sexta-feira, 10 de abril de 2009

FOLIA DAS ALMAS


Foto by Fernando Campanella


A encomendação das almas (ou recomendação das almas) é um ritual de caráter religioso, herdado da colonização portuguesa no Brasil. De origem desconhecida, sabe-se que na Alta Idade Média já era praticado em Portugal.

Diferente das exéquias, ritos e orações prestados ao defunto pela igreja, essa tradição é praticada geralmente entre o povo, sem a intervenção oficial de um padre, e fora dos domínios dos templos católicos.

Trazida ao Brasil pelos jesuítas no século no XVI, com o objetivo de evangelização, esse ritual era bastante comum em regiões do interior do Brasil. A partir da segunda metade do século vinte foi perdendo a força de manifestação devido ao êxodo rural provocado pela industrialização e consequente poder de atração das cidades.

Com variações regionais, a encomendação das almas acontece na quaresma, tendo seu ponto alto na sexta-feira santa. Fazendas, sítios e casas da comunidade são visitados por um grupo de fiéis com o objetivo de rezar pelas almas que se encontram no purgatório, intercedendo por elas para que encontrem o perdão e o alívio junto ao Senhor

No município de São Roque de Minas, na região de Guiné, segundo um excelente trabalho de pesquisa de Genio Alves, da Universidade de São Paulo, havia um outro intuito na prática dessa encomendação , ou seja, o de agradar as almas penadas, evitando sua interferência no mundo dos vivos.

Naquela região, a prática, hoje extinta, era denominada Folia das Almas. De um ex-praticante o autor da pesquisa colheu esta declaração: “(...) ela (a Folia das Almas) tinha uma valia, um significado certo. Não era
como uma festa, como um baile. Era como se fosse um acordo com o ‘outro
lado’. Cantavam e tocavam para ‘elas’ e assim ‘elas’ não incomodavam as
pessoas, as casas. Tanto que, os foliões não tinham medo. Nem de gado bravo,
nem de cachorros, nem de outra coisa...”

Seja com a função de interceder pelos mortos junto a Deus, ou de agradar as almas que não tiveram o merecido descanso, para que não assombrem suas vidas, a tradição da encomendação das almas é uma manifestação popular genuína, por onde os vivos entram em bons termos com os mortos, redimensionando o mistério, o assombro do além.
Fernando Campanella

Fontes de pesquisa:

1) http://www.intercom.org.br/papers/nacionais/2007/resumos/R0003-1.pdf

2) http://www.anpuhsp.org.br

6 comentários:

  1. Maravilha! Muito interessante, pois a riqueza da cultura popular brasileira, com suas influências diversas, é algo fascinante e ler sobre suas manifestações, é mergulhar num passado perdido! Obrigado pela linda postagem!

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  2. Fernando.........

    Na Farturinha (nome correto: Fartura de Cima),
    se ñ me engano se escreve assim mesmo, onde meus avós tinham um sítio, tb cultuavam as Almas. Ñ me recordo muito bem... mas me lembro q faziam procissões com diversos objetivos... a
    longas distâncias...
    Homens, mulheres de véus e crianças... iam rezando o terço e cantando pelos caminhos de pó ou barro, dependendo da época do ano.
    Participei de algumas dessas manifestações obrigada por minha mãe, mas, achava muito triste.
    Tenho na lembrança q nessas andanças... passávamos por uma Ermida na estrada e eu sempre sentia calafrios.
    Durante muito tempo sonhei com essas Igrejinhas, tinha sempre a imagem de uma Santa
    em gêsso ou mármore, e invariavelmente estava escuro. Eu tinha muito medo de passar por alí e fazia grande esforço para acordar ou sair voando... de tanto medo.
    (Justificando meu comentário em uma das suas fotos).
    Bj GRDE!

    *Mari*

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. Olá, querida, amiga. Puxa , que interessante a estória que vc me contou da ermida de sua infãncia. Olha, comigo sempre aconteceu isso também. Não era bem medo, era algo entre repulsa e pavor, e uma certa rejeição estética. Mas, de uns tempos pra cá comecei a enfrentar isto, buscando , remexendo dentro de mim, um processo muito interessante. Não sei explicar por que vou atrás disso tudo, mas é algo que minha alma procura integrar, algo que vivi, e que só agora procuro resgatar. Olha, se vivemos isso então está dentro da gente. Hoje, em vez de repulsa ou rejeição, vejo um certo encanto neste imaginário que povoa a ancestralidade de onde viemos. Sei que meus trabalhos passam nostalgia, mas ao mesmo tempo, é toda uma beleza que surge do complexo do que fomos, do que somos. E, afinal, todas estórias que vivi, que ouvi, já não me causam tanto pavor mais. Arte também é terapia. Bjos

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  5. Olá Fernando,
    que bacana encontrar esse assunto no seu blog, estou muito interessada nesse rito aos mortos, sou atriz e estou morando em Ribeirão Preto, estou pesquisando alguns ritos da cultura popular pois me inspiram na construção do meu novo espetáculo e uma delas é o Canto pras Almas, como eles chamam aqui em Santo Antonio da Alegria, na divisa com Minas, aqui o rito ainda acontece, com poucos integrantes, mas fiquei encantada com o que vi na quaresma, são seis homens que saem depois das 22h e cantam em algumas casas tocando um currupio (já não usam mais matraca e berra-boi) e produzem um canto polifonico belissimo, de arrepiar a alma mesmo...
    um grande abraço
    Fabiana Fonseca

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