domingo, 15 de fevereiro de 2009

SOL DA MEIA NOITE


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Era um sonho, uma atmosfera de véspera . Talvez de algum advento, algum natal. Porém, não havia o corre-corre das ruas, a volúpia de compras e preparativos de cerimoniais.

Eu deslizava por diferentes cenários: uma floresta junto ao mar , uma montanha , um deserto... E glaciares também. Tudo envolto por um céu de um azul aprofundando-se em noturnos tons.

Ainda não haviam aparecido estrelas, apenas o sol já levando o dia, e uma lua antecipada, inteira, configurada no céu. As árvores, impregnadas de aromas, a dançar como em rituais do mais remoto encanto. E vi os animais : um caracol espanando a concha, abelhas, ansiosas lustrando a colméia; e os pássaros ajeitando os ninhos para mais ovos nas sombras das folhagens nos quintais.

Estrilavam os grilos, e cantavam, fora de hora, os galos. No mar, golfinhos cerravam grandes círculos; peixes polimorfos, multicoloridos, concentravam-se acima dos corais. Na selva , festejavam de galho em galho, os macacos. No azul espelho do gelo um alvoroçado coro de pingüins ensaiava seus cantos e passos. E no deserto , camelos em grupos coesos, iam em busca de algum oásis no tempo.

Apareceram antigos pastores, conduzindo ovelhas em calmas paisagens. Tudo parecia obedecer a um amoroso comando de preparar, limpar. Uma alegre espera embalsamava o ar.

Eram assim as imagens do sonho, tudo em clima de véspera de um descomunal evento .

Passaram, por fim, os cometas, alongando seus feixes dourados. E meteoros espoucavam, cintilando em fagulhas que saudavam os vaga-lumes . Despontaram os planetas, desdobraram-se as galáxias. Nunca tamanha profusão de celestes personagens reunidos eu vi . Estranho sonho! Como poderia o universo conspirar assim, tudo tão perto, tão junto dentro de mim?

Ouvi sons distantes, remotas vozes, há muito não ouvidas. E era clara a instrução que me transmitiam : eu desenharia longas linhas no ar, muitas, como em varias pautas musicais sobrepostas.

Passei a rabiscar aqueles traços, cegamente obedecendo àquele subliminar comando. Porém, tudo me parecia do mais claro e preciso objetivo, de qualquer sentido humano desprovido.
Tolo engano! Após um tempo os riscos foram se iluminando , um após outro... E assim todos, reluzindo em raios de mais fulgente ouro, chegando à sua mais antiga fonte, ao cerne de um alquímico sol. Explosão da luz primordial.

E as antigas vozes versando em língua, que por arte dos sonhos eu entendia, em grave encantamento assim diziam:

“ Eis o teu sol da meia-noite.
Eis a luz transfigurada.
Benditos os que vivem
em bons termos
com o hóspede imaginário,
com a ‘ louca da casa’.”

Fernando Campanella, 08 de Dezembro de 2006

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