terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

SINE QUA NON*


Foto by Fernando Campanella

Ah, este instante na tarde
quando o sol bate seu ponto
e se despede
de um afugentar as sombras,
de mais um dia de claro ofício.
Pago, pelos préstimos,
ao operário sine qua non
com a moeda de meus sonhos,
um certo dourar de meus sentidos.
Logo à noite, vou desejar
que no outro dia retorne,
que nunca me deixe sem seu brilho.
Posso, então, a alma estendida
ressonar: a luz, eu sei,
em seu percurso me busca
e sempre haverá de me achar.

FernandoCampanella

* Sine qua non: latim, locução adjetiva,
'sem o qual não'. Espressão com que se
qualifica uma cláusula ou condição sem
a qual não se fará certa coisa.

VERSOS PARA MINAS


Foto by Fernando Campanella
(Pico do Papagaio, Aiuruoca, sul de MG)


...O que me fica de Minas
mais que os rumos das inconfidências
são as ossadas azuis distantes de seus montes
indecifráveis dinossauros férreos
incrustados na vastidão da alma...

(Trecho de 'Versos para Minas',
por Fernando Campanella)

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

MINAS E NOMES (AMOR PERFEITO)


Aiuruoca, sul de MG, foto by Fernando Campanella

Seria Minas mais primal
em mantiqueira
mais sertão em buritis
mais ‘hermosa’ em mar
de espanha
mais com mar em paraty
mais saudade em ferrovia
mais moderna via fax?

Mais singela em capelinha
mais devassa em babilônia
mais barroca em marianas
mais latina in vino veritas
mais tupi em airuoca
mais sincrética
em nossas senhoras
de sabarabuçu?

Mais sangria em candeias
mais doída em mucuri?

Ou mais bahia em são francisco
mais mineira em turmalina
mais geral em maravilhas
mais criança em amanhece
em amor-perfeito
que Minas não é

Fernando Campanella

QUE C'EST TRISTE VENISE


Foto gentilmente cedida por Simone Wichert Grande

Que triste, Veneza
sem suspiros e barcarolas;
que insípidos, os segredos
sem botões nem corolas.
obscura, toda canção
sem teus ouvidos comigo
e o teu sonido de auroras.
O amor é redundante
e demanda que aos meus labirintos
mil vezes eu propale:
sem ti,
sou cidade fantasma,
bicho em maltrato -
silêncio em esporas.

Fernando Campanella

domingo, 15 de fevereiro de 2009

METÁFORA


Foto by RayDS (Night at Sea - Like Mars)
from flickr

Templo de meus ruídos secos
e de meu ouvidos gastos,
eis vossa água onde mergulho,
poetas que adoto, a metáfora
singrando o mar enigmático.

Fernando Campanella

SOL DA MEIA NOITE


Foto from blogger: ateaofimdomundo.smugmug.com/
.../159586898-M.jpg


Era um sonho, uma atmosfera de véspera . Talvez de algum advento, algum natal. Porém, não havia o corre-corre das ruas, a volúpia de compras e preparativos de cerimoniais.

Eu deslizava por diferentes cenários: uma floresta junto ao mar , uma montanha , um deserto... E glaciares também. Tudo envolto por um céu de um azul aprofundando-se em noturnos tons.

Ainda não haviam aparecido estrelas, apenas o sol já levando o dia, e uma lua antecipada, inteira, configurada no céu. As árvores, impregnadas de aromas, a dançar como em rituais do mais remoto encanto. E vi os animais : um caracol espanando a concha, abelhas, ansiosas lustrando a colméia; e os pássaros ajeitando os ninhos para mais ovos nas sombras das folhagens nos quintais.

Estrilavam os grilos, e cantavam, fora de hora, os galos. No mar, golfinhos cerravam grandes círculos; peixes polimorfos, multicoloridos, concentravam-se acima dos corais. Na selva , festejavam de galho em galho, os macacos. No azul espelho do gelo um alvoroçado coro de pingüins ensaiava seus cantos e passos. E no deserto , camelos em grupos coesos, iam em busca de algum oásis no tempo.

Apareceram antigos pastores, conduzindo ovelhas em calmas paisagens. Tudo parecia obedecer a um amoroso comando de preparar, limpar. Uma alegre espera embalsamava o ar.

Eram assim as imagens do sonho, tudo em clima de véspera de um descomunal evento .

Passaram, por fim, os cometas, alongando seus feixes dourados. E meteoros espoucavam, cintilando em fagulhas que saudavam os vaga-lumes . Despontaram os planetas, desdobraram-se as galáxias. Nunca tamanha profusão de celestes personagens reunidos eu vi . Estranho sonho! Como poderia o universo conspirar assim, tudo tão perto, tão junto dentro de mim?

Ouvi sons distantes, remotas vozes, há muito não ouvidas. E era clara a instrução que me transmitiam : eu desenharia longas linhas no ar, muitas, como em varias pautas musicais sobrepostas.

Passei a rabiscar aqueles traços, cegamente obedecendo àquele subliminar comando. Porém, tudo me parecia do mais claro e preciso objetivo, de qualquer sentido humano desprovido.
Tolo engano! Após um tempo os riscos foram se iluminando , um após outro... E assim todos, reluzindo em raios de mais fulgente ouro, chegando à sua mais antiga fonte, ao cerne de um alquímico sol. Explosão da luz primordial.

E as antigas vozes versando em língua, que por arte dos sonhos eu entendia, em grave encantamento assim diziam:

“ Eis o teu sol da meia-noite.
Eis a luz transfigurada.
Benditos os que vivem
em bons termos
com o hóspede imaginário,
com a ‘ louca da casa’.”

Fernando Campanella, 08 de Dezembro de 2006

sábado, 14 de fevereiro de 2009

TREASURED


Foto by Fernando Campanella

Wise is the teaching of the leaves:
acid green,
treasured sepia,
crumbling gold.
I silently
watch my seasons
unfold.

Fernando Campanella