quarta-feira, 25 de setembro de 2013

QUINTESSENCIADO

Foto por Fernando Campanella


Vou arrancar os sapatos
e ouvir
meu blues quintessenciado;

vou despir-me de humores
e escapar, asas em som,
pelos portal dos sentidos
pelo desvão do telhado

– não me lembrem o mundo agora,
este já me entope os poros
a cada esquina
e satura-me a pele feito pólipo –

vou desfazer bagagens
e ser assim alteridade

a mim imune
um fogo fátuo
um vagalume.

Fernando Campanella

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

POEMAS ANTIGOS (EM SÂNSCRITO)

Foto a partir de um desenho, por Fernando Campanella

O vento não tem credo,
os pássaros não têm gramática.
Cego conduzindo cegos
ou apenas uma ordem mais refinada?

Poderia eu sentir em Sânscrito
que o suor de teu corpo
umedece minha alma?

Fernando Campanella

domingo, 1 de setembro de 2013

EXÍLIO

Foto por Fernando Campanella

Caminho tarde adentro
em um lugar de algum tempo
que só a memória me sabe.

Meus olhos devem ser faróis
de alguma ilha perdida –
por que faço da imagem
a pátria da minha vida?

Fernando Campanella


quarta-feira, 28 de agosto de 2013

PRIMEIROS POEMAS (ENSAIO)

Foto por Fernando Campanella

Ensaio

Da mais obscura cela,
dos impenetráveis confins,
um reles mortal, o que vê? 
Aos vermes, o limite da terra,
aos peixes, o lençol do mar,
mas a mim, o que vem?
Minha janela esboça o contorno
de um infinito rasgado de céu...
Inútil ensaio.
Seria este o consolo, 
vislumbrar, somente, 
o que há tanto pedi?
(As asas,
onde as esqueci?)

Fernando Campanella, poema de 1988.

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

À NOITE



À noite seguimos descuidados,
por árvores em renques de aromas
entre pétalas em sono de orvalho.

À noite sonhamos em um céu de metáforas
onde a mínima lua
é unha que arrepia segredos,
estrelas são hangares pequeninos,
a sombra, um lobo dócil que nos chama.

À noite, rompemos degredos,
volvemos aos ninhos,
somos meninos –
infância distraída de seus medos.

Fernando Campanella


quinta-feira, 15 de agosto de 2013

EFEMÉRIDES (AGOSTO)

Foto por Fernando Campanella

Trânsfuga de agosto -
um prurido rouco -
quase um quê de mim
em ipês amarelos e roxos. 

Fernando Campanella

sábado, 3 de agosto de 2013

LA CAMPANELLA

Foto por Fernando Campanella

Aquela senhora tem um piano
Que é agradável mas não é o correr dos rios
Nem o murmúrio que as árvores fazem...
(Alberto Caeiro)


Aquela senhora toca um piano na tarde,
as teclas ágeis ondulando em mimos,
em vibrantes sinos delicados.
Imersos cada qual em sua dor, em sua história,
uma sintonia, de repente,  nos toma
e o murmúrio das árvores nos chora –
uma arte – rio profundo, sem corte –
um outro azul que nos sonha.

Fernando Campanella