quarta-feira, 1 de abril de 2009

2001 - UMA ODISSÉIA NO ESPAÇO


Photo by : blog.hdreview.co.uk/



2001 - Uma Odisséia no Espaço (1968) Duração: 156 minutos (edição final). Direção: Stanley Kubrick. Roteiro: Stanley Kubrick e Arthur C. Clarke. Elenco: John Ashley, Robert Beatty, Keir Dullea, Gary Lockwood, Leornard Rossiter, William Sylvester, Daniel Richter. Oscar de efeitos especiais.

"...O cinema tem muitas razões para existir - proporcionar diversão aos espectadores, proporcionar trabalho para os profissionais da área, proporcionar lucro para os produtores. Mas o cinema, como qualquer outro meio de expressão artística, também tem razões que estão acima das leis do mercado. O cinema pode, às vezes, investigar a razão de ser do próprio ser humano. É o que faz "2001 - Uma odisséia no espaço". Ao mostrar como o homem separou-se dos outros animais e evoluiu tecnologicamente, a partir de um diferencial que ninguém explica muito bem (o "monolito", ou "a mão de Deus", como quiserem), Kubrick pergunta onde essa evolução vai nos levar. Voltaremos a uma encruzilhada existencial (outro monolito; o encontro com outra civilização)? Seremos prisioneiros da mesma tecnologia que nos libertou da animalidade, perdendo a luta evolutiva para seres sem alma, mas superiores intelectualmente? Ou renasceremos, transformados, para começar um novo ciclo, quem sabe agora livres do corpo físico, que ainda é herança da pré-história? ..."

Carlos Gerbase (http://www.terra.com.br/cinema/favoritos/2001.htm)


Cena completa do final do filme:

http://www.youtube.com/watch?v=f88NZ1sxWX0&NR=1


Trailers do filme:

http://www.youtube.com/watch?v=vahx4rAd0N0&feature=related

http://www.youtube.com/watch?v=S6umxthz1Ys&feature=related




Ouça parte da trilha sonora do filme:

1) Richard Strauss (Also Sprach Zaratustra)

http://www.youtube.com/watch?v=cWnmCu3U09w

2)Johann Strauss II (Danúbio Azul)

http://www.youtube.com/watch?v=iGZ9GEelQAw

segunda-feira, 30 de março de 2009

FAC-SÍMILE


Artist's rendition of the view from a
hypotheticalplanet orbiting Alpha Centauri A

Estrela, minha Alfa Centauro,
ou uma outra qualquer
a inumeráveis anos-luz de indiferença,
sou um terráqueo instável , nem me sabes,
mas gosto à noite de deitar-te em meus olhos,
cansado das luzes nervosas onde me lavro.

Estrela, meu astro reinventado,
por que assim, enternecido, de ti me enamoro,
na funda noite exorcizado ?

Serias como humanos
que de longe nos encantam
trazendo de perto o cheiro de entranhas,
o encadeamento dos hábitos?

Apascentarias ovelhas à tua órbita?
Saberias da duração de tua glória?

E se eu te tocasse e te dissolvesses em absurdos ares?

Se eu te devorasse , terias de mim próprio
a consistência mesmíssima de um pó,
a fragilidade de um pirilampo -
tudo tão simples fac-símile de tudo
tão em si mesmo desmitificado?

(Estrela, tua terna esfinge me basta.)

Fernando Campanella, 2007


1) Veja o vídeo sobre Alfa Centauro

http://www.youtube.com/watch?v=aKLWuXmUScs




domingo, 29 de março de 2009

STAINED GLASS


Foto by Fernando Campanella

Listen ( Ouça):
l) Coro Capella Sistina

http://www.youtube.com/watch?v=D1RCT8Cliys&feature=related

2)Buddhist chant - Shingon

http://www.youtube.com/watch?v=A1evxMA7yYw&feature=related


Why do I write?
Why do I sometimes
into my hands clasp the light
only to spread it,
a thousand gasping wings
probing the sideless skies -

and the universe
suddenly dresses bright
and a stained glass
in a chapel
then reflects
my heart…

Fernando Campanella


VITRAIS

Por que escrevo?
Por que em minhas mãos
às vezes a luz retenho
apenas para estendê-la -
mil asas ofegantes
sondando os céus
sem beirais –

e de repente o universo
se faz luzente
e uma capela
reflete então
meu coração
em seus vitrais...

Fernando Campanella

DOMINICAIS


Foto by Fernando Campanella

Três poemas e entre eles
o domingo,
minha pena cordial

meu arroio sem glória
meu tédio
meu Tejo sem nau

(Fernando Campanella, 2009)

Estas paisagens que me detêm
trazem, às vezes, de mim
o outro lado, a gastura
e o fastio infinito dos clichês:

desfaço os novelos dos cirros,
enfio a lua no saco
e prossigo,
apagando um a um
os astros.
(Fernando Campanella, 2007)


A eternidade tem às vezes
sete palmos de silêncio
como flagrante
de um fosso dominical
com direito à flor de superfície
sino de longínquo bronze
e imobilidade de sol

(Fernando Campanella, 1986)




sábado, 28 de março de 2009

MIMUS


Sabiá do Campo, foto by Fernando Campanella


Segundo dia de um congresso sobre Educação , os workshops da manhã martelando o tema ‘O papel do professor no negócio-ensino’. Finca-se no ar e no subconsciente dos participantes, uma idéia tão cara ao neo-liberalismo, a de que são os mais competitivos de nossa espécie os que sobrevivem.

Corro os olhos pelos palestrantes, pela sala de conferências do hotel, pelos assistentes do evento em seus sorrisos profissionais e suas embalagens impecáveis. Dou uma sacudidela na mente para me distrair da impressão aterradora de que tudo, educação, saúde, música , gentilezas, vai se transformando em business e marketing.

Duas horas para almoço, preciso me afastar daquela atmosfera e saio a percorrer as ruas da pequena cidade turística.

A pracinha central sob um céu retinto de azul, ao sol brando de inverno, me seduz com a arquitetura delicada de seus gramados, seus ciprestes esculpidos em forma de aves enormes , uma agradável descoberta para mim.

E lá estavam, e cantavam, seus freqüentadores mais assíduos, seus pássaros. Alguns voavam de arbusto em arbusto, outros atingiam às vezes o topo de um pinheiro mais alto, demorando-se lá em cima por longos minutos. Durante esse tempo, que me pareceu infinito, as nuvens cobriam momentaneamente o sol , depois se abriam, as árvores agora carregadas de luz, lembrando uma decoração temporã de natal. E os pássaros nos cimos , como apêndices, a meditar ao céu.

Àquela altura, eu já havia esquecido o almoço, e a própria areia movediça dos intrincados negócios onde todos nos enfiamos. Tiro várias fotos , mas sempre dos mesmos personagens: rolinhas, joões de barro, pardais. Porém, a espécie em maior número, e de maior rebuliço , na praça, era desconhecida por mim.

Confesso minha condição de ignorante turista a um vendedor de pipocas, e pergunto-lhe o nome daquela maravilha em tons de marrom, peito e sobrancelhas brancos, cauda alongada, semelhante aos sabiás em forma e cor, mas de diferente canto. Sabiá-do-campo – diz-me o homem, um tanto incrédulo com meu desconhecimento de algo tão banal. Ou galo-do-campo – acrescenta, nome dado à ave na região rural onde fora criado.

Agradeci, e pensei com meus botões se aquela espécie não haveria sofrido mutações em sua trajetória: de galo-do-campo, passando por sabiá-do-campo, chegando agora a sabiá-da-praça com suas ensaiadas poses para fotos de turistas, em seus negócios de pipocas como alimento garantido em troca da exposição. Mas pássaros ainda são pássaros, alimentam-se de bichinhos e sementes, não têm negócios com os homens. E, sobretudo, ainda cantam para Deus , como dizem os chineses, nos jardins pródigos, de graça.

Volto ao hotel para mais uma rodada de palestras na tarde, mas agora menos comprometido , mais leve: outras sintonias havia , outros encantos ainda não conspurcados.

Findo o congresso, vou pesquisar sobre aquela variedade de sabiá em um site científico e constato a veracidade da informação obtida . O ‘Mimus Saturninus’, ou popularmente ‘Sabiá-do-Campo’, é uma ave dócil que pode se adaptar às grandes cidades. É bastante comum nas cidades do interior de São Paulo, e de Minas, pelo que eu pude observar. Vista sempre em pequenos bandos de três a sete indivíduos, imita sem maestria o canto de outros pássaros, daí a origem do nome ‘Mimus’, imitador, em latim. De vez em quando abre-se em exibição denominada ‘lampejo de asas’, atitude ainda não satisfatoriamente esclarecida pelos ornitólogos.

Quando transfiro as fotos para o computador, alguns dias depois, a mais tocante, para minha surpresa, é justamente a de um Mimus no fio de luz de um poste, mirando algum ponto indefinido no céu.

Bate em mim, então, uma irreprimível saudade, uma falta, como se de um amigão distante, ou de algo em mim, alguma alegria há muito tempo vivida. Confesso, que sob o peso de minhas couraças, deixei escapar alguma lágrima, assim meio camuflada. Mas tenho que voltar aos meus negócios.



Fernando Campanella, 01 de Julho de 2007



1)Ouça o canto deste pássaro:
http://br.geocities.com/arieref/sabia_campo.html






sexta-feira, 27 de março de 2009

VERSOS ANTIGOS


Foto by Fernando Campanella

Às vezes revisito meus antigos poemas. Retiro do armário certas páginas datilografadas, amarelecidas, que dormem à sombra de uma caixa. E leio aqueles escritos como se lesse um sonho de um poeta incipiente, e distante.

Versos com reminiscências, ecos de Cecília Meireles, Emily Dickinson, Florbela Espanca, Fernando Pessoa... Alguns mal-delineados, um fluxo desordenado de imagens. Outros já melhor elaborados. Um caminho recém-descoberto, que eu não poderia saber aonde iria me levar.

Reestruturo tais versos, algumas vezes, sob a ótica de um certo amadurecimento poético adquirido com os anos. Há imagens bonitas, às vezes soltas, dentro de alguns poemas que justificariam uma lapidação.

Porem, é sempre com um sentimento de culpa que trabalho em tais poemas mais antigos. São sonhos de um poeta distante, como eu disse acima, melhor respeitá-los, dentro das limitações em que se formaram. Filhotes , ainda, que ensaiavam o vôo.

Por um outro lado, tenho comigo que um poema nunca esteja definitivamente criado. E se não trabalhei em meus antigos versos à época em que foram escritos, por falta de tempo, pela urgência de outros compromissos, por que não fazê-lo agora?

Escrever, assim como viver, é debater-se em escolhas. E às vezes opto por deixar um antigo poema como está, inteiro, com sua possível imperfeição, suas reminiscências, sua dignidade. Ingênuo, sagaz, hermético, lúcido... O que importa? Um poema se tece.

Um poema antigo, intacto, que hoje trago à luz:

GOTA


Já viste a alma presa
No cálice de tua mão?
Não validemos tal dor,
No cômputo final
Ela não ultrapassa uma gota,
Um suspiro de orvalho
Sacrificado ao ar.
Ao universo nada importa,
Tudo traz o selo de perfeição.
Não choro.
Mas como queria de vós, natureza,
Uma tal isenção.

Fernando Campanella, 1986

quinta-feira, 26 de março de 2009

CARTAS DE AMOR


'Mulher escrevendo carta', tela de Johannes Vermeer
i2.photobucket.com/.../escrever/vermeer1.jpg


http://www.youtube.com/watch?v=xBsFACFJkZY


CARTA

Ouso dizer-te, meu amor,
que tua ausência
é uma distância implícita de mim.

Nossos eus se emaranham
e já não sei
em que ponto me quedo,
em que ponto te levantas.

A que limite
sou eu que te busco,
ou tu que me alcanças?

Quando prosa ritmada,
ou verso sem pé?

Faca ou colher?

Quando manha, quando ferida?
Onde pecado, onde pudor?

Em que berço
com teus sonhos me deito?
Com meus sonhos
te despertas em que leito?

Cara ou metade?
Lucidez ou enfermidade?

Se memória de ti,
Se esquecimento de mim,
já o que importa?

Onde defeito ,
um mais que perfeito,
um efêmero,
um querer-te comprido,
sem fim....

(Fernando Campanella)




Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)

(Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoa)



CARTA
Carlos Drummond de Andrade

Há muito tempo, sim, não te escrevo.
Ficaram velhas todas as notícias.
Eu mesmo envelhecí: olha em relevo
estes sinais em mim, não das carícias
(tão leves) que fazias no meu rosto:
são golpes, são espinhos, são lembranças
da vida a teu menino, que a sol-posto
perde a sabedoria das crianças.
A falta que me fazes não é tanto
à hora de dormir, quando dizias
“Deus te abençoe ”, e a noite abria em sonho.
É quando, ao despertar, revejo a um canto
a noite acumulada de meus dias,
e sinto que estou vivo, e que não sonho.