terça-feira, 14 de julho de 2009

TRÊS MARIAS


Foto by Fernando Campanella
(Colônia de nidificação das garças junto ao
rio Sapucaí, Bela Vista, sul de MG)

...Contemplando-as na tarde, consortes, amantes em plena, festiva cumplicidade, ciente de que logo partirão, em incansável saga de asas, para cuidar de outras conquistas, lembro-me dos versos do poeta irlandês Yeats, referindo-se aos seus cisnes selvagens de Coole:

'Entre que juncos edificarão sua morada,
Junto a que lago, junto a que charco,
Deliciarão o olhar do homem quando um dia eu despertar
E descobrir que voando se foram?'

Fernando Campanella
(Trecho do texto 'Saga de asas' sobre a colônia
de nidificação das garças no rio Sapucaí, sul de MG)

TRÊS MARIAS

Três garças na árvore quando passo
Três meninas - de que brincam,
que sonhos em penugens terão?
Três senhorinhas no rio emplumadas
quando volto - o que bicam,
nas águas rasas o que pescarão?
Quando me vou deixo três viúvas penadas -

meus desejos, minhas três graças,
que deuses agora concederão?

Fernando Campanella

segunda-feira, 13 de julho de 2009

TREVO DE MINAS


Foto by Fernando Campanella
(foto consentida, região rural de Baependi, sul de MG)

era uma vez hoje:

minas me vêm
minas me vão
minas me amam
minas me enganam
minas me foram
minas me clamam
minas 'mi são'
Fernando Campanella

VERSOS PARA MINAS


Foto by Fernando Campanella
(região de Santa Rita do Sapucaí, sul de MG)

O que me fica de Minas,
mais que o rumo das inconfidências,
são as ossadas azuis distantes de seus montes,
indecifráveis dinossauros férreos
incrustados na vastidão da alma.

Mais que os versos para Bárbara,
o que me encanta de Minas
é um certo ar de inverno impregnando as sombras,
um cheiro de esterco em pastos orvalhados
onde cavalos , insetos e vacas
reinam domínios de silêncios gigantes;

é a beleza modesta, porém eterna,
de suas claras morenas meninas,
os seios de desejos castos arfando;

são restos senhoris dos cafés dos campos,
casas com trepadeiras rubras e limões-cravo
despencando,
um certo abandono, um descomunal cansaço,
uma quase lembrança do que já vivido

e os incansáveis, gentis, negros braços,
o leite pródigo dos úberes,
seiva inteira deste universo Minas transverberado.

Mais que a transparência obscura do nome,
para além de toda forma, o que me fica de Minas
é anis, é matiz, é perfume.

Fernando Campanella, 1990

domingo, 12 de julho de 2009

VERSOS PARA MINAS


Foto by Fernando Campanella
(região de Pedralva, sul de MG)


O que me fica de Minas,
mais que os rumos das inconfidências,
são as ossadas azuis distantes de seus montes,
indecifráveis dinossauros férreos
incrustados na vastidão da alma...

Fernando Campanella

(Trecho de 'Versos para Minas'.)

sábado, 11 de julho de 2009

FLOREARTE


A flor no jardim


"... e no entanto nem Salomão em toda sua glória
jamais se vestiu como um deles." (Novo testamento)


Tetradenia riparia ( Incenso, Pluma-de-neve,
Mirra, Misty Plume Bush), vista em um jardim de
Silvianópolis, sul de MG)
Foto by Fernando Campanella



A visão da flor acima foi uma 'anomalia'. Experimentei uma irregularidade no movimento orbital de meus olhos, 'de minhas retinas cansadas', ao perceber pela primeira vez, e registrar em fotos, essa inacreditável delicadeza.

Ela se encontrava em um jardim de uma pequena cidade vizinha por onde passei. A proprietária da casa abriu-me, gentilmente, as portas para que eu tirasse as fotos, e ofertou-me algumas mudas, as quais , por não haver mais espaço em meus exíguos canteiros, repassei à minha cunhada para replantar em sua chácara.

A senhora proprietária disse-me tratar-se o arbusto de uma Azinheira, 'a mesma árvore sobre a qual Nossa Senhora apareceu aos pastores em Fátima, Portugal'. Mas acredito ter havido um engano. As Azinheiras são árvores com flores amareladas, de grande porte, atingindo até dez metros de altura, nativas da região mediterrânea da Europa, cuja madeira resistente à putrefação é utilizada na construção e na fabricação de ferramenta, embarcações e barris.

Quanto ao fato de a Virgem ter aparecido aos campesinos sobre uma copa de uma pequena Azinheira, minha simpática anfitriã passou a informação correta. Por um outro lado, justificável o seu engano: nada mais propício para uma santa aparição que aquelas inflorescências de seu jardim.

Por uma grande amiga, amante e conhecedora das artes e das flores, fui informado tratar-se o arbusto visitado de uma Tetradenia riparia, ou Incenso, Pluma-de-neve, Mirra ( não a Mirra comum, dos reis magos, que é uma ávore espinhosa que pode atingir até cinco metros de altura), etc.

Esta Mirra, ou Pluma-de-neve, traz outras ressurgências. 'É um arbusto originário da África do Sul, com alcance médio de 1,20 - 1,60 m de altura, com folhas largo-ovaladas, denteadas e espessas. Possui numerosas inflorescências. Suas flores apresentam cores que variam do branco ao róseo-creme e são muito' perfumadas' (aroma de incenso). 'Adapta-se bem a climas subtropicais, com período de florescimento nos meses de inverno' ( vi suas flores agora em julho, em plena estação fria no sudeste do Brasil).

Dizem que os povos da tribo Zulu da África do Sul têm muitos usos terapêuticos para essa planta. Deles vieram os nomes 'iboza' e 'ibozane'. Outro nome que se dá a ela é umuravumba, o qual me parece ser também de origem africana.

De minha aldeia, de meu registro da bela mirra, passando por minhas amigas com seu amor à flora, e suas informações em diferentes níveis, emocional e científico, chegando à evocação de Nossa Senhora de Fátima na Azinheira, dos magos com suas dádivas, e dos Zulus no sul do continente africano - eis a bordadura da arte, através da órbita irregular de meus olhos e do beneplácito da tecnologia e da mídia eletrônica.

Eis o pretérito tornando-se presente, entreabrindo o futuro, através do encantamento, no vislumbre da eternidade de uma flor.

Fernando Campanella


Meus agradecimentos a Dona Lea e a sua simpática família, a Maria Madalena, minha querida amiga de Porto Alegre que me passou informações sobre a Tetradenia riparia através de sua
fonte:

Lorenzi , H. & Souza, H. M. 1999 , Plantas Ornamentais do Brasil - arbustivas, herbáceas e trepadeiras. Nova Odessa, SP. Instituto Plantarum, 2. ed. rev. e ampl. pag. 617

Outras fontes:


b) Wikipédia




quinta-feira, 9 de julho de 2009

terça-feira, 7 de julho de 2009

EXPERIMENTAL


Cleome Hassleriana ( Spider flower, Flor-aranha)
Foto by Fernando Campanella*

uma abelha
pousa
em uma spicata

nada de novo
salvo a palavra
alçada:

voluta
ou delicata

Fernando Campanella


EXPERIMENTAL

a bee
lands
upon a spicata

nothing new
save the word
hoisted:

volute
or delicata

(Fernando Campanella)
* A flor da foto é uma Cleome Hassleriana, identificada por minha grande amiga Maria Madalena. É uma flor popularmente denominada 'Flor-aranha', nativa da América do Sul (Argentina, Paraguai, Uruguai e sudeste do Brasil). Existe em várias cores e tonalidades.
The flower on the photo is a Cleome Hassleriana, also called spider flower, a species of Cleome, native to South America in Argentina, Paraguay, Uruguay, and southeast Brazil. It may be found in different colors and hues.