terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

CAMPO DE TREVOS


Flor do trevo, foto by
Fernando Campanella

O coração em vinho tinto,
as pedras lisas
e ao dobrar de cada esquina
um dragão.
Vamos, me dê a mão.
No amor em seus labirintos
nos percamos com cuidado -
ah, este risonho campo de trevos,
minado.


Fernando Campanella

PASSEIO NO JARDIM


Foto by Fernando Campanella

Solitário cri de um grilo
que acasala outros cris
e crispa de amorosa eternidade
a sonolência úmida do jardim.

Fernando Campanella

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

FOLIA DE MINAS

Foto by Antonio Carlos Januário

Suspiram os saudosistas pelos antigos carnavais. Pura nostalgia! Cada um vive o carnaval de sua época. E cada época tem sua cota de encantos e decepções.

Para os foliões de hoje, o carnaval-espetáculo, os trios-elétricos, a música da Bahia, os grandes palcos montados para os shows de rua, e até o funk, falam na linguagem que entendem, e os motivam para a celebração festiva dos quatro dias.

Porém, se eu fosse criar um enredo para uma escola de samba, o tema seria ‘Maria-fumaça, me leva para os antigos carnavais de Minas’. Uma homenagem à grandeza local, fora dos grandes circuitos, do eixo das noticiadas folias do Momo pelo país.

A frente de uma comprida locomotiva seria o abre-alas, em formato de uma máscara estilizada, de onde se desprenderiam empuxos de fumaças de confetes em várias cores. As alas do comboio seriam vagões, com nomes de antigos blocos, ranchos, cordões e escolas de samba de cidades de todo o estado. Nomes como ‘Sossega, leão’, ‘Bando da lua’, ‘Caricatos de Araxá' , e mais e tais, puxariam este encantado trem da memória dos carnavais de Minas.

Dentro dos vagões, viriam os participantes, com as indefectíveis fantasias: arlequins, malandros, espanholas, pierrôs, colombinas, gondoleiros de Veneza, baianas, índios... Todos vestindo a camisa dos seus blocos, entoando as respectivas marchinhas, sambas-enredo, nas mil e uma noites de imersão na euforia.

Pessoas de Santa Rita do Sapucaí apontariam para o vagão de sua cidade, com os blocos arqui rivais, Ride Palhaço e Democráticos’, comentando: 'este desfile de meu bloco foi o melhor carnaval de todos os tempos.’ Uma senhora de Mariana se encantaria com o tradicional bloco do Zé Pereira, seu vagão apinhado dos bonecos que há 155 anos alegram o carnaval local. E habitantes de Leopoldina se divertiriam com seus ‘blocos dos sujos’, com o mestre Vitalino Duarte, que nos carnavais antigos saía pelas ruas da cidade com uma uma burrinha, cantando:

'Arranjei uma burrinha,
Para brincar no carnaval,
Ai, ai, ai!
Ai, ai, ai!
A orelha era de palha
E o rabo de jornal...'

Juiz de Fora veria um de seus empolgantes carnavais, o de 1966, quando uma escola de samba apresentou o enredo ‘Mascarada Veneziana', colocando na avenida seu primeiro carro alegórico, uma piscina com uma gôndola a flutuar. Belo horizonte teria seus ‘corsos’ representados, carros conversíveis enfeitados com serpentinas, bandeirolas, transportando, belas mulheres e figuras da sociedade local.

Cada um dos assistentes traria para sua cidade um imaginário, merecido troféu de melhor carnaval do mundo, na mais saudável , disputada, alegria.

O enredo teria como costura estas celebrações já idas de gerações e gerações, a explosão dos sentidos manifestando-se nos mais remotos , mineiros grotões.

Estaria, certamente, fora da mídia esta minha inusitada escola. Os grandes jornais e a TV não teriam interesse no carnaval de uma Capelinha, ou de uma Santa Maria de Itabira, por exemplo. Não importa. Minha locomotiva passaria como a vida que em todos os cantos acontece, e passa. Vida que no carnaval se disfarça, de si própria escapa, dando seu grito de alegoria.

A comissão de frente puxaria o desfile , cantando:

‘Maria fumaça, ô, ô,
me leva pra folia de Minas,
pro bloco do Uai,
pro esquindô, esquindô...’

Fernando Campanella, 20 de Fevereiro de 2009


Fontes de Pesquisa: 1) Site: 'Brasil: História e Ensino', 'Uma breve história do carnaval', por Natania Nogueira. 2) Site: rota do samba.com , 'Carnaval em Juiz de Fora', por Renan Alexandre Ligabo de Carvalho e Victor de Oliveira Rosa, com citações da Revista 'Em Voga', e Coimbra (1994).

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

CISNE ( MINI FÁBULA DAS EXPECTATIVAS)


Foto de Luis Dufaur (luzesdeesperança.blogspot.com)

Se a galinha botasse um ovo
e ao redor dela nos postássemos
na expectativa de um cisne
o espanto nos traria
uma anatomia de galinha
mas o ávido desejo divulgaria
que um príncipe nascera
em suaves carícias de plumas.

Fernando Campanella (1983)

ANTÍQUA (IV)


Foto by Fernando Campanella

Sopra-me
que ao de onde procedo
haverei com levezas
de, então, retornar.
Com o calor de teu sopro,
de teu insuflar,
meus versos,
como pelúcias e pétalas,
no regaço das tardes,
no jardim das estrelas,
haverão assim de cair,
haverão de pousar.

Fernando Campanella

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

SINE QUA NON*


Foto by Fernando Campanella

Ah, este instante na tarde
quando o sol bate seu ponto
e se despede
de um afugentar as sombras,
de mais um dia de claro ofício.
Pago, pelos préstimos,
ao operário sine qua non
com a moeda de meus sonhos,
um certo dourar de meus sentidos.
Logo à noite, vou desejar
que no outro dia retorne,
que nunca me deixe sem seu brilho.
Posso, então, a alma estendida
ressonar: a luz, eu sei,
em seu percurso me busca
e sempre haverá de me achar.

FernandoCampanella

* Sine qua non: latim, locução adjetiva,
'sem o qual não'. Espressão com que se
qualifica uma cláusula ou condição sem
a qual não se fará certa coisa.

VERSOS PARA MINAS


Foto by Fernando Campanella
(Pico do Papagaio, Aiuruoca, sul de MG)


...O que me fica de Minas
mais que os rumos das inconfidências
são as ossadas azuis distantes de seus montes
indecifráveis dinossauros férreos
incrustados na vastidão da alma...

(Trecho de 'Versos para Minas',
por Fernando Campanella)