quinta-feira, 23 de abril de 2009

ANIMA


Foto by Fernando Campanella

Há um momento de errância
da distância que abres nos ventos.
É quando te chamo
E não me atentas.

Há este tempo em que me deixas,
tua sombra espúria
singrando a dormência dos lagos.

Mas meu sol de novo te acende
em algum instante
quando a alma de novo
consentes.

Não vês que mudo a sorte
que tenho a senha dos tempos

e que os gansos de longe
agora em teu verão adentram?

Então,
de teu cinza- morte
tua paisagem
é toda agora canto
e procriação.
Fernando Campanella

ANIMA (MILTON NASCIMENTO)


http://images.amazon.com/images/
P/B0000046J5.01._SCLZZZZZZZ_.jpg


Ouça 'Anima' , música de José Renato
e letra de Milton Nascimento:

http://www.youtube.com/watch?v=lRGMJiB6O8o

Lapidar
Minha procura toda
trama lapidar
o que o coração
com toda inspiração
achou de nomear
gritando: alma
Recriar
cada momento belo já vivido
e ir mais
atravessar fronteiras do amanhecer
e ao entardecer
olhar com calma
entãoAlma, vai além de tudo
o que o nosso mundo ousa perceber
casa cheia de coragem, vida
tira a mancha que há no meu ser
te quero ver
te quero ser
alma
Viajar nessa procura toda
de me lapidar
neste momento agora de me recriar
de me gratificar
de busto, alma, eu sei
casa aberta
onde mora o mestre, o mago da luz
onde se encontra o templo que inventa a cor
Animará o amor
Onde se esquece a paz
Alma, vai além de tudo
o que o nosso mundo ousa perceber
casa cheia de coragem, vida
todo o afeto que há no meu ser
te quero ver, te quero ser
alma
(Milton Nascimento)

A VIDA, ENFIM


Foto by Fernando Campanella

Se nascemos para o amor
para a celebração, não oficial, da vida,
não deixe, Deus, que eu me afogue
nas emboscadas de meus dissídios.
Venha a mim, a centelha exata
que relumbra , atravessa os pântanos
e inebria os párias.

Um mundo, enfim,
sem cifras nem mágoas.

Fernando Campanella, 1986

terça-feira, 21 de abril de 2009

POEMAS ANTIGOS


Julio César*
http://marius70.no.sapo.pt/julio%20cesar.gif



Olhai os animais do campo
que não torturam
nem vilipendiam
e lembrai aos ditadores
que não obstante seu fausto
jamais tiveram um sono pleno
como o deles.

Fernando Campanella, 1985


*" Na Roma antiga, quando a república enfrentava situações muito graves, os cônsules designavam um ditador que assumia todos os poderes até que se restabelecesse a normalidade...Modernamente, o conceito de ditadura aproxima-se mais da idéia de tirania da antiguidade do que da ditadura romana...Platão e Aristóteles enfatizaram que a marca da tirania é a ilegalidade -- o exercício do poder pela vontade absoluta de uma pessoa ou grupo ou a violação da legislação em vigor. Suas descrições de tiranias na Grécia antiga e na Sicília têm características muito próximas das formas que as ditaduras modernas adotam. Como os tiranos descritos, os ditadores ganham o controle social e político despótico pelo uso da força e da fraude. A intimidação, o terror e o desrespeito às liberdades civis estão entre os métodos usados para conquistar e manter o poder. A sucessão nesse estado de ilegalidade é sempre dificil."

Texto retirado do site: http://www.sosestudante.com/historia/ditadura.html

segunda-feira, 20 de abril de 2009

ANTÍQUA (I)


Foto by Fernando Campanella

Meu coração tem o lirismo rude
das charnecas (acridoce palavra).
Chegam os ceifeiros e o cortam -
arrancam –lhe os capins e os piolhos -
mas traz a teimosia,
a suave resistência dos restolhos
(bela palavra) : tosa-me o tempo ,
retrocedo, tudo me desaba
mas o que me podam é o que cresço.

Fernando Campanella

ANTÍQUA (II)


Foto by Fernando Campanella

Ali entre os juncais
a face de um deus esquecido
reberverava na tarde –
tua alma é antiga, junta-te a nós –
chamavam -me os juncos,
e tremiam
ao meu silêncio que era um vento
que eriçava a memória da água.

Fernando Campanella

domingo, 19 de abril de 2009

O NOSSO ALMOÇO ESTÁ GARANTIDO


Foto by Fernando Campanella


Recebi em e-mail enviado por um amigo um texto atribuído ao NETO (MENTOR MUNIZ NETO), diretor de criação e sócio da Bullet, uma das maiores agências de propaganda do Brasil. Trata-se de uma reflexão oportuna sobre a tão propalada crise mundial.

É bom termos em mente que quando se fala em crise econômica não é como se falássemos de fenômenos naturais como o terremoto de L’Aquila, na Itália, recentemente, nem das enchentes em Santa Catarina no verão passado, pois esses são democráticos, não tecem distinções entre pobres e ricos

Nem comparemos, pelo mesmo raciocínio, tal crise mundial às gripes Espanhola e Asiática que assolaram o mundo em um passado mais distante, ou à própria AIDS que a partir da década de oitenta do século XX desafiou a medicina, e carregou de tons sombrios a perspectiva de sobrevivência de nossa espécie.

Quando se fala em crise econômica mundial entenda-se crise de trabalhadores mundiais, perda de empregos, acirramento da pobreza e rebaixamento dessa condição à miséria.É quando se fazem arranjos, tomando-se decisões emergenciais para lá de frias e drásticas para que o capital permaneça nas mesmas mãos que o detinham.

Crise econômica mundial verdadeira acontecerá quando o tal 'capitalismo turbinado' morder o próprio rabo, tendo esgotado, por exemplo, os recursos hídricos do planeta. Quando houver guerra por água potável. Aí, será um Deus nos acuda, um salve-se quem puder: ricos contra ricos, irmão contra irmão, bancos contra bancos...

Então poderemos falar em crise global democrática, sem distinções, nivelada de cima a baixo. Imaginem um situação de racionamento extremo em que teremos de optar: ou bebemos a água, ou tomamos banho, ou lavamos nossos pratos.
(Fernando Campanella)

Eis o texto enviado:


"Vou fazer um slideshow para você.
Está preparado? É comum, você já viu essas imagens antes.
Quem sabe até já se acostumou com elas.
Começa com aquelas crianças famintas da África.
Aquelas com os ossos visíveis por baixo da pele.
Aquelas com moscas nos olhos.
Os slides se sucedem.
Êxodos de populações inteiras.
Gente faminta.
Gente pobre.
Gente sem futuro.
Durante décadas, vimos essas imagens.
No Discovery Channel, na National Geographic, nos concursos de foto.
Algumas viraram até objetos de arte, em livros de fotógrafos renomados.
São imagens de miséria que comovem.
São imagens que criam plataformas de governo.
Criam ONGs.
Criam entidades.
Criam movimentos sociais.
A miséria pelo mundo, seja em Uganda ou no Ceará, na Índia ou em Bogotá sensibiliza.
Ano após ano, discutiu-se o que fazer.
Anos de pressão para sensibilizar uma infinidade de líderes que se sucederam nas nações mais poderosas do planeta.
Dizem que 40 bilhões de dólares seriam necessários para resolver o problema da fome no mundo.
Resolver, capicce?
Extinguir.
Não haveria mais nenhum menininho terrivelmente magro e sem futuro, em nenhum canto do planeta.
Não sei como calcularam este número. Mas digamos que esteja subestimado. Digamos que seja o dobro. Ou o triplo.
Com 120 bilhões o mundo seria um lugar mais justo.
Não houve passeata, discurso político ou filosófico ou foto que sensibilizasse.
Não houve documentário, ONG, lobby ou pressão que resolvesse.

Mas em uma semana, os mesmos líderes, as mesmas potências, tiraram da cartola 2.2 trilhões de dólares

(700 bi nos EUA, 1.5 tri na Europa) para salvar da fome quem já estava de barriga cheia. Bancos e investidores.

Como uma pessoa comentou, é uma pena que esse texto só esteja em blogs e não na mídia de massa, essa mesma que sabe muito bem dar tapa e afagar... Se quiser, repasse, se não, o que importa? "O nosso almoço tá garantido mesmo...".
(Texto atribuído a Mentor Muniz Neto)