sábado, 19 de junho de 2010

AVE, TAO


Foto por Fernando Campanella

"Tu não me dominarás, tristeza! Ouço um canto suave através das lamentações, dos soluços. Um canto cujas palavras invento a meu talante. Um canto que me fortalece o coração quando o sinto prestes a ceder...
...Erguer tua fronte e permitir enfim que teu coração se encha não mais de ódio e inveja, mas sim de Amor! Sim, permitir enfim que todas as carícias do ar, os raios do Sol e todos os convites à felicidade te atinjam..."

(Excertos de 'Os Frutos da Terra, André Gide)

Ame o belo,
ame o tosco,
ame o pai,
o filho,
ou o espírito de louco.
Mas ame.

Ame cedo, sob alegrias de Vésper
ou já sob escombros de ossos.

Ame o conhecimento do amor
e as formas de amor
o amor frater
os mil amores.
Ame o amor que já ousa dizer seu nome.

Abra-se a toda delicadeza despida
ao peixe exato
(vide a cópula dos sapos, vide o cálido ninho).

Ame réptil, ame erectus, ame sapiens.

Mire-se em beleza e pó de anatomias fugidias.

Ame Sírius, a luz difusa, e as Graças
- e a asa errática do Espírito sobre as águas.


Viva o dia, mais o estrondo – e o arcano
a sete chaves embutido na casa dos sonhos.

Ame símile, ame díspar, ame incondicional.

Ama et labora.

Salve, Paz do Deus dos homens,
Ave, Tao.


Fernando Campanella, 2006

Os vídeos abaixo apresentam a música de Santiago de Murcia,guitarrista e compositor espanhol(1673-1739). Segundo informação da BBC ,através do site de consulta 'Wikipedia', um dos aspectos importantes da música de Murcia foi o seu interesse por uma grande variedade de música para guitarra, pré-existente à sua época, incluindo a dos espanhóis, franceses e italianos, assim como em formas de dança popular, provavelmente originárias da África. Sua obra nos oferece um rico e variado panorama do repertório barroco para guitarra ( violão).
(BBC, Wikipedia, tradução por Fernando Campanella)



11 comentários:

  1. "(vide a cópula dos sapos, vide o cálido ninho)" - vide a magia desses versos, que tornam mais belo o nosso caminho. Abraços.

    ResponderExcluir
  2. Belas palavras, meu grande amigo. Teu apoio, teu olhar sobre o que escrevo, desde o início, sempre foram grande incentivo para minha alma.
    Um abraço.

    ResponderExcluir
  3. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  4. Concordo plenamente com você, Ana Lucia, amar é uma opção. Sabe, sem resignação tola, hoje me peguei a pensar isto: o que me resta senão ser feliz? Puxa, como isso traz serenidade à vida. E,olha, encontrei o texto do André Gide por intuição, isto é, tinha 'frutos da terra' na cabeça e então pesquisei tentando ver se batia com meu poema...e, BINGO! Gostei muito. Grande abraço, fico feliz com tua presença aqui.

    ResponderExcluir
  5. Maravilhosa a construção deste poema, Fernando. Fomos feitos para o Amor.

    "Que pode uma criatura senão,
    entre criaturas, amar?"
    CDA

    Bjs.

    ResponderExcluir
  6. Esses versos do Drummond são muito profundos e verdadeiros, Flor. Creio que os poetas expressam esse sentimento através de sua arte. E, como disse a Ana Lúcia acima, amar é exercício, é opção também. Mas é o único sentimento que nos redime. Obrigado pela visita, pela presença.

    ResponderExcluir
  7. Penso na poesia como uma ação de graças pela Criação.
    Abraços, Campanella.

    ResponderExcluir
  8. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  9. Lembrei-me destes versos do Alberto Caeiro, Brandão, ao ler teu comentário:
    "... Sei ter o pasmo essencial
    Que tem uma criança se, ao nascer,
    Reparasse que nascera deveras...
    Sinto-me nascido a cada momento
    Para a eterna novidade do Mundo...".

    A poesia para mim é esse pasmo essencial, o poeta seria como uma 'criança letrada', recuperada, ou reinventada. E se nascemos a cada momento para a eterna novidade do mundo, temos aquela alegria essencial também, e damos graças pelo que recebemos.
    Grande abraço.

    ResponderExcluir
  10. "...Erguer tua fronte e permitir enfim que teu coração se encha não mais de ódio e inveja, mas sim de Amor! Sim, permitir enfim que todas as carícias do ar, os raios do Sol e todos os convites à felicidade te atinjam..."
    ___________________________________

    "Ame o belo, ame o tosco
    ame o pai
    o filho
    ou o espírito de louco.
    Mas ame.

    Ame cedo, sob alegrias de Vésper
    ou já sob escombros de ossos."

    *

    Assim como possivelmente a mágoa e o ciúme sejam primos do ódio e da inveja, são coirmãos os sentimentos de permissão de que todas as carícias do ar, os raios do Sol e todos os convites à felicidade te atinjam, enqto você ama o feio, o bonito, o tosco ou o espírito de louco.

    (Adorei ver você interagindo com os visitantes do blog).

    Sucesso sempre.

    Bju!


    *.*

    ResponderExcluir
  11. Obrigado, Mari, pelas belas palavras. Do amor tanto já se disse, e sempre haverá tanto a se dizer. Mas ele não é uma fórmula acabada, está sempre em processo, em construção. Escrever, acredito, é uma forma possível de amar também.
    Grande abraço.

    ResponderExcluir