segunda-feira, 15 de junho de 2009

BEIJADOR*


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(Esta é uma das mais belas estórias da vida real que já ouvi, e que espero seja também uma das mais belas que escrevi.)
(Para A. C.)

- Pai, compra um caracol para o aquário?

Não havia poder de dissuasão contra a vontade do menino que sempre movia mil argumentos a favor dos bichos que queria. E teve que ir, o pai, mais uma vez, para a loja de peixes, acuado pelos olhinhos brilhantes, pelo coração do filho que parecia saltar de ansiedade pela boca. Se não comprasse o caracol era o aquário todo que morria.

Das outras vezes, a mesma arrebatação. Como esquecer a chegada da ratinha branca Madalena, do periquito, da enigmática Dama de Negro, o peixinho-telescópio de olhos esbugalhados. Personagens que já haviam se integrado à estória da família. E , sobretudo, como esquecer que a limpeza do cocô, a ração, as mordidelas e bicadas dos ‘amiguinhos’ ficariam todas sob sua inteira, intransferível, responsabilidade?

Na loja, mais uma vez veio o proprietário solícito, a lhe despejar informações técnicas: parâmetros da água, filtragem, coabitabilidade dos peixes... ‘Pomacea...’ é o nome do bicho desta vez , um caracol amarelado, o único que pode ser mantido em um aquário plantado como o do filho, alimentando-se de algas, ração dos próprios peixes e folhinhas em decomposição.

Após a compra do molusco , de volta à casa, assediado pela agitação da criança, com um certo medo ou repulsa lhe alizando as mãos, o pai deixa escapar o caracol que perde uma lasca da concha no choque contra o chão. Com redobrado cuidado, apanha a preciosidade e a acomoda no aquário , sentindo-se um monstro inafiançável diante do choro e das acusações do menino de ter assassinado a criatura.

À noite , após o filho, ainda choramingando , terminar a lição de casa, volta com o menino ao aquário na sala, para sondarem as possibilidades de sobrevivência do caracol. Redescobrem o milagre, a resistência da vida, ao verem-no se movendo, as anteninhas brancas, espertas, voltadas para fora.

Tudo se resolvera da melhor maneira e agora é , novamente, o paizão amigo, provedor da serenidade e da ordem.

Ao colocar o filho para dormir, diz que o Marujo, nome do novo membro da família , com certeza sobreviverá. Vê a esperança já cerrando os olhos do garoto e se redime, com a sensação de missão de paterna cumprida. Quando vai apagar a luz, o menino lhe pede:
- Pai, me compra uma tartaruga?

- Tartaruga??? Você só pode estar brincando , moleque, logo vai querer um elefante também. Mas veja só, tartarugas estão totalmente protegidas pelos ambientalistas e não podemos mais criá-las em casa, e ponto final.... Mas por que você quer uma tartaruga?

- Porque elas são calmas , pai – e o guri adormece como um anjo.

Ao deixar o quarto , vai até a sala, liga o som , senta-se à poltrona para sua descontração, o desapego do dia.

Ah, filhos!... Mas já fora criança e nutrira enorme interesse pelo universo dos bichos. Guardara luto e realizava verdadeiros funerais de seus animaizinhos que morriam. Permutara peixes de aquário com a prima, nos finais de semana. Uma vez ganhara dela um Kínguio deslumbrante, que mais parecia uma chama líquido-dourada, com nadadeiras e caudas de véus flutuantes.

Agora mais leve, contemplando o aquário, a música calma lhe trazendo o sono, alegra-se com uma idéia que então lhe ocorre, a de que crianças têm a idade dos peixes, o sono do mar.

E não se assusta quando vê o filho nadando nas transparências daquelas águas , entre os peixinhos multicoloridos : um Beijador branco-prateado, afugentando o inamistoso caracol que se enfia em sua casa e tranca a escura portinhola Deus sabe até quando.

Fernando Campanella, 05 de Julho de 2007


*
"Os beijadores são peixes que chegam a reconhecer o dono, e que se tornam agessivos se o espaço (onde vivem) for pequeno."

(Comentário feito pelo aquarista Fabrício Caramello Ortins Sampaio à postagem sobre esse peixe no blogger: www.aquarionline.com.br/portal/peixes/peixes_detalhe.asp?id=211 -

9 comentários:

  1. Boa noite, Fernando.

    Esta estória emocionou-me, pois tive uma ampulária em meu aquário por quem tive grande afeição (era tão linda! tão amarelinha!)... gostava mais dela que de todos os peixes (era capaz de ficar horas apreciando sua tranquilidade deslizante sobre a superfície do vidro: momentos em que parecia que tinha "a idade dos peixes e o sono do mar"! Obrigada pela recordação!

    Beijinho.

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  2. Que sintonia, Flor, muito bonito isso. Ampulária e Pomacea são nomes populares da Pomacea Bridgesi. Olha, essa estória foi contada,tem fundamento na vida real, mas tentei dar meu toque, minha interpretação. Gosto especialmente do final dela, que já é totalmente criação minha. Obrigado pela visita, apareça sempre pois deixa-me muito feliz. Grande abraço.

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  3. Corrijo, o nome popular, segundo me informei, escreve-se com acento: Pomácea. Grande abraço.

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  4. Acho q sou parente desse peixinho... pois
    detesto lugares apertados, muito fechados...
    Tb às vezes... me torno agressiva.
    Rsrsrsrsssssssss.......

    *Mari*

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  5. Olá, Mari, todos temos direito ao espaço próprio, físico e psicológico, para que possamos nos refazer, recarregar as baterias de nossas almas. Grande abraço.

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  6. Lindo texto!!!!! Acho q todo mundo já viveu algo tão lindo como esse qdo era criança... Parabéns!!!

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  7. Relendo hoje, me identifico mais com o caracol.
    Avvvvvvvv... ñ sou mais tão beijoqueira assim.
    Hehehehehehehehe.......
    Linda estorinha Fernando. Foi muito bom reler esse seu conto adulto/infantil.

    Bju GRANDE!


    *Mari*

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  8. Que bom... depois de algumas tentativas consegui postar novamente (mas só como anônimo). Estranho, né!? Por que, será!?

    *Mari*

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