quarta-feira, 20 de maio de 2009

CREPÚSCULO, ARTE E EMILY DICKINSON


Foto by Fernando Campanella

As tardes de outono propiciam crepúsculos inigualáveis. Embora os atores – nosso velho, vaidoso sol, as frívolas nuvens, o ar, o imponderável vento... – sejam sempre os mesmos em outros períodos do ano, é nesses dias que precedem o inverno que os espetáculos do fim da tarde rendem maior vibração em luz, forma, cor e tom.

Os crepúsculos outonais lembram algo como o capricho de um demiurgo a brincar com infinitas possibilidades na reorganização de toda matéria pré-existente. Uma arte de tamanha grandeza, de tão poderoso efeito ,onde o criador, o sujeito, se esquece e se confunde com o objeto da própria criação.

Assim, em escala menor, com todos artistas que, movidos por um impulso interno, reestruturam o que vivem, o que recebem, neste insondável processo mágico que denominamos ‘criar’.

Assim, com a poetisa Emily Dickinson que, tocada pelos fenômenos naturais de Amherst, reestruturou as impressões, as emoções internas, rendendo este maravilhoso crepúsculo-poema:

219


Ela varre com vassouras multicores
E sai espalhando fiapos,
Ó Dona arrumadeira do crepúsculo,
Volta atrás e espana os lagos:

Deixaste cair novelo de púrpura,
E acolá um fio de âmbar,
Agora, vejam, alastras todo o leste
Com estes trapos de esmeralda!

Inda a brandir vassouras coloridas,
Inda a esvoaçar aventais,
Até que as piaçabas viram estrelas —
E eu me vou, não olho mais.

Tradução: Aíla de Oliveira Gomes

219
She sweeps with many-colored Brooms —
And leaves the Shreds behind —
Oh Housewife in the Evening West —
Come back, and dust the Pond!

You dropped a Purple Ravelling in —
You dropped an Amber thread —
And how you've littered all the East
With duds of Emerald!

And still, she plies her spotted Brooms,
And still the Aprons fly,
Till Brooms fade softly into stars —
And then I come away —

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