segunda-feira, 23 de março de 2009

LÓTUS


Foto by Fernando Campanella

meu lodo
meu lótus

ali
onde tantos se afogam
eu escrevo nas águas

Fernando Campanella

À NOITE SONHAMOS*


Foto by A. Carlos Januário

À noite, seguimos descuidados,
a vida é solta,

árvores nítidas de aromas,
pétalas tão úmidas de orvalho.

À noite sonhamos em um céu de metáforas
onde a mínima lua
é unha que arrepia segredos
estrelas são hangares pequeninos -
a sombra, um dócil lobo que nos chama.

À noite, rompemos degredos,
volvemos aos ninhos,
somos meninos -

infância distraída de seus medos.

Fernando Campanella



Ouça:
Prelúdio número 15 'Raindrop' - by Chopin, pianista Alfred Perl
http://www.youtube.com/watch?v=-Ot9INo7Zvw


Noturno Op.9 N0. 2, by Chopin, pianista Arthur Rubinstein
http://www.youtube.com/watch?v=YGRO05WcNDk&feature=related



* 'A Noite Sonhamos' - Título de um filme que apresenta a biografia de um dos maiores gênios da música de todos os tempos: Frédéríc Chopin (Cornei Wilde). Depois de ser expulso da Polônia, por se recusar a tocar para o governador Czarista, Chopin e seu professor musical fogem para Paris. Lá, Chopin conhece a escritora Aurore Dupin (Merle Oberon). mais conhecida pelo pseudônimo masculino que usava para assinar seus livros, George Sand, por quem se apaixona perdidamente. Debilitado fisicamente e temendo que seu romance se torne público, Chopin, acompanhado de Sand, viaja para Majorea, onde o clima úmido chuvoso fortaleceria ainda mais sua maior inimiga: a tuberculose. Excelente adaptação biográfica para as telas, lhe rendendo 6 indicações ao Oscar, incluindo Melhor Ator (Cornel Wilde) e Melhor Roteiro Original. (http://www.netmovies.com.br/titulo/A-Noite-Sonhamos.html)



domingo, 22 de março de 2009

ALQUIMIA


Foto by A. Carlos Januário

Bom dia, minha jaqueta surrada,
reincorporo-te como a uma identidade, a um eu
imune aos ecos do mundo,a uma canção de amor
tão gasta, e ainda sempre,sempre, ressuscitada.

Bom dia, meu ninho, onde ao largo do dia
me deito, resvalo dos elos concêntricos
e disparo meus sonhos, em mais íntima revoada.

Retomo-te, minha outra natureza, e contigo escrevo,
adentro o reino dos meus velhos poetas -
meus alquimistas dos sonhos –
da realidade mais sutil, imaginária.

Bom dia, meus sóis com chuvas,
meu arco, meu ouro, meu pote de luz
- claras núpcias de minhas raposas e viúvas.

Fernando Campanella



sábado, 21 de março de 2009

OUTONO, LEITURAS....


Foto Chet Baker http://2.bp.blogspot.com/_
wtuFyqkO5e8/R9rP754C8kI/AAAAAAAAANs/pMixGNfm8TA/s320/
chet%2Bbaker.bmp

AUTUMN LEAVES (CHET BAKER* AND PAUL DESMOND*):

http://www.youtube.com/watch?v=Gsz3mrnIBd0


*Chet Baker (Chesney Henry Baker Jr.) (Yale, Oklahoma, 23 de Dezembro de 1929 – Amsterdã, 13 de maio, 1988) foi um trompetista de jazz norte-americano. (Wikipédia)

*Paul Desmond, (
San Francisco, Califórnia, 25 de Novembro de 1924 - 30 de Maio de 1977), foi um saxofonista ... e compositor, norte-americano, que ficou famoso por tocar no quarteto de Dave Brubeck, entre 1959 e 1967. Fez parte do West Coast Jazz, e uma das suas composições mais conhecidas é Take Five. (Wikipédia)

VENTOS DO LESTE


Foto by Fernando Campanella

Esta brisa de outono
me traz um poema de Bashô,
desperta aromas maduros ,
nascentes e frutos,
traz também o viés da vida,
fogo e cinza,
folha ressequida:

amplo leque de pretéritos
e prenúncios.

Este vento nos pinheiros do leste
tocou poetas longínquos
e agora ressoa minhas cordas:

já não sou o pária da noite,
o grande órfão do mundo.

Este sopro traduzido,
transportado a laranjeiras,
paisagens do meu quintal,
abre-me o grande livro da alma -

minha natureza é mãe e madrasta
de meus versos.

Fernando Campanella, outono de 2007

MATSUO BASHÔ



UMA NOITE NO TEMPLO DE ZENSHO

Hospedei-me nos subúrbios de Daishoji, num templo chamado
Zensho. Este lugar pertence ainda à província de Kaga. Sora tam-
bém se tinha hospedado neste templo, na noite anterior, e tinha
deixado este poema:

Toda a noite
escutei
o vento de Outono na montanha

Separava-nos a distância de uma noite, mas era como se entre
nós houvesse mil «ri». Também eu, escutando o vento do Outono
me deitei no dormitório destinado aos noviços. Ao romper a auro-
ra ouviram-se orações, soou a campainha e apressei-me a entrar
no refeitório. Desejava chegar, nesse mesmo dia, à província de
Echizen e saí a toda a pressa do templo, enquanto os jovens bon-
zos me seguiam com papel e pincéis, até ao pé da escadaria. Nes-
se momento caíam umas folhas de salgueiro no jardim. Ao calçar
as sandálias e aparentando mais pressa do que tinha, deixei escri-
to o seguinte:

Com folhas de salgueiros
é como posso pagar
a vossa cortesia

Matsuo Bashô, 1644-1694

sexta-feira, 20 de março de 2009

PROCELÁRIA


www.achetudoeregiao.com.br/.../procelaria.jpg

É vista quando há vento e grande vaga
Ela faz o ninho no rolar da fúria
E voa firme e certa como bala
As suas asas, empresta
à tempestade
Quando os leões do mar rugem nas grutas
Sobre os abismos passa e vai em frente
Ela não busca a rocha, o cabo, o cais
Mas faz da insegurança a sua força
E do risco de morrer, seu alimento

Por isso me parece imagem justa
Para quem vive e canta no mau tempo.

Sophia de Mello Breyner Andresen