sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

RESPONSU

Foto por Fernando Campanella

Naquela estradinha de terra que me levava ao Pantano dos Rosa, Zé Grandão, em sua carroça, levando silagem ao gado, com o cigarro de palha na boca, deteve-se em seu trajeto e contou-me por quase um par de horas um tanto da história de sua vida. 

A certa altura, disse-me:

- Minha madrinha tem responsu com Santa Luzia.

- Responso? - perguntei.

- É, responsu. Quando tem uns pobrema dos bravu comigo, qui num consigo resolvê, vou na casa dela, tomo a bênção e mostru a fechadura. Ela reza então pra santa, no altarzinho da sala, se sacodi em tremura e me diz: "Pode ir, meu fio, tudo se ajeita, o que é pro teu bem já tá marcadu."

E completou:

- E eu sempri encontrei a chavi.

(Fernando Campanella)


quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

O LIVRO DE CESÁRIO VERDE

Fotos por Fernando Campanella

A dor humana busca os amplos horizontes
E tem marés, de fel, como um sinistro mar.
(Cesário Verde)

(Crônica dedicada ao meu amigo fotógrafo e poeta Warllem Silva)
É tão revigorante fecharmos os olhos às vezes, lembrando-nos de alguma viagem de nossos sonhos, realizada e completa, algo fora, bem longe, da sucessão de nossos costumes e hábitos.
Quando cerramos as pálpebras, é aquela memória grata que nos vivifica. Minha ida a Arraial D’Ajuda, Bahia, foi uma dessas viagens, o lugar ideal, com as pessoas e os passeios certos, tudo parecendo ter sido planejado para a mais intensa e feliz fruição.
Eu poderia descrever as maravilhas daquela semana no sul da Bahia, apresentando um registro cronológico de tudo que conheci, dos sabores, aromas e cores que vivi, restaurantes, praias e centros históricos por onde passei, mas não tenho o hábito para a escrita de diários, ou folders de companhias de turismo.
Assim, bem além da cinematografia daquelas horas vividas, e não descuidando da importância das emoções, alegres emoções, partilhadas com amigos, é a poesia, sobretudo uma modesta reflexão sobre o valor dos poetas, o que me motiva a escrever.
No último dia de nossa viagem, visitamos um sebo em Porto Seguro. Um local muito aprazível, com seus livros meticulosamente organizados, e um espaço, com decoração clássica e aconchegante, para café.
Após entrarmos à livraria, um grande amigo fotógrafo, anfitrião de minha estadia em Arraial, deteve-se diante de uma estante na seção de poesias, logo encontrando o livro “Mensagem” de Fernando Pessoa, o qual comprou.  Até aí, tudo normal, mas meu amigo também adquiriu “O Livro de Cesário Verde”, o que me deixou, mais que surpreso, maravilhado.
Comprar um livro do Pessoa, tão renomado, embora para poucos, enquadra-se nas preferências de quem gosta de poesia. Quanto ao livro do Cesário Verde, poeta, cujas criações foram desprezados pela crítica de sua época, mas louvado por Pessoa, que apreciou, "além da sensibilidade e beleza de seus versos, a sua extrema lucidez da visão do mundo", já se torna mais raro, bem mais raro, comprá-lo.
Meu amigo, além de exímio fotógrafo, é também poeta. Daí talvez se justifique aquela descrição "...é um poeta para poetas", aplicada, neste caso, a Cesário Verde. Ao vê-lo adquirir o livo, lembrei-me imediatamente de um poema de Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa, que em um trecho nos diz:
Ao entardecer, debruçado pela janela,
E sabendo de soslaio que há campos em frente,
Leio até me arderem os ohos
O livro de Cesário Verde...
(Alberto Caeiro, O Guardador de Rebanhos, poema III)
Eis, assim, o poder, a continuação da poesia, mesmo a de autores menos conhecidos, visto que  que os poetas se buscam, se entendem, e mutuamente se inspiram. Gratificante, saber que Cesário Verde, obscuro à mídia, ao grande público, possa ser procurado, e lido, mais de cem anos após seu falecimento. E como não desejar que alguém, talvez um poeta, também leia meus versos, em algum sebo, futuramente, quando eu já não me encontrar “no quadro sucessivo das imagens externas / a que chamamos o mundo”, nos versos de Álvaro de Campos. Se houver ainda sebos.
Fernando Campanella 




domingo, 12 de janeiro de 2014

ENTRE POLOS

Foto por Fernando Campanella

Há uma luz que incide em nossos corpos,
às vezes vaga, às vezes lume,
às vezes arco que constela de cores
as vias tortuosas de nossa estrada. 
Se enfrentei os mastodontes da noite
e minha armadura, ainda assim, 
revestiu-se de nada, eu me rendo:
esta luz que oscila entre nossos polos,
ora magra, ora vasta, é ganho, é graça -

desenha-me um azul no glaciar da alma
e me retrata. 

Fernando Campanella


domingo, 29 de dezembro de 2013

GAVIÃO-FUMAÇA

Foto por Fernando Campanella

- Tio Raimundo, um gavião desceu no quintal e quase pegou  o sabiá na gaiola. Eita bicho malvado.

- Foi o sabiá que te dei, foi?

Tio Raimundo trouxera o pássaro ainda filhote para o sobrinho. O bichinho caíra do ninho e seria presa fácil de alguma cascavel. O menino o criara em uma bela gaiola com todo carinho, alimentando-o, conversando com ele na linguagem que só a alma em estado graça pode ter  com os bichos. Haviam se tornado grandes amigos.

- Bicho malvado o gavião, tio – insistiu o menino.

- Não é bem assim, meu filho – disse o tio com aquela sabedoria de quem permaneceu criança  e tem um pacto secreto com a natureza, característica que o sobrinho, ainda sem racionalizações, mais admirava no tio.

- Não é bem assim não –insistiu o tio – nunca chame os animais de malvados, a natureza deles não é a mesma dos homens. Vem cá, senta aqui, vou te contar uma coisa que vi, que vai fazer você mudar esta cabecinha.

O sobrinho sentou-se bem junto do tio, e atentou os ouvidos, presa do encanto das histórias que aquele homem sempre contava.

- Uma vez, voltando da cidade, passei pelo sítio  do João Teodoro, lá pelas bandas do Paiolinho. Ao dobrar a curva depois da casa do João, deparei com um fogaréu na mata, desses incêndios criminosos tão comuns por aqui,  coisa de doer a alma. Parei meu carro, meio pesaroso, sabe, pois a cena era por demais triste.  Em uma árvore alta , próxima ao fogo, vi um gavião muito compenetrado, olhando para aquela danação  toda. O bicho estava triste, posso te jurar, eu senti isso pelo jeito que olhava a mata em chamas. Deu até vontade de chorar. Ali naquele incêndio provocado pelo João Teodoro provavelmente  haviam morrido a fêmea e os filhotes em uma daquelas árvores mais altas. O gavião macho ficara sozinho, soziinho  no mundo. Quando voltava com algum alimento para a família deve ter presenciado  toda aquela desolação.

- Nossa, tio, coitado do gavião.

- Sim, meu filho, o bicho estava sofrendo, imagina perder toda a família naquele escarcéu  de fogo... Foi uma das cenas mais doídas que já vi na vida. Se a gente se põe no lugar daquela ave, menino, sentindo a perda de uma família, podemos sentir o que o animal estava sentindo.

O menino ficou em silêncio, imaginando aquelas chamas, sentindo toda a dor do gavião.

- Mas, veja bem – continuou o tio – agora vem a parte mais bonita da história... Alguns meses depois quando por aquele lugar passei  vi um gavião em uma árvore junto a alguns bem-te-vis ainda filhotes.  Pareciam alegres, brincalhões, atrevidamente amigos. E pensei: como pode? Gaviões são os piratas dos ares, por todos bichos menores temidos. Eu não tinha explicação para aquele milagre.

- Então me lembrei, só podia ser isto: o pirata encontrara seu tesouro definitivo, uma família, ficara amigo de um casal de bem-te-vis com seus filhotes. Fiquei ali por algum tempo, observando e logo chegaram os pais com alimento. Tudo parecia em ordem, em paz. Eu nem acreditava no que via...

Mais tarde,  após o tio ter ido embora,  ao contar aquela triste e ainda linda história  ao pai, o menino dele ouviu:

- Olha, meu filho, é bom que você saiba, o tio Raimundo é boa pessoa mas imagina demais. Aqueles gaviões que ficam perto do queimadas na roça são chamados de gavião-fumaça. Ficam ali um tempão à espreita,  esperando os bichos saírem em desespero para atacar as presas. Esta estória de amizade deste bicho com os pássaros é pura fantasia.

O menino, decepcionado, sentiu-se bastante confuso  com a explicação do pai que  já fora sitiante  e entendia de bichos. Mas  lembrou-se do fogo na mata, da violência do ato e,  por algo inexplicável em sua alma, decidiu  adotar a história do tio como a  mais necessária, inquestionável   verdade. 

Fernando Campanella, 2009.



terça-feira, 3 de dezembro de 2013

AQUARELA DIGITAL

Foto por Fernando Campanella

bananais
lírios do brejo
reticências e sapos

em transparências digitais
a aquarela de Minas
é meu exílio na tarde

Fernando Campanella


quinta-feira, 21 de novembro de 2013

MAGNUM MYSTERIUM




Fotos por Fernando Campanella

Minha mãe chorava em terço,
meu pai benzia vacas no quintal. 
À porta de Minas, para seus entraves,
entre Deus e o curisco,
sempre havia uma cruz.

Sobre a palavra, edifico teu reino,
ó magno Mistério.  Minha chave -
deixar que te apropries das formas
e que dês corpo à luz.  

Fernando Campanella


sábado, 16 de novembro de 2013

PRIMEIROS TRABALHOS


De repente, este espaço vazio,
vozes sumindo, o vento sussurrando
em folhas...

De repente, a memória das palavras,
imagem e som em filigranas...

(tua possibilidade espiada 
entre frestas de janelas e portas)

Num lance de dados
te encontro, te acaricio, doce poesia...

Filtro emoções, recomponho o universo,
só, feliz, repentinamente...

(Fernando Campanella, 1982).

O poema de 1982  e a foto de 2007 acima foram dos primeiros trabalhos que fiz em poesia e fotografia.