segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

MINAS E NOMES (AMOR PERFEITO)


Aiuruoca, sul de MG, foto by Fernando Campanella

Seria Minas mais primal
em mantiqueira
mais sertão em buritis
mais ‘hermosa’ em mar
de espanha
mais com mar em paraty
mais saudade em ferrovia
mais moderna via fax?

Mais singela em capelinha
mais devassa em babilônia
mais barroca em marianas
mais latina in vino veritas
mais tupi em airuoca
mais sincrética
em nossas senhoras
de sabarabuçu?

Mais sangria em candeias
mais doída em mucuri?

Ou mais bahia em são francisco
mais mineira em turmalina
mais geral em maravilhas
mais criança em amanhece
em amor-perfeito
que Minas não é

Fernando Campanella

QUE C'EST TRISTE VENISE


Foto gentilmente cedida por Simone Wichert Grande

Que triste, Veneza
sem suspiros e barcarolas;
que insípidos, os segredos
sem botões nem corolas.
obscura, toda canção
sem teus ouvidos comigo
e o teu sonido de auroras.
O amor é redundante
e demanda que aos meus labirintos
mil vezes eu propale:
sem ti,
sou cidade fantasma,
bicho em maltrato -
silêncio em esporas.

Fernando Campanella

domingo, 15 de fevereiro de 2009

METÁFORA


Foto by RayDS (Night at Sea - Like Mars)
from flickr

Templo de meus ruídos secos
e de meu ouvidos gastos,
eis vossa água onde mergulho,
poetas que adoto, a metáfora
singrando o mar enigmático.

Fernando Campanella

SOL DA MEIA NOITE


Foto from blogger: ateaofimdomundo.smugmug.com/
.../159586898-M.jpg


Era um sonho, uma atmosfera de véspera . Talvez de algum advento, algum natal. Porém, não havia o corre-corre das ruas, a volúpia de compras e preparativos de cerimoniais.

Eu deslizava por diferentes cenários: uma floresta junto ao mar , uma montanha , um deserto... E glaciares também. Tudo envolto por um céu de um azul aprofundando-se em noturnos tons.

Ainda não haviam aparecido estrelas, apenas o sol já levando o dia, e uma lua antecipada, inteira, configurada no céu. As árvores, impregnadas de aromas, a dançar como em rituais do mais remoto encanto. E vi os animais : um caracol espanando a concha, abelhas, ansiosas lustrando a colméia; e os pássaros ajeitando os ninhos para mais ovos nas sombras das folhagens nos quintais.

Estrilavam os grilos, e cantavam, fora de hora, os galos. No mar, golfinhos cerravam grandes círculos; peixes polimorfos, multicoloridos, concentravam-se acima dos corais. Na selva , festejavam de galho em galho, os macacos. No azul espelho do gelo um alvoroçado coro de pingüins ensaiava seus cantos e passos. E no deserto , camelos em grupos coesos, iam em busca de algum oásis no tempo.

Apareceram antigos pastores, conduzindo ovelhas em calmas paisagens. Tudo parecia obedecer a um amoroso comando de preparar, limpar. Uma alegre espera embalsamava o ar.

Eram assim as imagens do sonho, tudo em clima de véspera de um descomunal evento .

Passaram, por fim, os cometas, alongando seus feixes dourados. E meteoros espoucavam, cintilando em fagulhas que saudavam os vaga-lumes . Despontaram os planetas, desdobraram-se as galáxias. Nunca tamanha profusão de celestes personagens reunidos eu vi . Estranho sonho! Como poderia o universo conspirar assim, tudo tão perto, tão junto dentro de mim?

Ouvi sons distantes, remotas vozes, há muito não ouvidas. E era clara a instrução que me transmitiam : eu desenharia longas linhas no ar, muitas, como em varias pautas musicais sobrepostas.

Passei a rabiscar aqueles traços, cegamente obedecendo àquele subliminar comando. Porém, tudo me parecia do mais claro e preciso objetivo, de qualquer sentido humano desprovido.
Tolo engano! Após um tempo os riscos foram se iluminando , um após outro... E assim todos, reluzindo em raios de mais fulgente ouro, chegando à sua mais antiga fonte, ao cerne de um alquímico sol. Explosão da luz primordial.

E as antigas vozes versando em língua, que por arte dos sonhos eu entendia, em grave encantamento assim diziam:

“ Eis o teu sol da meia-noite.
Eis a luz transfigurada.
Benditos os que vivem
em bons termos
com o hóspede imaginário,
com a ‘ louca da casa’.”

Fernando Campanella, 08 de Dezembro de 2006

sábado, 14 de fevereiro de 2009

TREASURED


Foto by Fernando Campanella

Wise is the teaching of the leaves:
acid green,
treasured sepia,
crumbling gold.
I silently
watch my seasons
unfold.

Fernando Campanella

SUAVE É A NOITE


Foto by Fernando Campanella


(Suave é a noite...
Logo a Rainha-Lua sobe ao trono de luz
com a legião de suas fadas estelares...
JOHN KEATS)


As estrelas espiam de longe
e o caracol ao ciciar da brisa
arrasta seus passos.
Meu amor dorme.
Suave é a noite em seu silêncio
de longos braços.

Fernando Campanella


TENDER IS THE NIGHT


(...tender is the night,
And haply the Queen-Moon is on her throne,
Cluster'd around by all her starry Fays...
JOHN KEATS )


The stars peep at a distance
and the snail trails its footsteps
under the breeze's voice.
My love is asleep.
Tender is the night
in its silence of long arms.

Fernando Campanella

LUTO NA ROÇA


Foto by Fernando Campanella
(Casa sesquicentenária de Gonçalves, sul de MG)

Íamos em um passeio pela área rural de Gonçalves, MG, bela cidadezinha encravada nos contrafortes da Mantiqueira. O casal de amigos estaciona o carro a uma certa altura para nos mostrar uma casa sesquicentenária, tida como a mais antiga do município. Um singelo monumento, preservado, seus porões em pedra, caiação nas paredes de pau-a-pique, antigas telhas escurecidas pelo tempo, um verde-negro em janelas e portas.

Excelente motivo para uma foto aquela casa na tarde. Quando nos aproximamos daquela maravilha, com seu mistério, seus segredos embrulhados em névoas e sonho, algo como um reconhecimento bateu em mim. Pareceu-me tê-la visto antes, e logo me lembrei que por ali já passara havia uns quinze anos. Na época, 1993, estava eu em férias em casa de amigos que lá então residiam. E em um dia frio transitáramos por aquele sítio.

A ocasião de minha visita anterior fora triste pois alguém havia falecido naquele lar.. Escutávamos as orações vindas de seu interior, algumas pessoas circunspectas à porta, uma atmosfera longa de pesar e dor, naquele grave silêncio do momento que viviam. Deparamo-nos com um homem de uns vinte e oito anos, inconsolável , em lágrimas, e o cumprimentamos.

Mas não nos detivemos por ali.. Algo como um pressentimento, um certo medo da perda de meus próprios entes queridos havia me tomado naquele momento. E logo partimos, meus amigos e eu, como se fugitivos, crianças buscando seus brinquedos e acontecimentos mais descompromissados da finitude de tudo.

Quinze anos mais tarde , algumas duras perdas já sofridas , eu haveria de retornar àquela casa do luto. À sua porta, reconheci o rapaz entristecido daquela época, agora um senhor, adentrando a meia-idade. Apresentei -me, pedi licença para tirar algumas fotos. E contei -lhe, então, de minha lembrança. Surpreso, o homem confirmou o falecimento da mãe naquela ocasião. Dona Mariana havia contraído uma infecção pulmonar, sendo levada ás pressas para São José dos Campos onde alguns dias depois viera a falecer. O sepultamento fora no cemitério local, de São Sebastião das Três Orelhas, o santo assim cognominado pelos três imponentes e altos picos da região.

O filho relatava-me o passamento da mãe, e algo como um vazio, uma certa tristeza, ainda nublava seu olhar. Porém, senti, mais que uma surpresa, uma certa gratidão vindo de sua alma, por eu, talvez, um turista como tantos que por ali passavam , de repente ter me lembrando de algo tão irrelevante aos olhos do mundo, tão precioso à sua memória.

Ao me despedir, senti-me aliviado, como por um dever, por feliz coincidência, então cumprido. E incorporei minhas perdas, minhas lágrimas, agora mais amadurecido em minha trajetória do mundo.

À porta daquela casa antiga havia um crucifixo. Dona Mariana, permanecia ali, eterna, naquele ícone, na casa singela, na memória do filho. Também presente na saudade de todos os caríssimos meus que as alegrias e dores na terra já haviam cumprido..

Requiescat!

Fernando Campanella, 10 de outubro de 2008