quarta-feira, 20 de abril de 2011

OUTONO




uma aragem
uma estação
um rito de passagem

um cão sem pelo
em cima do muro
não é lava nem gelo
nem claro nem escuro

uma luz quase sedada
em transição

(as árvores confrangem
os ursos já estendem as camas)

um sopro
um verso
esta alma esvoaçada

uma folha de mim

à tua janela
deixada

Fernando Campanella, 2007


Fotos por Fernando Campanella

quarta-feira, 6 de abril de 2011

O GRANDE SILÊNCIO


Foto por Fernando Campanella


...Depois do terremoto veio um incêndio...
depois do incêncio um sopro suave

e algo de minhas entranhas sussurrou-me então

que eu não estava morto.


(Colagem poética com versículos adaptados da Bíblia Sagrada, Reis, 19:12 e versos do poema Antíqua por Fernando Campanella)



sábado, 2 de abril de 2011

OLHOS DE MINAS


Foto por Sônia Brandão
http://www.flickr.com/photos/sophiecarriere/


viajar por dentro de Minas é correr
um trem-memória sem disciplina
desdobrar-se em verdes -

capins, buritis, limão -

juncados ora cá, ora ali,
de tons-quaresmeira-acácia...

e mais verde: verde-neblina-araucária,
mata-fechada, verde-chuva-quase-exaustão...

às vezes voam garças, aldeias perpassam
vislumbram-se capelas
e vacas em ruminação...

e o trem avança
em sobe-e-desce estonteante
em quase náusea encantada...

já quando Minas para trás se deixa
e se enxerga um azul-distância
não, não é o céu, são outras serras
e para além delas eu-mineiro e o mar

lá são outros olhos
com que Minas precisa se mirar

Fernando Campanella

Meu agradecimento a minha amiga Sônia Brandão, autora do blog O PÁSSARO IMPOSSÍVEL (http://passaroimpossivel.blogspot.com) pela gentileza de conceder-me sua bela foto para esta postagem (acima) tirada na região de Delfinópolis, cidade próxima à serra da Canastra, sudoeste de Minas Gerais.



domingo, 27 de março de 2011

CAMPOS DE ARROZ (FIELDS OF RICE)



...encontre-me lá
à fímbria da tarde
quando pássaros voarem

sobre arrozais em flor...


(...find me there, where the birds fly
upon the fields of rice...)

Fernando Campanella, inspirado em 'Fields of Gold', por Sting.

(Poem by Fernando Campanella, inspired in 'Fields of Gold', by Sting)


Campos de arroz, fotos por Fernando Campanella


quarta-feira, 23 de março de 2011

O EU CONFESSO (FRAGMENTOS)




esta chuva de cristais ralados
cai sobre samambaias selvagens
nas fendas do muro ao lado



banho-me de minha antiguidade




e de certas naturezas chega-me o sopro
de um longínquo, bucólico daimon...

Fernando Campanella, 2007

(FOTOS: BROTOS DE SAMAMBAIA POR FERNANDO CAMPANELLA)


quinta-feira, 17 de março de 2011

UMA SÚBITA LUZ CORTA O TEMPO



...sei que os bezerros às vezes param
e me observam
quando por sobre o muro de silêncio os contemplo -
é quando uma súbita luz corta o tempo -

depois nada mais acontece
a não ser o delicado ruminar de bezerros
absolvendo a tarde de metafísicas inúteis

Fernando Campanella, 1993



Fotos por Fernando Campanella


(Meu agradecimento a Leila Laderzi, minha grande amiga, pela criação do novo cabeçalho para o blog.)

quarta-feira, 9 de março de 2011

CARNAVAL (IMAGEM E PALAVRA)



Mais uma vez, o bloco da Gertrudes saiu nas ruas nesta terça-feira passada de carnaval.
Sem o luxo das escolas de samba oficiais da cidade, as pessoas que o integram vestem-se como podem,como querem, a maioria dos homens e meninos com indumentária feminina. O que contam são a simplicidade e a vibração nas mãos e nos pés.



O bloco em questão é uma versão atualizada, ou até mesmo um prolongamento, do antigo Bloco da Vaca, que tanto nos alegrava nos antigos carnavais da cidade. Naquele tempo, os criadores e integrantes do grupo saíam às ruas também na terça-feira, pedindo algum trocado para beberem, um dos quais transportando um arcabouço de uma vaca preta que realmente excitava as
crianças (diferente da versão mais colorida e estilizada na foto acima).



No Bloco da Gertrudes da atualidade até meninos e meninas se juntam à bateria com seus instrumentos, como tambores, pandeiros, cornetas, etc.



Sempre presentes na celebração, a saudável irreverência e a descontração (ou desconstrução). Aqui, um rapaz vestido de noiva borbulha em alegria.



O batuque e as cores dos tambores dão o tom e o brilho essencial à festa.




Mesmo que não se toque bem algum instrumento, não há que se preocupar,um ritmo básico já basta, e , no conjunto,todos se harmonizam nesse evento, parte de uma celebração que acaba se transformando no maior espetáculo coletivo do planeta.



Mas há bons ritmistas participando da folia também.

"E no entanto é preciso cantar
Mais que nunca é preciso cantar
É preciso cantar e alegrar a cidade..."
(Carlos Lyra, Marcha da quarta-feira de cinzas)

...Pra tudo se acabar na quarta-feira? Em termos. O show continua e no ano que vem, no mesmo horário, no mesmo local, sob sol ou chuva, o Bloco da Gertrudes concentra-se para botar a alegria nas ruas novamente.

(Meus agradecimentos aos integrantes do bloco que tão bem me receberam e permitiram que os fotografasse.)

(Fotos e texto por Fernando Campanella)