradores do bairro tenham experimentado o mesmo sentimento, pois quando eu lá fotografava, em outros anos, sempre vinha alguém para comentar sobre a beleza daquelas flores. Talvez não saibamos, como diz Drummond no poema 'A rua diferente', que 'a vida tem dessas exigências brutas'.

Há muito o que se dizer sobre o corte desses ipês, e de outras espécies, um fato não isolado. As cidades crescendo (inchando) e a convivência cada vez mais difícil da natureza com espaços urbanos no Brasil, por exemplo. Mas fico com minha visão pessoal, pois sinto que a rua, o bairro e a cidade, por extensão, ficaram mais pobres, mais chulos, sem aquelas árvores.

E pondero, talvez ingênuo, que, ao invés de três blocos de apartamentos, poderiam construir apenas dois, preservando-se assim aqueles monumentos naturais, o que valorizaria o ambiente , entre os meses de julho e agosto principalmente. E o condomínio seria sempre visitado pelos pássaros.

Mas vá lá, muita gente não se sente assim tão confortável 'in natura': árvores sujam e pássaros perturbam. E faz parte de nossa cultura sermos alheios aos poderes administrativos, não termos consciência, nem voz, para lutar por uma urbanização mais equilibrada.

As ruas daquele bairro, ironicamente, têm nomes de poetas árcades, pastorais, amantes da natureza, sobre os quais muitos de seus moradores talvez jamais tenham ouvido falar. Mas os ipês, esses todos conheciam e admiravam. Alegravam olhos e almas dos transeuntes com a prodigalidade de suas flores, razão insofismável para lá permanecerem.

De qualquer maneira, as fotos que tirei podem servir como um réquiem ou um registro fiel dos últimos anos de vida daquelas belíssimas árvores.

Diante do fato ocorrido, só me resta expressar dois desejos: que possamos ainda recuperar parte de nossa identidade natural, tão abalada pela inconsciência e excessos de nossa civilização, e que não deem, em hipótese alguma, àqueles blocos de apartamentos, quando erguidos, o nome de 'Condomínio dos Ipês'.

Fernando Campanella


Ipês da rua Alvarenga Peixoto, por Fernando Campanella
Fotos tiradas em Agosto de 2008.

Abaixo, um belo vídeo realizado por minha amiga do Facebook, Angela Lago, escritora e ilustradora, com a música de Giuseppe Tartini.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

UNIVERSO


Campo de mostarda
Foto por Fernando Campanella


o belo sopra e germina os grãos
(Jorge Bichuetti)

um sopro, quase nada

a mínima luz
num grão de mostarda


Fernando Campanella

domingo, 10 de julho de 2011

CURT0S


Foto por Fernando Campanella

"Há uma só lei da Existência
sob a esfera luminosa:
partilham da mesma essência
homem, estrela, ave e rosa."
(Augusto de Lima, Poesias, p.55)

I

MAIS TARDE, AINDA É MADRUGADA

Os pássaros mais espertos
voltaram aos ninhos
após verem a geada.

II

NEURÔNIOS

A vaidade me cansa
sou velho o bastante
para me tornar criança.

III

MANTIQUEIRA

Luar sobre a noite vasta -
que bicho me coça ? -
contemplação não me basta.

IV

ALDEIA, RAPARIGAS, TRIGAIS...

O rio que passa por entre as palavras
é quando, sempre, e nunca mais.

(Fernando Campanella)







segunda-feira, 4 de julho de 2011

ÂNIMA


Drifting clouds, tela de Caspar David Friedrich
Wikipédia

"Fecha teu olho corpóreo para que possas antes ver tua pintura com o olho do espírito. Então traz para a luz do dia o que viste na escuridão, para que a obra possa repercutir nos outros de fora para dentro."

(Caspar David Friedrich)


Não vês
que ordeno os ventos,
que tenho a senha dos tempos
- e que os gansos de longe
já em teu verão se adentram?

Então,
de teu cinza-morte,
tua paisagem agora
é toda canto
e procriação

Fernando Campanella

quinta-feira, 30 de junho de 2011

DA POESIA, SÚMULAS


Foto do blog 'Pro Parnaíba sua revista eletrônica

No que se refere à autencidade da poesia, seria difícil tentar uma súmula do que se tem entendido, através dos tempos, por poesia genuína. (Péricles Eugênio da Silva Ramos, O Amador de Poemas, p.24)


I


Tão real em sua idealidade,

não é de facto, nem de prosa.


II


Vem de longes, sem anúncio ou alarde -

de quando era a cor da pele a palavra.


III


Abro-lhe a janela, que se hospede

mas que arrume novamente o quarto.


IV


Bate-me com os pés seu ritmo,

faz-me dançar qual índio, imberbe.


V


Vive a me lembrar seus cânones,

intemporal, nem se importa

com que os ventos mudem

e que com eles girem as palavras.


VI


Fica o tempo que determina,

que lhe agrada.


VII


Quando parte, sem aviso de volta,

deixa-me crepúsculos

que em surdina reescrevo alvoradas.


Fernando Campanella

quarta-feira, 22 de junho de 2011

ESBOÇO


Foto por Fernando Campanella

Antes, somos sedas a esmo,
projetos-libélula, bichos voláteis.
Antes é o esboço, o mais raso ensaio.
O amor chega no remanso dos ventos,
na ressaca dos atos.
O amor vinga mais tarde.

Fernando Campanella, 1986

domingo, 12 de junho de 2011

RESPONSO*


Foto por Fernando Campanella

Santo Antônio do Itaim é uma região rural do município de Pouso Alegre, sul de Minas Gerais, cujo nome inspirou-me este responso (abaixo) de alguma alma que habita o imaginário, a ancestralidade da qual estamos embuídos, de que somos herdeiros, devotos ou não.

Santo Antônio do Itaim,
intercessor das tentações,
agradeço, meu bom santo,
pelas bênçãos que recebi
mas meu vestido de noiva
já não me encanta, não me veste,
foi se encolhendo ao tempo,
juntando nódoas e traças
das núpcias que desfiz.

Nove vezes nove terças-feiras
vi crescerem e minguarem
as luas, os brotos de meu capim,
agora, descasada do mundo,
recolho cacos, fiapos
de minha vidinha sem fim.

Faz com que eu me cubra de estrelas
da imensidão de teu céu
nas águas de onde saí.

De mim, só a velha carroça,
sem mais canarim pra tratar
e ainda devota de ti,
mais uma vez,
agora teu nome em meus seios,
vou acender sete velas,
sete rosas vermelhas ofertar.

(Se ainda solteiro, meu santo,
meu homem, concede-me a graça,
a bênção das bênçãos,
de contigo pro altar me levar).

Fernando Campanella

*Responso: oração a Santo Antonio para que se achem coisas perdidas ou não aconteça mal que se receia.


segunda-feira, 6 de junho de 2011

A LOUCA DA CASA


Foto por Fernando Campanella



...Era um sonho... E nele vozes antigas, versando em língua que por arte própria dos sonhos eu entendia, em grave encantamento assim diziam:

'Eis o teu sol da meia-noite,
eis a luz transfigurada.
Benditos os que vivem em bons termos
com o hóspede imaginário,
com a 'louca da casa'.

Fernando Campanella


Foto por Fernando Campanella


domingo, 29 de maio de 2011

CARL SANDBURG, UMA TRADUÇÃO


Foto por Fernando Campanella

SONHOS NO CREPÚSCULO

Sonhos no crepúsculo,
Apenas sonhos encerrando o dia,
Retornando-o com tal desfecho,
Aos tons cinza, escurecidos,
Às coisas fundas e longínquas
Do território dos sonhos.

Sonhos, apenas sonhos no crepúsculo,
Apenas as rotas imagens lembradas
Dos tempos idos, quando o ocaso de cada dia
Escrevia em prantos as perdas da afeição.

Lágrimas e perdas e sonhos desfeitos
Talvez acolham teu coração
ao anoitecer.

(Dreams in the Dusk, poema de Carl Sandburg,
tradução de Fernando Campanella)



Foto por Fernando Campanella

DREAMS IN THE DUSK

Dreams in the dusk,
Only dreams closing the day
And with the day's close going back
To the gray things, to the dark things,
The far, deep things of dreamland.

Dreams, only dreams in the dusk,
Only the old remembered pictures
Of lost days when the day's loss
Wrote in tears the heart's loss.

Tears and loss and broken dreams
May find your heart at dusk.

(Carl Sandburg)

sexta-feira, 27 de maio de 2011

SE ESSA RUA FOSSE MINHA


Foto por Fernando Campanella

seria uma rua encantada

onde as casas exalam cores
e os vizinhos dão bom-dia
quando amanhece e o sol
vem sentar na calçada

Fernando Campanella



quinta-feira, 19 de maio de 2011

SAKURA*, UM HAIKAI


Foto por Fernando Campanella


Vã toda palavra
à tua súbita visão,
cerejeira em flor

(Fernando Campanella)


Uma velha sem dentes
que rejuvenece
cerejeira em flor

(Matsuo Bashô)

*A flor de cerejeira é uma flor de qualquer árvore do gênero 'Prunus', particularmente a cerejeira japonesa 'Prunus serrulata', a qual é chamada algumas vezes de 'Sakura'. (Wikipedia)


quinta-feira, 12 de maio de 2011

E MAIS O TEMPO...


Foto por Fernando Campanella


há em mim a natureza de um calcário
de catedrais adentro

dê-me todo oceano do mundo
e mais o tempo
e mais o tempo...

Fernando Campanella, 1989

quarta-feira, 4 de maio de 2011

FRUTOS DA TERRA


Foto por Fernando Campanella


Benditos os filhos do ventre da terra
que o sol desperta tão cedo
que o trigo e a uva aguardam no campo
para o mágico processo do pão e do vinho.

Benditos os frutos da terra
que se abrem à manhã
em silêncios e cantos
que se mesclam no ar

e os filhos da paz
que ligam o céu ao mundo,
os que reciclam o dia
dele retirando sustento e eternidade.

Abençoados os que bendizem,
os que curam, os que a dor amenizam
e que por via da tolerância se entendem.

Benditos os que domam a cólera
e se transformam no amor,
amor que bebe da vida em identidade.

Bendito o sol
que amadurece os frutos da terra.
Mais bendita a luz
por que anseia a 'noite escura da alma'.

Fernando Campanella, poema escrito em 1984.

terça-feira, 3 de maio de 2011

FRUTOS DA TERRA




Bendito o sol
que amadurece os frutos da terra.
Mais bendita a luz
por que anseia 'a noite escura da alma'.

(Fernando Campanella, trecho do poema 'Frutos da Terra)


Fotos por Fernando Campanella

quarta-feira, 20 de abril de 2011

OUTONO




uma aragem
uma estação
um rito de passagem

um cão sem pelo
em cima do muro
não é lava nem gelo
nem claro nem escuro

uma luz quase sedada
em transição

(as árvores confrangem
os ursos já estendem as camas)

um sopro
um verso
esta alma esvoaçada

uma folha de mim

à tua janela
deixada

Fernando Campanella, 2007


Fotos por Fernando Campanella

quarta-feira, 6 de abril de 2011

O GRANDE SILÊNCIO


Foto por Fernando Campanella


...Depois do terremoto veio um incêndio...
depois do incêncio um sopro suave

e algo de minhas entranhas sussurrou-me então

que eu não estava morto.


(Colagem poética com versículos adaptados da Bíblia Sagrada, Reis, 19:12 e versos do poema Antíqua por Fernando Campanella)



sábado, 2 de abril de 2011

OLHOS DE MINAS


Foto por Sônia Brandão
http://www.flickr.com/photos/sophiecarriere/


viajar por dentro de Minas é correr
um trem-memória sem disciplina
desdobrar-se em verdes -

capins, buritis, limão -

juncados ora cá, ora ali,
de tons-quaresmeira-acácia...

e mais verde: verde-neblina-araucária,
mata-fechada, verde-chuva-quase-exaustão...

às vezes voam garças, aldeias perpassam
vislumbram-se capelas
e vacas em ruminação...

e o trem avança
em sobe-e-desce estonteante
em quase náusea encantada...

já quando Minas para trás se deixa
e se enxerga um azul-distância
não, não é o céu, são outras serras
e para além delas eu-mineiro e o mar

lá são outros olhos
com que Minas precisa se mirar

Fernando Campanella

Meu agradecimento a minha amiga Sônia Brandão, autora do blog O PÁSSARO IMPOSSÍVEL (http://passaroimpossivel.blogspot.com) pela gentileza de conceder-me sua bela foto para esta postagem (acima) tirada na região de Delfinópolis, cidade próxima à serra da Canastra, sudoeste de Minas Gerais.



domingo, 27 de março de 2011

CAMPOS DE ARROZ (FIELDS OF RICE)



...encontre-me lá
à fímbria da tarde
quando pássaros voarem

sobre arrozais em flor...


(...find me there, where the birds fly
upon the fields of rice...)

Fernando Campanella, inspirado em 'Fields of Gold', por Sting.

(Poem by Fernando Campanella, inspired in 'Fields of Gold', by Sting)


Campos de arroz, fotos por Fernando Campanella


quarta-feira, 23 de março de 2011

O EU CONFESSO (FRAGMENTOS)




esta chuva de cristais ralados
cai sobre samambaias selvagens
nas fendas do muro ao lado



banho-me de minha antiguidade




e de certas naturezas chega-me o sopro
de um longínquo, bucólico daimon...

Fernando Campanella, 2007

(FOTOS: BROTOS DE SAMAMBAIA POR FERNANDO CAMPANELLA)


quinta-feira, 17 de março de 2011

UMA SÚBITA LUZ CORTA O TEMPO



...sei que os bezerros às vezes param
e me observam
quando por sobre o muro de silêncio os contemplo -
é quando uma súbita luz corta o tempo -

depois nada mais acontece
a não ser o delicado ruminar de bezerros
absolvendo a tarde de metafísicas inúteis

Fernando Campanella, 1993



Fotos por Fernando Campanella


(Meu agradecimento a Leila Laderzi, minha grande amiga, pela criação do novo cabeçalho para o blog.)

quarta-feira, 9 de março de 2011

CARNAVAL (IMAGEM E PALAVRA)



Mais uma vez, o bloco da Gertrudes saiu nas ruas nesta terça-feira passada de carnaval.
Sem o luxo das escolas de samba oficiais da cidade, as pessoas que o integram vestem-se como podem,como querem, a maioria dos homens e meninos com indumentária feminina. O que contam são a simplicidade e a vibração nas mãos e nos pés.



O bloco em questão é uma versão atualizada, ou até mesmo um prolongamento, do antigo Bloco da Vaca, que tanto nos alegrava nos antigos carnavais da cidade. Naquele tempo, os criadores e integrantes do grupo saíam às ruas também na terça-feira, pedindo algum trocado para beberem, um dos quais transportando um arcabouço de uma vaca preta que realmente excitava as
crianças (diferente da versão mais colorida e estilizada na foto acima).



No Bloco da Gertrudes da atualidade até meninos e meninas se juntam à bateria com seus instrumentos, como tambores, pandeiros, cornetas, etc.



Sempre presentes na celebração, a saudável irreverência e a descontração (ou desconstrução). Aqui, um rapaz vestido de noiva borbulha em alegria.



O batuque e as cores dos tambores dão o tom e o brilho essencial à festa.




Mesmo que não se toque bem algum instrumento, não há que se preocupar,um ritmo básico já basta, e , no conjunto,todos se harmonizam nesse evento, parte de uma celebração que acaba se transformando no maior espetáculo coletivo do planeta.



Mas há bons ritmistas participando da folia também.

"E no entanto é preciso cantar
Mais que nunca é preciso cantar
É preciso cantar e alegrar a cidade..."
(Carlos Lyra, Marcha da quarta-feira de cinzas)

...Pra tudo se acabar na quarta-feira? Em termos. O show continua e no ano que vem, no mesmo horário, no mesmo local, sob sol ou chuva, o Bloco da Gertrudes concentra-se para botar a alegria nas ruas novamente.

(Meus agradecimentos aos integrantes do bloco que tão bem me receberam e permitiram que os fotografasse.)

(Fotos e texto por Fernando Campanella)