quinta-feira, 2 de julho de 2009

EFEMÉRIDES (JULHO)


(Painas) Foto by Fernando Campanella

Julho é uma paineira que se esvai.
Meu coração tem tempos assim
ora em flor
ora a se dissipar.
Fluidas são as painas
que envovem meus sonhos -
sementes aéreas que nem os ventos
sabem aonde vão dar.

Fernando Campanella

terça-feira, 30 de junho de 2009

RETRATO


Foto by Fernando Campanella
(Foto gentilmente autorizada)

Fenecer como as parras
e as flores
fender o riso de encobertos
intraduzíveis amores -

o coração entre o lume brando
e a usura
ralentando
'pero sin perder la ternura'.

Fernando Campanella

RETRATO

Fenecer como las parras
y las flores
hender la risa de encubiertos
intraducibles amores -
el corazón entre el lumbre blando
y la usura
arralando
'pero sin perder la ternura'.

Fernando Campanella

(Versão para o espanhol por
Fernando Campanella, com a
ajuda de minha amiga Madalena)

sábado, 27 de junho de 2009

CURARE


Foto: frasco de curare
by Marcia Valle, de sua galeria no Flickr*


O amor é ora barroco
ora me liberta -
que sono é esse
que mais que me adormece
me desperta

que erva as flechas
e me deita em asas -
delicado veneno
para qual o antídoto
é o mesmo amor.

Fernando Campanella

*Foto: "Veneno indígena, Curare, extraido em 1897 e guardado nesse frasco em 1900 por meu bisavô, Antonio Procópio do Valle Junior, em sua pharmacia Procópio, na cidade de Rio Novo, Minas Gerais, Brasil." (Marcia Valle)

quinta-feira, 25 de junho de 2009

REVISITADO


Foto by Fernando Campanella


Bem-vindo à minha casa
mas se quiseres ir ao sótão
traz as velas , algo ali vive
que não permite a crua luz
escancarada.

Eu o revisito tantas vezes
e não me incomodam seus trastes,
alguns ratos - eles me convivem,
eu sou o velho hóspede da casa.

Subo e desço no cotidiano ato,
gosto de ir às vezes regar,
antes que esquecidas mal cheirem,
as flores de meu cercado
(com a palma de meus olhos
acaricio as ternas fugacidades).

Desço e subo, vou por estes cômodos
sonambulando.

Acomoda-te em minha casa
mas se quiseres entrar em meu sótão
acende as velas.

Ali já estou aclimatado,
sou amigo do gato, eu furto a luz
pelas mínimas frestas do telhado.
Ali todas artimanhas já incorporei,
eu sei dos hábitos, eu me convivo -

eu sou o velho fantasma da casa.

Fernando Campanella

REQUIESCAT


Trabalho de formatação por Leila Laderzi

De meu mar, permito-te as ondas
e as praias que poéticas conchas te trazem.
Tais suaves mistérios te concedo, mais as algas
e as gaivotas que bicam tecidos de luz na tarde.

Povoados de ti, de mim,
os barcos que chegam e ardem.

Adere-te, pois, ao sal que a mim te chama.
Cobre teus pés em espuma e encanto,
molha teu rosto
nas claras águas que o dia me abre.
(Em paz, fiquem minhas dorsais,
descanse meu leviatã esconso)

Fernando Campanella

terça-feira, 23 de junho de 2009

PLÁSTICA


Foto by Fernando Campanella

A luz é palpável
a cor é palpável -
dizem os mestres
das formas.


Eu palpo as palavras
que caem à revelia.

Fernando Campanella

segunda-feira, 22 de junho de 2009

AO MUNDO


Foto by Fernando Campanella

Vai entender os poetas
os que rastreiam a luz esconsa
o verbo intáctil
das manhãs.

Alcançariam seu intento
quando a noite os desperta
(real tormento)
a cada incauto morder de romãs?
Sim, pois destilam os sonhos
nas entrelinhas.

Ao mundo, o que é do mundo,
ao estado límpido de alma
(entendamos os poetas)
o que da comunhão dos pastores,
da poesia.

Fernando Campanella