sexta-feira, 6 de março de 2009

MUCHOCO



Muchoco, Foto by Fernando Campanella

Meu itinerário neste sábado frio de Julho é uma visita a uma paineira que vi há exatamente um ano, ao lado da cachoeira da Usina. Naquele julho passado, ela erguia-se grandiosa, desprendendo suas painas, um suave lençol de algodão a seus pés, evocando tempos de maturidade e desapego no final de tarde.

E hoje saio na tarde para registrar em foto aquele mesmo branco, seus flocos , alguns soprando ao vento, outros cobrindo o chão. Mas a estrada, aquele meu particular caminho de Santiago em Minas, me detém em suas outras belezas... Não há pressa, o sol vai lento. Ipês já se cobrindo de roxos e amarelos, as onipresentes flores de São João, as pombas do campo, as legítimas, como dizem, e as enigmáticas árvores secas tomam minha atenção, distraindo-me satisfatoriamente de meu intento.

No meio do caminho, uma árvore toda bordada de flores vermelhas, que eu já vira antes, certamente, mas a que nunca pusera a merecida atenção. Que exuberante paisagem para um foto! Preciso passar por uma porteira para uma maior proximidade dela, e peço licença ao dono da terra, o senhor Tarcísio, que se encontra por perto. Permissão concedida, tiro as fotos, e pergunto ao senhor o nome da árvore. – O povo daqui chama ela de Muchoco, ou Patinho – amigavelmente me diz.

Que nome exótico, misterioso , Muchoco, que me lembra algo em som de x, bochecha, ou muxoxo.... E que também me traz as chaves de um segredo árabe, de um jardim japonês . Não sei se a árvore é nativa, ou se foi trazida da África, como as espatódias, ou do Oriente... Mas absolutamente não importa.

Quando finalmente chego à paineira da Usina, esperando encontrar o mesmo espetáculo daquelas sementes se desprendendo, o que experimento é uma grande decepção. A paineira completamente dissipada, um esqueleto de galhos frios, nenhum fruto, nenhum tapete de painas no chão.

O que acontecera com a cronologia das estações? Voaram aquelas sementes mais cedo? Algum efeito do aquecimento global? O Sr. Luís, dono das terras da cachoeira, me informa que este ano a paineira floresceu em Março e se esvaiu mais cedo. Acontece. Para as árvores não deve haver calendários fixos como, para nós, os aniversários e os natais. Dissipa-se quando sente chegado seu tempo.

Pena não ter eu fotografado a paineira na ocasião da visita anterior . Azar meu que não vivo no campo , que sou um vaga-lume urbano, um romântico tardio. Bastante frustrado, só me resta enfiar a viola no saco e retornar à cidade.

Mas ao sol cadente naquele finalzinho de tarde houve uma súbita revolução de cores no céu, tudo tão intenso, luz sorvendo luz, tons explodindo em tons. E, maravilhado , então mais precavido, captei o possível daquele espetáculo natural em fotos. Depois uma meia-lua brilhou num azul de um quase noturno manto. Outros momentos, outros encantos. Aqueles momentos, assim como o Muchoco, estavam muito bem guardados em minha câmera, essas alegrias agora não me escapam.

Fernando Campanella, 21 de Julho de 2007

8 comentários:

  1. Olá meu amigo, Poeta!

    Não se esqueça de visitar a paineira mais cedo este ano (Já estamos em Março novamente)...
    E traga a foto pra o nosso deleite!

    "O que acontecera com a cronologia das estações? Voaram aquelas sementes mais cedo? Algum efeito do aquecimento global? O Sr. Luís, dono das terras da cachoeira, me informa que este ano a paineira floresceu em Março e se esvaiu mais cedo. Acontece. Para as árvores não deve haver calendários fixos como, para nós, os aniversários e os natais. Dissipa-se quando sente chegado seu tempo."

    Qto a essas suas reflexões, meu amigo, penso q
    o "tempo" está desregulado pra todos nós, isto nãe é "privilégio" só das árvores.
    Veja! Ainda ontem eu tinha filhos pequenos, no entanto, hoje, já tenho netos grandes.
    Ontem foi segunda feira, hoje já é sabado novamente. Os ponteiros do tempo estão completamente estrambelhados.
    Põe reparo!
    Rsrs...

    Bj GRDE!

    *Mari*

    *.*

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  2. Olá meu amigo, Poeta!

    Não se esqueça de visitar a paineira mais cedo este ano (Já estamos em Março novamente)...
    E traga a foto para o nosso deleite!

    "O que acontecera com a cronologia das estações? Voaram aquelas sementes mais cedo? Algum efeito do aquecimento global? O Sr. Luís, dono das terras da cachoeira, me informa que este ano a paineira floresceu em Março e se esvaiu mais cedo. Acontece. Para as árvores não deve haver calendários fixos como, para nós, os aniversários e os natais. Dissipa-se quando sente chegado seu tempo."

    Qto a essas suas reflexões, meu amigo, penso q
    o "tempo" está desregulado pra todos nós, isto nãe é "privilégio" só das árvores.
    Veja! Ainda ontem eu tinha filhos pequenos, no entanto, hoje, já tenho netos grandes.
    Ontem foi segunda feira, hoje já é sabado novamente. Os ponteiros do tempo estão completamente destrambelhados.
    Põe reparo!
    Rsrs...

    Bj GRDE!

    *Mari*

    *.*

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  3. Já visitei, Mari, no ano passado, depois que escrevi esta crônica em 2007. As fotos estão postadas aí, acima. O tempo parece destrambelhado mesmo, quando eu era moço eu me sentia velho, agora a poesia é esta infância constante que se recusa a me abandonar. E como me faz bem! Bjos.

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  4. Poucas palavras podem expressar o q se sente ao se ler esse escrito: A natureza é perfeita e nos oferta durante todo o ciclo anual paisagens de rara beleza. São paineiras, muchocos, ipês, quaresmeiras, manacás, angazeiros, sapopembas, embaúbas. Nunca ficamos sem esse espetáculo! Lindo escrito, feliz o momento q vc captou essas imagens. O muchoco é lindo! Coisa das mais lindas q já tive o privilégio d ver. Perfeito!

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  5. É verdade que cada momento é unico e não se repete... e que bom que existem os momentos seguintes, que nos brindam com algo inédito!

    Que todos os seus momentos sejam assim: plenos de inspiração para nos brindar com belos escritos.

    =)

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  6. A propósito:

    Flor = Dalva

    Duas faces da mesma alma.

    Bjs.

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  7. Muito obrigado pelas visitas, Antonio Carlos e Dalva. O Antonio sempre por aqui aparece. Vc, Dalva, é a primeira vez. Apareça sempre, os comentários são um estímulo para quem cria. Grande abraço.

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