quinta-feira, 30 de abril de 2009

QUEBRANTO


Foto by Fernando Campanella

Mira-te encanto traído
Teu vento virado
Na água.

Afasta a dor e o sentido
E lambe as tuas cinco chagas.

Afaga então a pedra
Invoca os deuses
desperta na concha do ouvido
O eco de luas sonhadas.


Corta o quebranto
Na lâmina funda
Da água.

Mira-te agora
Mira-te flor enquanto
Te espalhas em ondas
Na água.

Fernando Campanella

quarta-feira, 29 de abril de 2009

FACTUAL


Foto by Fernando Campanella


um estalido
cai uma folha seca
no quintal

factualmente

e o poeta retoma a velha tecla
e bate, bate
todo o outono que sente...

Fernando Campanella




FUCHSIA 'LA CAMPANELLA'


Fuchsia 'La Campanella'
(Brinco-de-Princesa 'La Campanella)
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terça-feira, 28 de abril de 2009

LA CAMPANELLA


Fulchsia 'La Campanella' *

(Poema dedicado à minha amiga Leila Laderzi)

Aquela senhora
toca um piano na tarde -
La Campanella* - as teclas ágeis
ondulando em mimos,
em vibrantes sinos delicados.
Imersos, cada um em sua estória,
uma sintonia de repente
nos toma, uma arte,
um rio profundo sem corte -

uma flor
em um certo azul que nos sonha.

Fernando Campanella



* La Campanella é o nome dado ao movimento final do Concerto para violino número 2 em B menor, de Paganini, porque o tom era reforçado por um pequeno sino de mão. Franz Liszt tomou emprestado esse tom e compôs várias peças baseadas nele, sendo a mais famosa o terceiro dos seis Grandes Estudos de Paganini, de 1851, também conhecido como La Campanella.

Ouça a peça por Franz Lizst:


* Flor da foto: Fuchsia 'La Campanella'.

"As plantas conhecidas vulgarmente por 'Brincos-de-Princesa pertencem ao gênero Fuchsia, família Onagraceae.

Todas são originárias da América Central e do Sul, excepto três espécies Neo-Zelandesas.
Existem espécies rastejantes, anãs e sub-arbustivas, bem como outras arbustivas de grande porte ( algumas podem atingir os 4 a 5 metros de altura).

Tanto quanto se sabe, os Brincos-de-Princesa foram introduzidos na Europa nos finais do século XVIII. A partir da primeira metade do século XIX, alguns horticultores dedicaram-se a desenvolver híbridos e cultivares destas espécies: o sucesso foi tal que , actualmente, se conhecem e se comercializam centenas de variedades. "
Fonte: htttp://aimagemdapaisagem.nireblog.com

domingo, 26 de abril de 2009

MÍNIMOS


Foto by Fernando Campanella

um sopro
ninguém viu
de onde vem
ninguém sabe*
aonde vai

um vírus
quase
nada

um
ponto
na
enseada

um quantum
envieza o olhar



uma artéria
e Roma não tem bocas
e Inês é folha morta


um dedo de luz
na chuva oblíqua
um arco de cores
instala

um vôo desanda a rota

ninhos desovam

um triz
frio polar
oceanos que resvalam

torres se movem
pés desarvoram

espelhos que descamam
não consigo me achar

um mínimo
e já não me sou

de repente
algo me sonha

Fernando Campanella

* "O vento sopra onde quer e ouves o seu ruído, mas não sabes de onde vem nem para onde vai - assim acontece com todo aquele que nasceu do Espírito."

(Jo, 3,8)

("Spiritus, ubi vult, spirat: et vocem

ejus audis, sed nescis unde veniat.

aut quo vadat: sic est omnis

qui natus est ex spiritu"

(Jo 3, 8)

sábado, 25 de abril de 2009

(E O AMOR QUE AGUARDE)


Tela de minha amiga Horleni
Foto by Fernando Campanella

Quero-te inteira, impossível, e nua
No ruído
Na sonância das harpas

No silêncio
Dos passos da noite na rua

Quero teu corpo, teu retrato
Teu astro

- gênese e posfácio -

Quero o templo absoluto de teu quarto

- E Tua memória,
Dor de minha ausência,
Pedra angular de minha estória -

Quero-te como ninguém assim quis
Como um moinho de ventos
Como sombra feliz

Com o sortilégio dos deuses
Com furor
Com a subserviência dos santos
Com pudor

Na fartura, na insolvência

Com a senha da morte
Com o desencanto
Com a estrela do norte

Quero-te carne em arte

(E o amor que aguarde -
O amor é coisa outra:
É trégua ou sorte)


Fernando Campanella








quinta-feira, 23 de abril de 2009

ANIMA


Foto by Fernando Campanella

Há um momento de errância
da distância que abres nos ventos.
É quando te chamo
E não me atentas.

Há este tempo em que me deixas,
tua sombra espúria
singrando a dormência dos lagos.

Mas meu sol de novo te acende
em algum instante
quando a alma de novo
consentes.

Não vês que mudo a sorte
que tenho a senha dos tempos

e que os gansos de longe
agora em teu verão adentram?

Então,
de teu cinza- morte
tua paisagem
é toda agora canto
e procriação.
Fernando Campanella