terça-feira, 19 de março de 2013

CADÊ A MÃE?

Foto por Fernando Campanella


Outro dia, ouvi o termo “bagageiro”, referente a uma carroça transportando pessoas numa pequena cidade aqui da região, e foi como se um eco de algo longínquo houvesse batido em mim. Esse vocábulo  traz a semântica da minha infância, a sépia das fotografias de meus avós, de um velho retrato de Minas guardado nos meandros da memória.

A palavra foi pronunciada por um dos membros de uma família que viera da roça às compras naquela cidadezinha. E aquela cena, dos pais e cinco filhos naquele veículo, era tão evocativa, tão plena de significados, que merecia uma foto.  Eu trazia comigo uma câmera de bolso e perguntei aos pais se poderia tirar um retrato deles, da família inteira, ali juntinhos.



Para minha  alegria, consentiram. E como já haviam apeado, retornaram a seus assentos no bagageiro para se organizarem.
Com a intenção de conseguir uma imagem mais natural possível, conversei com eles, indagando sobre onde moravam, o que produziam ou plantavam, o que faziam ali, e coisas assim,  para distraí-los e registrá-los  no melhor momento, sem as estereotipadas  poses de álbuns de família.
Durante a conversa, com o visor em mira, fiz três fotos do grupo.  Em seguida, ao olhar na pequena tela da câmera para ver o resultado, espantei-me  quando não vi a mãe em nenhuma das imagens. Que falta de atenção aos detalhes, pensei, como é que eu não havia percebido aquilo na hora do enquadramento?
- Cadê a mãe? – perguntei-lhes, decepcionado – ela não aparece aqui.
Um dos meninos desatou  a rir, cutucou o outro... E  foi uma gargalhada geral.
- Ela escondeu atrás do bagageiro– respondeu uma das garotas, timidamente, tampando os olhos com a mão.  
E não foi mesmo que a senhora estava lá, escondidinha atrás de uma das rodas.  Após a filha “entregá-la”  ela se levantou um tanto embaraçada, com ar de poucos amigos, dizendo-me que não gostava de sair em fotos. Respeitei  sua decisão, não  lhe pedindo que se juntasse à família para nova rodada de imagens.
Por sorte, a senhora havia se ocultado tão bem que realmente não deu pra perceber seu vestígio na foto baixada em meu computador.  Por outro lado, lamentei o fato de ela não ter aparecido  no quadro de tão bela família, embora, cá entre eu e eles, soubéssemos que de alguma maneira ela se encontrava ali.
Eu me senti como um antigo fotógrafo lambe-lambe ao registrar aquela cena da família, pioneiro, desbravando a vida essencial das ruas, das praças e dos campos de antigamente. Na contramarcha da modernidade, a Minas do meu retrato, de sua gente simples, dos bagageiros, das bodegas e capelas, estava ali, inteira, com toda dureza  e ternura, seu espírito circunspecto, recatado,  povoando as calçadas e estradinhas de chão batido de seu interiorzão.
Fernando Campanella  










2 comentários:

  1. Que delícia ler a sua crônica, Fernando. Fiquei aqui imaginando a cena. Essas imagens nos fazem voltar no tempo.
    A foto também ficou uma beleza.

    Grande abraço.

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  2. Gostei da foto e então loi a crônica. A linguagem está muito boa, cria aos poucos o cenário, os personagens, que se tronam cada vez mais vivos. Valeu a pena.
    Abraços.

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