sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

FOLIA DE MINAS

Foto by Antonio Carlos Januário

Suspiram os saudosistas pelos antigos carnavais. Pura nostalgia! Cada um vive o carnaval de sua época. E cada época tem sua cota de encantos e decepções.

Para os foliões de hoje, o carnaval-espetáculo, os trios-elétricos, a música da Bahia, os grandes palcos montados para os shows de rua, e até o funk, falam na linguagem que entendem, e os motivam para a celebração festiva dos quatro dias.

Porém, se eu fosse criar um enredo para uma escola de samba, o tema seria ‘Maria-fumaça, me leva para os antigos carnavais de Minas’. Uma homenagem à grandeza local, fora dos grandes circuitos, do eixo das noticiadas folias do Momo pelo país.

A frente de uma comprida locomotiva seria o abre-alas, em formato de uma máscara estilizada, de onde se desprenderiam empuxos de fumaças de confetes em várias cores. As alas do comboio seriam vagões, com nomes de antigos blocos, ranchos, cordões e escolas de samba de cidades de todo o estado. Nomes como ‘Sossega, leão’, ‘Bando da lua’, ‘Caricatos de Araxá' , e mais e tais, puxariam este encantado trem da memória dos carnavais de Minas.

Dentro dos vagões, viriam os participantes, com as indefectíveis fantasias: arlequins, malandros, espanholas, pierrôs, colombinas, gondoleiros de Veneza, baianas, índios... Todos vestindo a camisa dos seus blocos, entoando as respectivas marchinhas, sambas-enredo, nas mil e uma noites de imersão na euforia.

Pessoas de Santa Rita do Sapucaí apontariam para o vagão de sua cidade, com os blocos arqui rivais, Ride Palhaço e Democráticos’, comentando: 'este desfile de meu bloco foi o melhor carnaval de todos os tempos.’ Uma senhora de Mariana se encantaria com o tradicional bloco do Zé Pereira, seu vagão apinhado dos bonecos que há 155 anos alegram o carnaval local. E habitantes de Leopoldina se divertiriam com seus ‘blocos dos sujos’, com o mestre Vitalino Duarte, que nos carnavais antigos saía pelas ruas da cidade com uma uma burrinha, cantando:

'Arranjei uma burrinha,
Para brincar no carnaval,
Ai, ai, ai!
Ai, ai, ai!
A orelha era de palha
E o rabo de jornal...'

Juiz de Fora veria um de seus empolgantes carnavais, o de 1966, quando uma escola de samba apresentou o enredo ‘Mascarada Veneziana', colocando na avenida seu primeiro carro alegórico, uma piscina com uma gôndola a flutuar. Belo horizonte teria seus ‘corsos’ representados, carros conversíveis enfeitados com serpentinas, bandeirolas, transportando, belas mulheres e figuras da sociedade local.

Cada um dos assistentes traria para sua cidade um imaginário, merecido troféu de melhor carnaval do mundo, na mais saudável , disputada, alegria.

O enredo teria como costura estas celebrações já idas de gerações e gerações, a explosão dos sentidos manifestando-se nos mais remotos , mineiros grotões.

Estaria, certamente, fora da mídia esta minha inusitada escola. Os grandes jornais e a TV não teriam interesse no carnaval de uma Capelinha, ou de uma Santa Maria de Itabira, por exemplo. Não importa. Minha locomotiva passaria como a vida que em todos os cantos acontece, e passa. Vida que no carnaval se disfarça, de si própria escapa, dando seu grito de alegoria.

A comissão de frente puxaria o desfile , cantando:

‘Maria fumaça, ô, ô,
me leva pra folia de Minas,
pro bloco do Uai,
pro esquindô, esquindô...’

Fernando Campanella, 20 de Fevereiro de 2009


Fontes de Pesquisa: 1) Site: 'Brasil: História e Ensino', 'Uma breve história do carnaval', por Natania Nogueira. 2) Site: rota do samba.com , 'Carnaval em Juiz de Fora', por Renan Alexandre Ligabo de Carvalho e Victor de Oliveira Rosa, com citações da Revista 'Em Voga', e Coimbra (1994).

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