terça-feira, 12 de janeiro de 2010

CONFESSIONAL


Foto by Fernando Campanella


A quantas anda minha poética neste fim de tarde de domingo, no secreto limo deste ar molhado? Penso em famílias recolhidas, sinto o tempo instilando as horas... Eu não queria ser este ninho sem pássaro.

Desterro a memória de tudo que jaz em mim em mim, e me calo, dói-me saber que algum descuido, um sortilégio já inalcançável talvez tenham me feito assim.

São tantas as saídas, tenta-me a roda do mundo : buscar um ópio, abrir o mágico, ouvir os sapos... Tecer a exaustiva inutilidade dos versos. Mas nada hoje me conforma, meu lirismo não sacia os recônditos lábios.

Há neste final de tarde prenúncios de um túnel de longa noite onde me deserte , um niilismo em sutil camuflagem. Um ainda aguardar (vaidade suprema) de meus úmidos, teimosos versos a eternidade.

Fernando Campanella, 1986

7 comentários:

  1. Olá, Campanella. Crônica-poema interessante, para bem fechar uma tarde de domingo. Com poesia, melancolia e esperança. A vida fica sm sentido, absurda só, se terminar no túnel da longa noite.
    Abraços.

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  2. Já percebeste que gosto muito de prosa poética, por isso considero este texto uma maravilha!
    bj

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  3. saudades de te ler por aqui, fernando.
    deixo um abraço.
    e um tantão de amizade.
    roberto.

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  4. "Tecer a exaustiva inutilidade dos versos" para que a memória se torne côncava a todos os fascínios e colocarmos ao alcance das mãos as palavras mais límpidas, como se fossem água...
    Este teu texto é muito belo. A fotografia também.
    Um beijo.

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  5. Gostei da foto, Fernando. Você deu forma à solidão, nessa garça abandonada - todos a deixaram. O seu texto também dá ideia desse abandono.
    Beijo.

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