segunda-feira, 9 de novembro de 2009

DA AMIZADE*


Foto by Fernando Campanella


"Não caminhe atrás de mim; eu posso não liderar. Não caminhe na minha frente; eu posso não seguir. Simplesmente caminhe a meu lado e seja meu amigo."
(Albert Camus)

Às vezes eu me quedo em certo alheamento do mundo, em uma espécie de mínima entropia, não com um sentimento de tristeza que às vezes nos torna amargos e fechados ao novo, mas com um recolhimento nostálgico, quase sereno , eu diria .

É quando desengaveto cartões postais antigos ( tenho o hábito de guardá-los) e neles reencontro aquelas palavras mágicas, carinhos de amigos distantes que em algum momento, não importa quão longe estivessem, lembraram-se de mim, e me escreveram. E atingiram meu coração com uma doce seta iluminada .

Tenho agora, em minhas mãos, e na memória mais grata, uma dessas mensagens que numa época talvez mais solitária de minha existência, chegou-me de alguém. Em alguns trechos dizia :

“... o frio é intenso, e a chuva constante atrapalha minhas andanças ... Ontem fiquei um tempão parado na Champs Eliysées, abrigado da chuva. Mas o que poderia se tornar um inconveniente, transformou-se em pura magia com as folhas que caíam em movimentos espiralados, a água nas largas calçadas refletindo as luzes de decoração natalina, o vai-e-vem das pessoas em seus modelões variados numa babel de cores e raças, e me peguei refletindo sobre muitas coisas ..”

e mais adiante:

“...mas quero principalmente agradecer a Deus por tudo o que Ele me proporcionou até agora.... saiba que entre tantos agradecimentos, um dos mais importantes foi por ele ter colocado você na minha vida. Acho que nunca te falei, mas eu te amo!”

Amizade é o elo 'achado' na escala da evolução. Mais que os presentes que eventualmente amigos nos ofertem, um certo olhar que pede pouso em nossas almas é o que de melhor recebemos de quem nos ama.

Sejam do nosso convívio físico, diário, ou os virtuais, sejam almas de poetas nos livros que lemos, ou vozes e imagens queridas dos que já nos deixaram, ou mesmo árvores, bichos, amigos transcendem as horas. São filamentos, extensões de anjos que abraçam a terra de pólo a pólo , e por cujas mediação e presença nossos 'ombros suportam o mundo'.

Fernando Campanella, 04 de janeiro de 2007


*Escrevi o texto na data acima. Quatro dias mais tarde tive a notícia do falecimento do amigo, nele referido, em condições trágicas. Aqui, minha gratidão, saudosa memória.

5 comentários:

  1. Primeiro lembrei-me dos cogumelos que a Sônia fotografou na semana passada. Os seus estão lindos (ainda preciso ver bem os da Sônia, diferentes - que bom que nada é igual neste mundo de coisas sempre as mesmas, como dizemos, mas que não são as mesmas).
    Agora, a crônica surpreendeu-me. Sempre guardamos a dor na manga - ou no baú, na gaveta, em algum escaninho da memória - para espicaçar-nos de repente, lembrar-nos de que ela existe.
    A dor também faz parte da beleza, torna mais concreta a beleza. A sua crônica contém muita beleza e guarda escondida a dor - para que fique mais bem gravada no leitor.
    Um grande abraço, Campanella.
    Brandão.

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  2. Sim, sim... quem encontrou um amigo encontrou um tesouro, amizades transcendem os tempos, as palavras, a eternidade. É sem dúvida uma linda e bem escrita crônica! Parabéns! Abraço!

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  3. Boa noite, meu amigo!

    Achei linda a tua referencia ao advento da amizade como "uma doce sete iluminada" que atinge o nosso coração...

    e me sinto muito feliz em saber que essas "setas" também nos podem atingir através da virtualidade dos atuais meios de comunicação. Afinal, tenho meu coração "cativado" por amigos queridos assim... como você!

    Um beijo grande!

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