terça-feira, 7 de abril de 2009

A FLOR(MAIS)BELA DO ALENTEJO


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VERSOS DE ORGULHO

O mundo quer-me mal porque ninguém
Tem asas como eu tenho ! Porque Deus
Me fez nascer Princesa entre plebeus
Numa torre de orgulho e de desdém.

Porque o meu Reino fica para além ...
Porque trago no olhar os vastos céus
E os oiros e clarões são todos meus !
Porque eu sou Eu e porque Eu sou Alguém !

O mundo ? O que é o mundo, ó meu Amor ?
__O jardim dos meus versos todo em flor ...
A seara dos teus beijos, pão bendito ...

Meus êxtases, meus sonhos, meus cansaços ...
__São os teus braços dentro dos meus braços,
Via Láctea fechando o Infinito.

Florbela Espanca


VOZES DO MAR

Quando o sol vai caindo sobre as águas
Num nervoso delíquio d’oiro intenso,
Donde vem essa voz cheia de mágoas
Com que falas à terra, ó mar imenso?...

Tu falas de festins, e cavalgadas
De cavaleiros errantes ao luar?
Falas de caravelas encantadas
Que dormem em teu seio a soluçar?

Tens cantos d'epopeias?Tens anseios
D'amarguras? Tu tens também receios,
Ó mar cheio de esperança e majestade?!

Donde vem essa voz,ó mar amigo?......
Talvez a voz do Portugal antigo,
Chamando por Camões numa saudade!

Florbela Espanca


TRÊS MAGOS


Foto by Fernando Campanella

Subo novamente pelas encostas de Minas, a cidade vista um pouco mais ao alto. Passo por árvores decrépitas e seus parasitas como hóspedes, troncos abraçados em remoto apego de amor, nuvens furtando cores ao sol poente. Ao longe, avisto a sentinela dos montes, contrafortes delimitantes da geografia onde me espaço.

Na sinuosa estrada, cercada por matas, coelhos selvagens saltam, distraídos, dos lados. E voam corujas à boca da noite. Um enorme pássaro em retardo ao ninho ameaça à minha frente as poderosas asas.

Impressões de um crepúsculo, de um prenúncio de noite quando a natureza se insinua e me inspira compaixão, uma doce arritmia, com seus traços inusitados.

De repente, do nada, de um sortilégio no céu, uma meia-lua e três risonhos magos ( ou três comadres Marias) desejam-me uma boa noite, ao esmorecer de mais um dia.

Fernando Campanella

domingo, 5 de abril de 2009

KATHERINE MANSFIELD



http://www.nzetc.org/etexts/
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"Sou tão aferrada à idéia de todas as mulheres terem um futuro definido... A idéia de sentar-me e esperar por um marido é absolutamente revoltante e é realmente a atitude de muitas mulheres..." (Katherine Mansfied, citação tirada do site 'The New Zealand Edge')


Katherine Mansfield teve uma grande importância em minha iniciação literária. Seu conto ‘ A lição de Canto’ foi dos primeiros que li, com que me identifiquei, referência e suave presença ao longo dos anos.

Nascida em Wellington, Nova Zelândia, em 1888, suas primeiras estórias aparecem no jornal do colégio quando ainda menina. Mudou-se para Londres em 1903 para completar sua educação no Queen’s College. Sentiu-se mais atraída pela música, de início, era uma talentosa violoncelista. Retorna à Nova Zelândia em 1906 quando começa a escrever seus primeiros contos. Não se readaptando, tem permissão do pai para voltar à Inglaterra e nunca mais retornou à sua terra natal. Publica seu primeiro livro de contos, ‘Em uma pensão alemã’, em 1919.

Com ‘The Garden Party e Outras Estórias’, publicado em 1922, obteve grande aclamação da crítica. Nesse ano divisor de águas do Modernismo, a escritora, com esse livro, segundo o New Zealand Edge, ao lado de James Joyce (Ulysses) , T.S.Eliot (The Waste Land) e Rilke (Duino’s Elegy), ampliou o alcance da literatura ao tratar de problemas de consciência individual.

Nos contos de Katherine Mansfield que li temos esse fluxo de consciência tomando as rédeas de uma narrativa quase sem acontecimentos, carente de trama. O ambiente externo, as paisagens e os outros personagens dos contos aparecem mais como projeção, ou contraponto a um estado de espírito, de ânimo, da personagem central. O fluxo de consciência é a própria narrativa.

Em ‘A Lição de Canto’, os acontecimentos são mínimos. Miss Meadows, uma professora de música de um colégio de meninas, caminha para sua aula matinal ‘com o desespero – um desespero rude, lancinante – cravado fundo no coração, como um punhal cruel’. Com trinta anos, solteirona, arrumara um pretendente, Basil, de quem ficara noiva. Seu desespero ao se dirigir à sala de aula foi provocado por uma carta recebida em que o amante lhe anuncia a desistência do noivado. O desespero poderoso, que se alia a um frio dia de outono, influencia a escolha da música para o ensaio das alunas, e a essas contamina. Um telegrama do noivo que ela recebe quase ao final da aula provoca toda iluminada transformação em seu estado emocional.

Em ‘A Felicidade (Bliss), o estado de espírito da personagem central dá o tom. Bertha Young, uma mulher casada, de trinta anos, “... tinha momentos... em que sentia uma vontade louca de sair correndo, ao invés de andar normalmente, de ensaiar passos de dança pela calçada, de rodar aro, jogar uma coisa para cima e apanhá-la outra vez, ou ficar parada e rir de ... nada...” E o conto se desenvolve sob o efeito da extrema felicidade dessa esposa que organiza um jantar para o marido e alguns amigos. Mrs. Young flutua nesse êxtase até que um acontecimento cruel, inesperado, faz sua alma despencar dolorosamente ao solo.

Em ‘A Casa de Boneca’ , para mim um dos grande contos da literatura universal, Katherine Mansfied tece a estória em torno da chegada de uma casa de boneca no quintal de uma família de classe média alta, e da excitação das crianças com o novo brinquedo. Duas meninas do bairro, irmãs, de classe social mais baixa, são proibidas pelos adultos da casa de visitar aquela maravilha, aquela casa tão real que mais parecia um sonho. E nas entrelinhas do conto o que se lê é toda a crueldade do mundo infantil, alimentado pelas neuroses e preconceitos do mundo adulto.

Páginas e páginas poderiam ser escritas sobre Katherine Mansfield. Há, além dos contos que escreveu, suas cartas, seu diário, poemas, e a tentativa de uma novela. A escritora teve uma vida tumultuada, um casamento desfeito no dia seguinte à cerimônia, um constante busca de cura para a tuberculose em spas, centros místicos, sem sucesso. Foi vitimada pela doença em 1923, aos trinta e quatro anos.Optei por uma biografia sucinta, priorizando comentários sobre alguns de seus contos que li.

Virginia Wolf, escritora de seu círculo de amizades, declarou que Katherine Mansfield produziu a única escrita de que foi invejosa. Com a expansão da vida interior de seus personagens em suas narrativas, Katherine pode ter exercido algum tipo de influência sobre a criadora de
‘Orlando’.

Com a valorização do conto, nos anos posteriores à sua morte, Katherine foi aclamada como revolucionária neste gênero, alçada à posição de grande escritora da literatura universal.

À época em que escreveu ‘Prelúdio’, estória com uma base autobiográfica, ela nos deixa, em uma carta que escreveu, esta sensível descrição impressionista de sua terra natal:

“... eu tenho uma perfeita paixão pela ilha onde nasci. Bem, no comecinho das manhãs por lá eu me lembro de ter sentido que esta pequena ilha submerge no mar azul-escuro à noite para surgir novamente apenas ao raiar do dia, toda suspensa por lantejoulas brilhantes e gotas resplandecentes...
Fontes de pesquisa:

1) The New Zealand Edge ( http://www.nzedge.com/heroes/mansfield.html)

2) Aula de Canto, Katherine Mansfield, tradução de Edla Van Steen e Edu-
ardo Brandão, Global Editora, 1985.

3) Vídeo com dados biográficos da escritora, e a adaptação de seu conto 'Miss Brill' (A Senhorita Brill) em filme:

http://www.youtube.com/watch?v=NtpKpKb7inM

UM SONETO PARA KATHERINE MANSFIELD


http://www.persephonebooks.co.uk
/assets/images/book_
photos/katherine_mansfield.jpg

O teu perfume, amada — em tuas cartas
Renasce, azul... — são tuas mãos sentidas!
Relembro-as brancas, leves, fenecidas
Pendendo ao longo de corolas fartas.

Relembro-as, vou... nas terras percorridas
Torno a aspirá-lo, aqui e ali desperto
Paro; e tão perto sinto-te, tão perto
Como se numa foram duas vidas.

Pranto, tão pouca dor! tanto quisera
Tanto rever-te, tanto!... e a primavera
Vem já tão próxima! ...(Nunca te apartas

Primavera, dos sonhos e das preces!)
E no perfume preso em tuas cartas
À primavera surges e esvaneces.

Vinícius de Morais



"Vinicius, com este soneto, presta uma homenagem a Katherine Mansfield, nascida da Nova Zelândia e desde há muito considerada uma das melhores escritoras da língua inglesa.Extraído do livro "Vinicius de Moraes - Poesia Completa e Prosa", Editora Nova Aguilar - Rio de Janeiro, 1998, pág. 250. Abaixo, a tradução do soneto para a língua inglesa, realizada por Regina Werneck:"


SONNET TO KATHERINE MANSFIELD

Your perfume, beloved — in your letters
Reborn, blue...— it's your afflicted hands!
I remember them white, light, withered
Pending along abundant corollas.

I remember them, I go... in lands gone through
I inhale it again, here and there awakened
I stop; and so close I feel you, so close
As if in one we had two lives.

Weeping, so little pain! so much I wished
So much to see you again, so much!... and the spring
Already comes so close!... (will you never part

Spring, from dreams and from prayers!)
And in the imprisoned perfume in your letters
To the spring appears and evanesces.

Vinícius de Morais


From : http://www.releituras.com/viniciusm_katherine.asp

A POEM BY KATHERINE MANSFIELD


Primrose1a.jpg

A FINE DAY

After all the rain, the sun
Shines on hill and grassy mead;
Fly into the garden, child,
You are very glad indeed.

For the days have been so dull,
Oh, so special dark and drear,
That you told me, "Mr. Sun
Has forgotten we live here.

"Dew upon the lily lawn,
Dew upon the garden beds;
Daintly from all the leaves
Pop the little primrose heads.

And the violets in the copse
With their parasols of green
Take a little peek at you;
They're the bluest you have seen.

On the lilac tree a bird
Singing first a little not,
Then a burst of happy song
Bubbles in his lifted throat.

O the sun, the comfy sun!
This the song that you must sing,
"Thank you for the birds, the flowers,
Thank you, sun, for everything."

Katherine Mansfield

sábado, 4 de abril de 2009

MARGEM


Foto by Fernando Campanella

O rio que corre por minha aldeia
são martins-pescadores
em odores do mundo,
são cílios cortados
em manchas lubrax.
Mas ainda leva o céu
na envergadura
ainda estende artéria
para o mar.
Nele posso sentar-me à margem
atirar uma pedra na água
em meus silêncios concêntricos
velejar.

Fernando Campanella









quarta-feira, 1 de abril de 2009

NESTE, OU EM OUTROS MUNDOS


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O mundo apagou as luzes no sábado passado, 28 de Março. Monumentos, marcos históricos, edifícios famosos das grandes cidades do mundo tiveram a iluminação desligada por uma hora em protesto contra o aquecimento global, aderindo à proposta ‘Hora do Planeta’ da ONG ambientalista Worldwide Fund for Nature (WWF).

Tal iniciativa em nível mundial, assim como outras voltadas para a preservação do meio-ambiente, sempre traz à tona a indagação urgente, crucial, sobre o futuro da humanidade na terra. E as perspectivas da sustentabilidade de nosso planeta são um tanto quanto sombrias, como avisam cientistas e ambientalistas, uma vez que os focos nevrálgicos de sua depredação crescem em alarmante proporção geométrica.

A inquirição sobre o destino global faz, assim, com que ativemos nossa imaginação, projetando cenários, alguns apocalípticos, outros um pouco mais otimistas. Entretanto, são tantas as variáveis envolvidas quando se questiona nosso futuro que tais projeções não podem passar mesmo de especulações.

Sobreviveria nossa espoliada Terra aos malefícios que lhe são causados, ou seria ela , com tudo que comporta, que nela vive, restituída ao nada, à condição de partícula, de poeira existencial? Ou colonizaríamos outros mundos, uma vez esgotada a viabilidade, e os recursos, de sobrevivência neste ambiente em que ora vivemos?

Em ‘2001, Uma Odisséia no Espaço’, de 1968, aclamado por muitos críticos de cinema como o melhor filme de ficção científica de todos os tempos, o diretor Stanley Kubrick e o escritor e roteirista Arthur Clarke se reuniram para nos apresentar, em ficção, essa alternativa de povoamento de nosso satélite, a lua, e de outros planetas do sistema solar.

Porém, o que engrandece tal filme não são suas projeções de colonização de outros mundos, nem seus efeitos especiais revolucionários, ganhadores do Oscar à época. Seu conteúdo filosófico é o que o torna referência como grande obra do cinema. Kubrick e Clarke propõem uma alteração da consciência do homem para que empreendamos a viagem cósmica a que parecemos estar pré-destinados.

Essa alteração implicaria, a meu ver, em uma percepção mais profunda de nossa insignificância e solidão perante o universo e da grandeza que podemos adquirir na cooperação, no respeito à existência de tudo que nos precede, nos deu origem, e conosco convive. Imbuídos dessa consciência não mais desbravaremos mundos para posteriormente os depredarmos, os destruirmos.

Com a consciência afinada aos postulados da ética, à quintessência das religiões, da poesia, dos ideais mais nobres da humanidade, será possível cruzaramos o portal das estrelas, atendendo ao chamado do poeta Yeats:

“... Vem embora, ó criança humana,
Para as águas, para esta natureza,
Com uma fada, de mãos dadas,
Pois, mais do que possas compreender,
O mundo é crivado de lágrimas."
(W.B.Yeats, Infância Roubada*, livre tradução de Fernando Campanella)

Neste, ou em outros mundos, teremos, assim, o essencial encanto, essa nossa infância restituída , talvez já sem o nosso corpo físico, vibrando em outros níveis de energia, como filhos renascidos das estrelas, do universo.

Fernando Campanella, 01 de Abril de 2009.


Loreena Mckennit sings 'Stolen Child', lyrics by W.B. Yeats

http://www.youtube.com/watch?v=Q7TkyxVIfuk


STOLEN CHILD

WHERE dips the rocky highland
Of Sleuth Wood in the lake,
There lies a leafy island
Where flapping herons wake
The drowsy water rats;
There we've hid our faery vats,
Full of berrys
And of reddest stolen cherries.
Come away, O human child!
To the waters and the wild
With a faery, hand in hand,
For the world's more full of weeping than you can understand.
Where the wave of moonlight glosses
The dim gray sands with light,
Far off by furthest Rosses
We foot it all the night,
Weaving olden dances
Mingling hands and mingling glances
Till the moon has taken flight;
To and fro we leap
And chase the frothy bubbles,
While the world is full of troubles
And anxious in its sleep.
Come away, O human child!
To the waters and the wild
With a faery, hand in hand,
For the world's more full of weeping
than you can understand.
Where the wandering water gushes
From the hills above Glen-Car,
In pools among the rushes
That scarce could bathe a star,
We seek for slumbering trout
And whispering in their ears
Give them unquiet dreams;
Leaning softly out
From ferns that drop their tears
Over the young streams.
Come away, O human child!
To the waters and the wild
With a faery, hand in hand,
For the world's more full of weeping than you can understand.
Away with us he's going,
The solemn-eyed:
He'll hear no more the lowing
Of the calves on the warm hillside
Or the kettle on the hob
Sing peace into his breast,
Or see the brown mice bob
Round and round the oatmeal chest.
For he comes, the human child,
To the waters and the wild
With a faery, hand in hand,
For the world's more full of weeping than he can understand.

(Literature Network » William Butler Yeats » The Stolen Child)