sexta-feira, 23 de agosto de 2013

À NOITE



À noite seguimos descuidados,
por árvores em renques de aromas
entre pétalas em sono de orvalho.

À noite sonhamos em um céu de metáforas
onde a mínima lua
é unha que arrepia segredos,
estrelas são hangares pequeninos,
a sombra, um lobo dócil que nos chama.

À noite, rompemos degredos,
volvemos aos ninhos,
somos meninos –
infância distraída de seus medos.

Fernando Campanella


quinta-feira, 15 de agosto de 2013

EFEMÉRIDES (AGOSTO)

Foto por Fernando Campanella

Trânsfuga de agosto -
um prurido rouco -
quase um quê de mim
em ipês amarelos e roxos. 

Fernando Campanella

sábado, 3 de agosto de 2013

LA CAMPANELLA

Foto por Fernando Campanella

Aquela senhora tem um piano
Que é agradável mas não é o correr dos rios
Nem o murmúrio que as árvores fazem...
(Alberto Caeiro)


Aquela senhora toca um piano na tarde,
as teclas ágeis ondulando em mimos,
em vibrantes sinos delicados.
Imersos cada qual em sua dor, em sua história,
uma sintonia, de repente,  nos toma
e o murmúrio das árvores nos chora –
uma arte – rio profundo, sem corte –
um outro azul que nos sonha.

Fernando Campanella


quarta-feira, 31 de julho de 2013

ALGO NAS FLORES

Foto por Fernando Campanella

Há algo de óbvio nas flores,
admito, mas reincido -
a beleza requer exercício.

Fernando Campanella

sexta-feira, 19 de julho de 2013

SAL VERDE



Araucárias, fotos por Fernando Campanella



"...E se o sal perder sua força, com que outra coisa se há de salgar? Para nada mais fica servindo, senão para se lançar fora e ser pisado pelos homens". (Mateus, 5:13)
Nas enciclopédias multimídias do terceiro milênio
os dinossauros verdes do mundo
serão o cult da garotada - teóricos vão digitar 
sobre a extinção das árvores em massa. 

Fernando Campanella



domingo, 14 de julho de 2013

ARTE-FINAL

Foto por Fernando Campanella


"Mais do que ningém
posso de minha sorte reclamar
e, ao mesmo tempo,
com ela me alegrar..."

(Guillaume de Machaut, compositor 
e poeta francês do século XIV)

Desenho a melancolia
numa folha de papel.

Que minha dama, 

de longa data e tediosa face, 
pudesse, transposta de mim,
tão graciosa sagrar-se,
eu não sabia.

Fernando Campanella

quarta-feira, 10 de julho de 2013

OFERENDA


Foto por Fernando Campanella

Elevo a ti
o cálice profano de minha agonia

minhas carrancas são esconjuros
de tua longa memória que me vê.



Minas de meus tormentos -
mãe e madrasta de meus versos -
duras noites me impuseste.

Acolhe tua criança,
dá-me de teus braços

a endorfina que amanhece.

Fernando Campanella